Balada - Ian Anderson
14/04/2005 - Credicard Hall - S. Paulo - SP

Bem que o show poderia ter sido batizado de “Noite Quente em São Paulo” (Hot Night In São Paulo), pegando carona em uma das muitas belas canções do JETHRO TULL, “Hot Night In Budapest” (do LP “Crest of a Knave”), que inclusive fez parte do set da noite. Nomes à parte, mais uma vez o grande menestrel – criador de salmão e gatos de Bengala (um cruzamento do Gato Leopardo Asiático com gatos domésticos, resultante de um experimento iniciado na década de 70 sobre resistência à Leucemia Felina – leia sobre em www.j-ull.com/cats.htm), e apreciador de pimentas - nos honrou com a sua visita, dessa vez solo, mas acompanhado de um time de músicos de primeira linha, além da fabulosa ORQUESTRA POPULAR PAULISTA.



E por falar em solo, enganou-se quem imaginou que ele só tocaria músicas dessa variável de sua grande carreira, muito embora eu tenho certeza que ninguém em nenhum momento pensou nessa possibilidade. Por outro lado, Ian Anderson é Jethro Tull e vice-versa. Dos músicos que acompanharam Ian Anderson no Credicard Hall, três participaram do seu último vôo solo chamado “Rupi’s Dance”. São eles – John O’Hara, maestro, tecladista e acordeonista; James Duncan, na bateria e percussão; e David Goodier, no baixo. O quarto músico foi o guitarrista (perfeito!, sorry Martin, as good as you are!), Florian Ophale.

 

Digamos que as faixas etárias estavam bem distribuídas no palco, assim como na platéia (com valores de ingresso entre R$ 80,00 e R$ 230,00!) – Anderson e Goodier, acima dos 50 anos; O’Hara, na faixa dos 40; e Duncan mais Ophale, com seus 20 e alguma coisa. Off course, que essa merda de idade não interessa, mas é só uma curiosidade.

Como eu disse, a idade dos fãs também variavam, como era de se esperar, já que o Jethro Tull-Ian Anderson estão na ativa há quase 40 anos, só que bem mais, talvez iniciando em algo parecido com 16 e chegando quase aos 60. Surpresa! Márcio Canuto, da Rede Globo, estava na primeira fileira de cadeiras, bem em frente ao palco. Na fila de convidados, ainda do lado de fora, vi o Roger do Ultraje à Rigor.

O ruim da noite é que não poderíamos fotografar com flash, mas se o mestre mandou, que assim seja. O show foi dividido em três partes – as três primeiras músicas - “Eurology”, “Calliandra Shade (The Cappuccino Song)”, “Skating Away on the Thin Ice of a New Day”, “Up the Pool” e “We Five Kings” -, só com a banda, seguida de sete músicas – “Life is a Long Song”, “Stronger Stuff”, “Wond’ring Aloud”, “Griminelli’s Lament”, “Cheap Day Return”, “Mother Goose” e “Bouree” -, com a adição da orquestra.


Depois de um intervalo de 20 minutos, mais duas – “Boris Dancing” e “Living in the Past” -, só com a banda, seguida de mais seis – “Pavane”, “Aqualung”, “God Rest”, “My God”, “Budapest” e “Locomotive Breath” -, novamente com orquestra. Esse velho escriba ainda não ouviu o último disco solo de Anderson, portanto, algumas das músicas eu não conhecia. Mas, é só um detalhe, porque tudo foi PERFEITO! Lembremos que quando a orquestra entrava em cena a banda também continuava.



O show começou à 21:40 horas, com a instrumental “Eurology”, magnífica canção do “Rupi’s Dance”. Nada de guitarra, onde o acordeão, ou sanfona (dependendo da região do Brasil) é usado de forma magnífica. Na segunda música, Anderson usa um tipo de flauta de bambu, que ele saca de uma providencial cestinha metálica estrategicamente preso no pedestal de seu microfone, como ele faz há muito tempo. Ian usa uma mesinha de som, onde regula os volumes, de acordo com a música.

Mas tudo é feito de forma discreta como é da característica desse escocês. A magnífica “Skating Away”, do disco “War Child” aumenta o frison na platéia, como era de se esperar, já que é mais conhecida. “Up the Pool” é sobre a terra natal de Ian Anderson, Blackpool. Anderson brinca com os fãs e diz que o lugar não é grande coisa, a “shit hole”. Gargalhada geral entre os que dominam ou se viram com o idioma de Shakespeare.

Através do uso de teclados, ou mesmo de um naipe de cordas e metais, o Jethro Tull sempre pendeu para o lado sinfônico. Como ocorre no disco “Minstrel in the Gallery”, de 1975, com quatro violinos e um violoncelo.

