Ronnie James Dio
05.04.2001 - Credicard Hall - São Paulo - SP

ONTEM- Acredito que muitos dos seus pais nem haviam nascido ainda quando um baixinho de voz poderosa estreava no embrionário rock and roll. O ano era 1957 e o nome do vocalista, Ronald Padavona, que ficaria mundialmente conhecido como RONNIE JAMES DIO, para muitos "O DEUS DO HEAVY METAL". Criou a primeira banda ainda muito adolescente, com os amigos do colégio. Se apresentavam em aniversários e bailes onde, alem de ser responsável pelos vocais, também tocava baixo. Participaria de incontáveis bandas mas, a primeira a ter uma boa repercussão foi a ELF, com quatro discos lançados, dois deles produzido por Roger Glover, o grande baixista do DEEP PURPLE, o primeiro, em 1972.
  Em 1976, Dio é convidado a fazer parte do RAINBOW de Ritchie Blackmore, lenda viva da guitarra que como vocês já sabem, foi durante muitos anos o guitarrista do DEEP PURPLE, com quem já havia participado num disco solo. Durante sua permanência no Rainbow, compôs vários clássicos como "Stargazer", música tida como referência no Hard/Heavy Metal. Sua saída do "Arco Íris" foi em 1978 porem, essa magnífica passagem pela banda lhe valeu um convite para participar do BLACK SABBATH, onde substituiria nada mais nada menos que o "Mad Man" do rock and roll, uma outra lenda viva, ele, Ozzy Osbourne, onde gravou três antológicos discos: "Heaven And Hell", "Mob Rules" e o ao vivo, o pomo da discórdia que o afastou do Sabbath, "Live Evil", onde criou interpretações muito pessoais para clássicos do grupo.

O primeiro disco solo gravado por Dio foi o fantástico "Holy Diver", em 1983. Nesse excelente disco, várias músicas poderosas e referências instantâneas dentro do universo Heavy Metal. Cinco delas, praticamente obrigatórias em qualquer set list, em qualquer lugar do mundo onde Dio se apresente com a sua banda. São elas: "Stand Up And Shout", "Holy Diver", "Gypsy", "Don't Talk To Stranger" e "Rainbow In The Dark". E por falar em banda, Dio sempre esteve escudado por músicos de primeira grandeza. Da gravação do "Holy Diver", participaram o ex-Black Sabbath Vinnie Apice, na bateria; Na guitarra, Vivian Campbell, que dispensa comentários e no baixo, o ex-Rainbow, ex-Thin Lizzy, Jimmy Bain, único remanescente da primeira formação com participação no CD "Magica", último lançamento de Ronnie James Dio e também nome da turnê.

Com mais altos do que baixos durante a sua longa carreira (que esperamos esteja bem longe do fim!), Dio nunca mais gravaria um disco com tantos destaques como no "Holy Diver". Mas chegaria bem perto no segundo disco, mantendo a mesma formação do primeiro, o super festejado "Last In Line" de 1984. Dele, mais dois hits instantâneos: "We Rock" e "The Last In Line". Outros grandes álbuns solos de Ronnie James Dio são: "Dream Evil", "Sacred Heart", "Lock Up De Wolves" e "Angry Machine". Participou também de dois tributos: um ao ALICE COOPER e o outro ao AEROSMITH. É dele a voz em três musicas do solo de Roger Glover, "Butterfly Balls".

HOJE- Uma nova febre assola a indústria da musica com o nome de "Tributo". Existem trabalhos formidáveis, mas existem muitas, mas muitas tranqueiras com a única finalidade de arrecadar alguns trocados. Não é o caso de "HOLY DIO", de 1999, que conta inclusive com um texto do homenageado, no encarte do CD, agradecendo aos participantes. E são grandes as bandas que participam desse tributo, entre elas, "Primal Fear", "Jag Panzer", "Fates Warning", "Hammerfall" (que esteve recentemente no Brasil, leia texto nesse portal), "Gamma Ray", "Grave Digger", "Stratovarius", só para citar as mais conhecidas.


