Show do The Exploited
Hangar 110 - 03.11.00 - S. Paulo

"Fucking boiling" é qualquer coisa parecida com "quente prá caralho". Fucking boiling foi a expressão que WATTIE, vocalista, mentor, front man , dono do EXPLOITED, mais usou na sexta 03 de Novembro de 2000, depois das 23:00 horas, horário em que a banda subiu ao palco (na verdade, "desceu ao palco" porque os camarins ficam acima do nível do mesmo), saciando a vontade de um bis, da "Velha Guarda" do Punk Rock brasileiro que havia assistido a banda pela primeira vez no Brasil, no falido Aeroanta no início do 90 e a sede dos que ainda não haviam visto uma grande banda inglesa de Hardcore dos 80, dignos representantes da segunda onda do Punk Rock.

  Antes do Exploited, num set de meia hora para cada uma, se apresentaram as bandas SICK TERROR, INVASORES DE CÉREBROS e CALIBRE 12. Cheguei no Hangar já era quase dez horas e naquele momento se apresentava a Invasores de Cérebro, com 13 anos de estrada. Depois vieram o pessoal do Calibre 12, com um set arrasa quarteirão, peso descomunal, mostrando que uma segunda guitarra faz uma grande diferença em apresentações ao vivo. Não que seja impossível conseguir uma massa sonora coesa com uma guitarra só.
 
 

A diferença é que o baixista sofre muito mais para evitar os detestáveis buracos quando, por exemplo, o guitarrista executa um solo. No estúdio, não tem problema nenhum, é só dobrar a guitarra (overdub). Ao vivo é que o bicho pega.

Dois senhores de cabeças raspadas, baixista e baterista são os primeiros membros do Exploited a "subirem" no palco, seguidos por um cabeludo, o guitarrista, meio estranho no ninho com visual mais grunge do que punk (isso não quer dizer nada, se o cara é competente ou não e, ele mostraria competência . Cito apenas como curiosidade). O Expolited já mudou trocentas vezes de formação durante os mais de vinte anos de estrada. Da formação inicial, só restou o velho WATTIE. O encarte do último disco da banda BEAT THE BASTARDS, trás os seguintes nomes e respectivos instrumentos: Wullie Buchan na bateria e na guitarra base (?); Jim Gray no baixo; Jamie Buchan na guitarra e, é claro, Wattie nos vocais. O Hangar está lotado. Fucking boiling! O Hangar deve ter uns 500 metros quadrados, incluindo o palco e tudo mais. Numa média de 4 pessoas por metro quadrado, acredito que no mínimo mil se espremiam naquele inferno de Dante.

Tambores de guerra. Wattie desce para o palco com uma camiseta onde se lê "stop" e logo abaixo um símbolo nazista cruzado por uma barra, clássica indicação de proibido. Uma pá de idiotas bêbados ( que no outro dia não se lembrarão de merda nenhuma muito menos do show) já enchem o saco, atropelando todo mundo, isso antes do show começar. "How you do?" ( como vão?) , ou quase isso, num inglês quase indecifrável é o primeiro contato de Wattie com o público. "Let's Start a War..." é a primeira tijolada da noite. Que me desculpe o Hangar mas, que merda de aparelhagem! Wattie dá inicio aos zilhares de "fuck" e "fucking" que ele soltaria durante toda a apresentação.  
 
Os primeiros endereçados ao retorno do vocal que pelo jeito estava péssimo, o que só mudaria quase no final do show, quando finalmente conseguiram acertar (eu acho!). Começa também um festival de cuspidas entre o público e Wattie . Cabe aqui uma observação meio na base dos Tostines: Wattie cospe na audiência porque a audiência cospe nele ou a audiência cospe no Wattie porque Wattie cospe neles? Só sei de uma coisa: puta negócio nojento que não tem nada a ver!
  Lá pela terceira música, Wattie, já arrancou a camiseta e está todo molhado (suor, cuspidas?). Usa um moleton com o nome da banda estampado. Piercing no nariz, no umbigo, nas sobrancelhas e muitos nas orelhas. O corte moicano já não existe mais. No lugar alguns falsos dreads cor de rosa. Baixista e baterista também com vários piercings. Wattie abre latas de cerveja, dá um gole e entrega para alguém de frente ao palco e também garrafas de água.
 
