Show


23/03/2002 - Hangar 110 - São Paulo - SP
Abertura: REEFER - JAIL FOR LIFE - GARAGE FUZZ

Sábado começou meio esquisito. Às onze horas o Felipe do SKEMA 13 ligou para minha casa avisando que o festival daquele dia não ia rolar mais. Explico. Estava marcado para Sábado 23 às 14:00 horas, um pequeno festival Punk/hardcore numa pista de skate na Rua Tito, na Lapa, Zona Oeste de São Paulo. A minha banda (Pátria Armada) seria uma delas e as outras quatro, SKEMA 13, LESS HALES, PIZZA CRUSHER e 100 RUMO. Simplesmente o Felipe chegou com a aparelhagem para montar no pico e o mesmo estava fechado. Motivo: um skatista, numa manobra infeliz, caiu batendo com a cabeça e, infelizmente, faleceu. A prefeitura fechou a pista e não se preocupou em avisar ninguém. O cancelamento foi o mal menor, pior foi a morte do brother.

 

Mas eu também havia combinado com o Francesco da F Records que eu iria fazer as correrias e se desse, a noite eu estaria no Hangar para assistir a banda FLATCAT e as demais marcadas para aquele dia. Cheguei no Hangar e não vi ninguém do lado de fora. Passava das nove da noite e eu até imaginei, "será que miou também?". Ledo engano! Hangar lotado, no palco a banda REEFER nos últimos acordes. Não conheço o som dos caras mas, com certeza, pelo pouco que eu ouvi, é HC melódico. Faltava ainda o FLATCAT e os santistas do GARAGE FUZZ. O interessante é que o "Flat" não fechou a parada, subindo logo depois da Reefer. Mesmo não sendo muito conhecida no Brasil, boa parte da galera se mostrava ansiosa para assistir à banda.

Banda originária de uma pequena cidade da Bélgica de nome Jabekke, as influencias admitidas por eles vem dos grupos ALKALINE TRIO (Emo-Punk) e NO USE FOR A NAME (Punk Melódico). Formada em 1994, a banda esteve no Brasil em 2001, numa pequena tour por algumas cidades de São Paulo, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. A tour de 2002 foi batizada de "Better Luck In The Next Interference Brasil Tour 2002", uma referencia ao disco "Better Luck Next Time" lançado no Brasil (antes da Europa) pela Highlight Sounds e também ao disco da Reefer, banda escalada para acompanhar os belgas em todos os shows agendados no Brasil, chamado "Interference".

Nunca e demais lembrar que o Hangar é muito quente. E a temperatura subiu ainda mais com os caras no palco. E eu me sentindo o tio avô. Punk das antigas adeptos de HC Old School não freqüenta shows de HC Melódico. Os "veios" que eu costumo trombar em show do EXPLOITED, por exemplo, nenhum deles estava lá. A rapaziada mais "radical" da periferia, também não.

Eu acho que é por ai mesmo, não gosta não vai. Como eu não sou nem um pouco adepto da mentira, minha praia também é os 80's mas, profissionalmente e pessoalmente eu respeito qualquer tipo de musica bem feita independente de rótulos. Por outro lado, eu acredito que esta ocorrendo uma pasteurização nessa fatia do Punk. Os vocais e as linha melódicas, por exemplo, eu não consigo diferenciar muito bem entre as diversas bandas que abraçaram esse estilo.

A música do FLATCAT (Minx, voz e guitarra; Alex, baixo e voz; Dirk, guitarra e Wim na bateria) é muito honesta. A coerência com as influencias admitidas, foi o que se viu no show dos caras. E eles são muito simpáticos e divertidos, mantendo um ótimo relacionamento publico/banda. Como eu citei acima, mesmo não sendo muito conhecidos no Brasil, boa parte do pessoal cantou com a banda algumas das suas musicas. Publico numa faixa etária de 22 anos para baixo, não tenho duvida nenhuma em afirmar que, HC melódico é musica feita por adolescentes para adolescentes. E não existe nenhum tipo de preconceito no que eu estou afirmando. Com certeza, a comunicação flui bem melhor entre iguais.

O set da noite foi um misto do disco anterior com o trabalho novo. A primeira musica apresentada foi "Live Free Or Die". A resposta foi imediata em pogo e stage dive. Seguinte povo: sobe no palco e pula! Disputar o microfone com o vocalista só atrapalha o show. Durante a quarta musica "Trying Harder", alguns até se arriscaram em cantar acompanhando o grupo. "Popular Guy", a quinta, incendiou um pouco mais a rapaziada. "Silly Girl", cover do DESCENDENTS,, tenho a impressão que era a mais esperada da noite. Pra finalizar "Environmental", que ninguém é ferro.
 
  GARAGE FUZZ - Numa noite onde o idioma "on stage" foi o inglês, o pessoal do GARAGE FUZZ merece um parágrafo especial. Antes de mais nada, sou obrigado a admitir que, cantar em inglês, acaba sendo uma faca de "dois legumes" porque, ao mesmo tempo em que a escolha desse idioma busca alcançar mercados mundiais, essa escolha também priva os jovens brasileiros de entender a "mensagem" da banda. Mas, como dizia o velho e bom RAUL SEIXAS: "Faça o que tu queres pois é tudo da lei". Mas, vamos ao "Garage".

O GARAGE FUZZ tem mais de 10 anos de estrada e uma discografia fantástica para uma banda alternativa brasileira. Tudo começou num pequeno quarto em Santos em 1991. "Daylight" foi a primeira demo com 6 musicas e, a partir daí, a banda não parou mais, tendo inclusive feito parte do cast da Roadrunner e estando atualmente na americana One Foot Records. No momento, a banda tem o ao vivo "3500 Days Alive", gravado ao vivo em Santos em 2001, lançado pelo selo brasileiro Highlight Sounds. Alguns dos CDs do grupo tem distribuição em mais de 15 paises.


E parece que o "Garage" era a banda mais esperada da noite. Particularmente, foi o show que eu mais gostei. A maturidade musical dos caras é visível sobre um palco. Bases consistentes, riffs fudidos, solos constantes do excelente guitarrista Fernando Zambeli. A banda toda é muito boa mas, Fernando se sobressai. E o público se comportou como velhos fãs, apesar da faixa de idade. O set foi de quase quinze musicas. A banda abriu com "A Bitter Taste", de cara, juntando uma massa compacta em frente do palco. A segunda foi "Stream". Pelo repertorio dava para perceber que os caras haviam feito um belo apanhado dos seus CDs, demos e algumas novas. Teve também, "Embedded News", "Tireless On Fire", "Saved In Time", "Pitiable", etc. Um grande show.

Acredito que o GARAGE FUZZ é um bom exemplo de como fazer parte de um estilo com identidade própria. É HC Melódico mas, não é só isso. O trampo de guitarra e a grande variação de riffs citados acima, é o maior diferencial da banda. Alexandre Cruz no vocal também manda muito bem e também os demais membros da banda (Wagner Reis na outra guitarra, Fabrício Souza no baixo e Daniel Siqueira na Bateria). Foi uma grande noite. O som acabou antes da meia noite então, quem dependia de metro ou busão teve como voltar para casa . Esse escriba é um deles. Parabéns para todas as bandas, inclusive aquelas que eu vi só parte do show ou nada do show. Parabéns também para o excelente público (mais de 300 pessoas). Parabéns para todos nós, que mantemos o Punk/Hardcore mais vivo do que nunca!

Niva dos Santos - especial para o Portal do Rock
Fotos: Francesco I. Coppola

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