A citação desse tributo é só para exemplificar a alta estima devotada a esse duplamente poderoso vocalista, tanto pelas bandas mais antigas como pelas mais recentes. Possivelmente, ao lado do grande Lemmy Kilmister do MOTORHEAD, Dio seja um dos mais cronologicamente "velhos" no reino da música pesada. Idade que não interfere em seus poderosos agudos e extensão vocal, cantando igual cantava no "Holy Diver" de 83 citado acima, se tomarmos como referência o início como solo. E isso não é pouco. Eric Adams, vocalista do MANOWAR, outra referência no Heavy Metal, quando esteve no Brasil a uns dois ou três anos, deu umas pipocadas enquanto cantava, principalmente durante a última da noite, a belíssima "Battle Hymn". Não escrevo isso em tom de crítica mas, apenas como exemplo da implacabilidade do tempo que não perdoa nem os melhores mas, por enquanto, o poderoso baixinho ainda está fora dessa praga!
 
 
 
 
 
 

"Magica", esse último trabalho, mostra um alto grau de sofisticação. Nesse primeiro trabalho considerado conceitual, ou seja, um tema amarrando todas as músicas do álbum, Dio desenvolve um enredo, com planetas, personagens, heróis e vilões, livro mágico, que bem poderia servir como tema para um filme de ficção científica. As complexas texturas musicais conseguidas com o auxílio da fantástica banda que o acompanha são também exemplos dessa sofisticação. Se não para um filme, esse trabalho bem que poderia ser utilizado numa "Ópera Rock", a exemplo do que aconteceu com "Tommy" do THE WHO. E Dio já prometeu mais dois álbuns dando continuidade ao tema.

Uma pequena visita no site oficial (www.ronniejamesdio.com) , principalmente na parte referente a shows, com datas até mais da metade de 20001, serve como referência de como Dio está mais do que nunca na ordem do dia no mundo da música pesada contemporânea de qualidade. Não se trata de alguém que busca visibilidade através de escândalos ou assemelhados, comuns no pop fabricado, padrão MTV, mas de um artista que se mantém por suas próprias qualidades musicais, permanecendo fiel a um estilo que ajudou a moldar.

O SHOW - O Credicard Hall é com certeza a melhor casa de shows de São Paulo. Tem capacidade para sete mil pessoas divididas em pista, arquibancadas, cadeiras e camarotes. A pista é bem ampla e, para muitos, este é o lugar do roqueiro que se preza, no meio da muvuca, no olho do furacão. Uma cadeirinha de vez em quando é legal, mas nada como a proximidade do astro, o mosh, o stage dive (quando liberado), etc. O teto é altíssimo com dois telões laterais com imagens de quem sabe o que está fazendo. No show do Dio, o volume estava "loud than hell" ("mais alto que o inferno"), do jeito que tem que ser em um show de rock. O único problema do Credicard é a distância, longe demais para quem mora na zona Leste, como eu.

Tacy G., o guitarrista que acompanhou Dio no Palace (atual DirectTV Music Hall) em 1995, mudou todos os solos de todas as músicas consagradas do artista, criando um grande descontentamento nos fãs brasileiros, entre os quais, este seu escriba, que esteve no show e se inclui. Falo do Brasil, mas como fã é igual em qualquer lugar do mundo, acredito que a decepção não foi uma exclusividade nossa. Dio, que mantém total controle sobre a sua obra, com certeza percebeu esse descontentamento e, para não recair no mesmo erro, dessa vez se fez acompanhar de um guitarrista de peso, o exímio Craig Goldy, que já havia participado da turnê do álbum "Sacred Heart" e da gravação do "Dream Evil". Os demais membros também não decepcionaram. No baixo, o já citado Jimmy Bain, outro músico fantástico mas que devido ao envolvimento com drogas, ficou mais de quatro anos ausente dos palcos. Na bateria, Simon Wright, que tocou no álbum "Lock Up The Wolves", que não chega a ser um Vinnie Appice, mas executa muito bem a sua função e, nos teclados, Scott Warren.

Os fãs presentes no Credicard Hall, com certeza estavam esperando os grandes clássicos de Dio. Mas, a turnê é do CD "Magica" e, segundo palavras do próprio Dio, uma obra conceitual só tem sentido se interpretada na integra. Então, como satisfazer os fãs e apresentar o trabalho novo num máximo de duas horas de show? A solução encontrada foi tocar temas que se intercalavam e explicavam a história sem comprometer o todo e, reservar a "segunda" parte da apresentação, para os clássicos que fizeram a reputação de Ronnie James Dio. Claro que não foi possível tocar todos mas, pelo menos a maior parte deles.