 
 
 
 

Num determinado momento briga para tentar abrir um frasco de Gatorade. Muitos "stage dive" (mergulho do palco). Stage é legal. Você sobe, faz uma graça e pula (se você não tiver ninguém pra te segurar, dançou meu camarada). Mas é o seguinte. Tem neguinho chato pra caralho. Sobe mil vezes no palco. Quer "cantar" e o cacete. Quer mostrar a "caveira", logo do Exploited, para o Wattie, tatuada no braço. Abraça o cara uma vez e quer abraçar de novo. Quer aparecer mais do que a banda. Acho que eu estou ficando velho. Todo exagero é uma merda...

Apesar dos pesares a pancadaria musical continua. O repertório do Exploited é muito vasto. Mas eles escolheram muito bem o set da noite. "Alternative", "Dead Cities", "Dogs of War", "Fuck USA". A aparelhagem continua apitando. O intervalo entre as musicas é grande devido às falhas no equipamento. Wattie xinga. De vez em quando entrega o microfone sem fio pra galera da frente, que some e logo reaparece. A finalidade é fazer o pessoal cantar junto com ele mas, acredito, é também uma espécie de vingança em relação ao caos sonoro, no mal sentido, tipo, "some com essa merda". Quando o microfone "some" , o Baixista segura a onda nos vocais. "Fucking boiling", reclama Wattie novamente. Verão inglês é inverno nosso. E estava quente mesmo. E se estava para os acostumados com o calor, imagina para eles? "Massacre" é a próxima música. O microfone sem fio não funciona mais. Vai no "com" fio mesmo. Wattie continua entregando o microfone pra galera da frente. Puxa daqui, enrosca dali, maior treta para os seguranças retomarem o danado. De vez em quando o baixista, muito sorridente, gente fina, solta um "obrigadu" e, porra, não dá pra entender nothing do que o Wattie fala! E você vai dizer: e dai pôrra! E você tem razão. E DAI PÔRRA! Meia noite e uns quebrados e um "Good night" (boa noite) depois, a banda sai do palco.


Antes que eu me esqueça, do disco novo, "Beat the Bastards" eles tocaram a música título, para mim uma das mais fudidas já feitas pelo Exploited e, também, "Law For The Rich". Do EP, "Jesus is Dead" a faixa "Drug Squad Man". Eu queria que eles tivessem tocado a música titulo do EP, mas, não se pode ter tudo. Além dessas que eu citei, tocaram muitas outras mas, infelizmente, não consegui descobrir o nome de todas.
 
 
 
 
 

EXPLOITED, EXPLOITED! É a hora do bis. Tocaram todas as músicas que todos queriam? Claro que não, muitas delas mas, faltava uma especial. "Sex and Violence". Acredito que é o nome o que faz dessa música uma das preferidas dos fãs do Exploited. A Letra é basicamente "Sex and Violence" numa base que se repete. Mas é uma música que permite dar uns pogo legal, já que a levada é bem Punk Rock clássico. A última da noite foi "Punk's Not Dead". Foi um bis um pouco meia boca mas, os caras, banda e rapaziada, já estavam só o caroço e, alem do mais, foi um show fudido, apesar da aparelhagem ruim, de uns neguinhos sem censo de limite atrapalhando no palco e dos chapados sem noção.

Bom também foi que não teve treta nenhuma. Pessoal das antigas, rapaziada do skate, punk sangue novo, mesmo alguns playboys e patricinhas desgarrados, enfim, o básico, todos na maior paz.

Do lado de fora sopra um vento frio. Algumas viaturas da polícia aguardam a saída. Para a alegria ou tristeza dos meganhas dentro delas, não rola nada de errado. Amanhã é sábado e tem mais um show da banda. Com certeza, muitos voltarão. Talvez entre eles, alguns daqueles chapados, com um pouco mais de juízo e, finalmente interessados em aproveitar a última chance, ou seja, menos cachaça e mais música. Da minha parte, desejo sinceramente que a banda ainda tenha muitos anos de vida e que não demore tanto tempo quanto da última vez para voltar ao Brasil.



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Niva dos Santos - da redação