  A velha e infinita disputa entre o bem e o mal pontua o novo disco de Dio. O grande "herói" nesse trabalho novo é um livro mágico e, traz todos os elementos de uma boa trama, conforme o já citado. As músicas são pontuadas por vocais sintetizados que lembram a banda alemã KRAFTWERK. A grupo apresentou mais ou menos quarenta minutos do novo material muito bem costurado. Se o público não mostrou muito entusiasmo, por outro lado, assistiu de forma respeitosa a grande qualidade musical/instrumental de Dio e banda. Durante algum tempo, o guitarrista ficou sózinho no palco, num solo de poucos minutos com uma boa comunicação com o público. Mas a coisa pegou fogo mesmo quando Dio detonou os clássicos. E não foram poucos!
 
 
 
 

Sabe aquela seleção, "o melhor do melhor"? Pois é meus camaradas e minhas camaradas, foi justamente o que rolou para a alegria dos felizardos que estavam no Credicard naquela quinta feira. "Holy Diver" o primeiro petardo, tem um daqueles riffs de guitarra que cola na cabeça da gente. Numa entrevista no caderno "Folha Ilustrada" da Folha de São Paulo, Dio havia dito que não cantaria músicas da sua fase no Black Sabbath e no Rainbow. Graças aos deuses e aos céus ele não cumpriu a promessa. Durante os últimos acordes de "Holy Diver" emendou "Heaven And Hell" da fase "Sabbath". Eu falei o melhor, não se esqueçam. "Rainbow In The Dark" ("Arco íris no escuro") está bom pra vocês? Outro daqueles riffs fantásticos. Os PAs parecem que vão explodir com a poderosa voz do grande "front man". Por favor, não se esqueçam: não estamos falando de alguém com vinte e poucos anos, mas de um homem com quase seis décadas!

Uma pequena pausa de poucos minutos. Vamos ouvir o homem: "São Paulo is fucking best. São Paulo is the fucking best place in the world!" ("São Paulo é fudidamente a melhor. São Paulo é fudidamente o melhor lugar no mundo!"). Se ainda existia um pouco de "sanidade" na platéia, depois da fala da "voz do Metal", já era. Um detalhe interessante é que Dio usava uma camiseta com uma grande cruz, numa espécie de referência ao grande Black Sabbath. De vez em quando eu vacilava, embalado pela guitarra de Craig Goldy e tentava enxergar Tony Iommi em um dos lados do palco! Sou tirado desse transe por "Last In Line". É uma das minhas preferidas e sem querer eu me lembro do vídeo dessa musica e nele, um grande elevador leva pessoas para um lugar dominado pela figura medonha da capa do álbum que, se não era o belzebu era alguém muito próximo!

E Dio provoca os alucinados em tempo integral com o famoso sinal da besta. Na borda do palco uma forte luz vermelha vinda de baixo ilumina o seu rosto, incendiando ainda mais as imaginações. Uma outra coisa que merece ser comentada é justamente o espaço que separava o palco da platéia. Suficientemente pequeno para permitir constantes toques de mãos entre ídolo e fãs. A próxima da noite é "The Man In The Silver Mountain" seguida de outra promessa quebrada, uma clássica do Rainbow, "Long Live Rock And Roll". E teve também "Neon Nights". Dio parecia muito feliz na sua quarta vez no Brasil. Em 92 esteve com o Black Sabbath, na clássica formação; Em Novembro de 95, como solo, no antigo Palace citado acima e, em 1997, no Skol Rock. Mais de meia noite. Sexta Feira. Em poucas horas muitos teriam que ir trabalhar. Mas ninguém arredava o pé. Todos esperando o bis. "Gypsy" é o primeiro finalizando com "We Rock". Mas todos queríamos mais. Dio e banda ainda no palco jogando baquetas e palhetas pra rapaziada. Mas, as cortinas do palco se fecham literalmente enquanto as luzes do Credicard Hall são acessas indicando que acabou mesmo.

Do lado de fora dois flanelinhas FDP, conforme anunciado nos jornais do dia seguinte, quebraram vidros de cerca de quarenta carros para roubar toca fitas e etc. Com certeza foi uma péssima surpresa para os proprietários que não quiseram morrer com 10 pratas com estacionamento. Um camarada com os olhos roxos e a boca meia estourada observava com raiva a saída de todos. Um mar de roupas pretas tomava conta da frente do Credicard Hall e adjacências. Pequenas estórias entrelaçadas na construção da grande História. Em comum, a felicidade de ter assistido um show memorável, num grande momento da carreira de Ronnie James Dio, o que já é muita coisa. Eu sei que vocês já sabem disso, mas We Rock! See you next show! LONG LIVE RONNIE JAMES DIO!!!

Niva dos Santos - especial para o Portal do Rock

Arte e Fotos - Paulo Vinicius

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