Então, claro que com arranjos surpreendentemente novos, a incrível participação da Orquestra Popular Paulista impressionou, mas se você fechasse os olhos poderia imaginar sobre o palco, pelo menos, o grande sir Martin Lancelot Barry na guitarra, que junto com Ian Anderson representam a essência do Jethro Tull!

 
 

“Life is a Long Song” (A Vida é uma Longa Canção), que agora eu não me lembro de qual disco do JT é, foi a primeira com a orquestra. É bom dizer que quatro musicas do essencial “Aqualung” fizeram parte do set, como os iniciados já devem ter percebido no set que já foi caguetado logo acima. E nesta participação da orquestra, “Cheap Day return” foi uma delas. Anderson soube mesclar perfeitamente parte do seu trabalho solo com os do JT.

Pensem, não deve ser fácil preparar um set list com 40 anos de carreira! “Mother Goose”, outra do “Aqualung”, foi interpretada com flauta, oboé e fagote. Explendido! Em seguida, a releitura de Bach na clássica “Boureé”, que saiu originalmente no LP “Stand Up”. Fim da primeira parte, que durou cerca de 50 minutos. Um intervalo de 20 minutos e Ian voltaria com a banda para executar mais duas músicas antes da reentrada da orquestra.


As fotografias. O pessoal da imprensa teve o tempo de três músicas (durante a 6a, 7a e 8a ) para fotografar e filmar na frente do palco. Eu acredito que o tempo foi mais do que suficiente. Mais tempo seria interessante, mas o pessoal que pagou uma nota preta, não gostou muito de ter a visão atrapalhada por alguns que insistiam em ficar em pé, e não literalmente de joelhos frente ao mestre. Mas, o problema foi à proibição de flash, como eu já disse.



Eu estava com uma máquina de película (Nikon F), com filme ASA 100, que eu “puxei” para 400 e usei 60 de velocidade. Não sei se saiu alguma coisa porque não terminei o filme ainda. Felizmente, o grande fotógrafo Ricardo Zupa (www.ricardozupa.com.br), que usou uma poderosa câmera digital, forneceu gentilmente as fotos que ilustram essa matéria. Nosso muito obrigado, valeu Ricardo (veja em seu site mais de 100 fotos do show)! Mas, vamos à segunda parte.



E foi mais do que excelente, cerca de 60 minutos da melhor das músicas. Como ficar imune à superclássica “Living in te Past”?! Impossível. Banda entrosadíssima, Ian Anderson em suas poses clássicas, soltando sons, grunhidos, etc., de sua flauta. Volta a orquestra. Você alguma vez ouviu um dos mais famosos rifes de guitarra do mundo executado por um violoncelo? Foi assim com “Aqualung”! A estrutura espacial futurista de aço maciço do Credicard Hall sofreu uma de suas mais duras provas, várias mil pessoas em puro êxtase de gritos, palmas e bater de pés. Algumas vezes o menestrel precisou discretamente levar o indicador da mão direita à boca no clássico pedido de silêncio...



Acredito que todo fã sempre que vai a um show espera do artista uma música que ele certamente não vai tocar. Com o Ian Anderson, mais ainda, afinal, são 40 anos com o JT, apesar dele estar solo! Um engraçadinho gritou não se sabe de onde – “Toca Raul!!”. Um moleque chapado enchia minhas orelhas com uma conversa indecifrável. Chiiiiiiu...!!! Vamos ouvir, “My God”, mais uma do precious “Aqualung”. Essa ficou “bem” Jethro Tull! Eu já escrevi em textos anteriores que Ian Anderson quase perdeu a voz, então ele desenvolveu uma técnica em que ele força mais o abdômen do que a garganta quando canta. E foi assim, claro, que ele se apresentou durante todo o show. Seria bom ouvi-lo na forma antiga, mas o mestre consegue à sua maneira dar continuidade à lenda!



Eu poderia dizer que o melhor ficou para o final, mas não seria verdade em um show onde tudo funcionou como um relógio pelas mãos do perfeccionista Ian Anderson, apesar do maestro da noite ter sido o excelente James Duncan. Mas, “Budapest”, do CD “Crest of Knave” é uma das minhas preferidas, digamos, da fase do Jethro Tull compreendida nos últimos 20 anos (o disco é de 1987). A versão apresentada foi uma mistura perfeita de orquestra e banda, com passagens suaves e andamentos um pouco mais acelerados em 12 minutos de execução.

O pessoal da imprensa sempre recebe no Credicard Hall o set list da noite. Dessa vez foi para saber quando poderíamos fotografar. Receber o set é legal e também ruim. Legal porque você já sabe que “aquela” vai ser tocada e aguarda ansioso, além de ficar esperando a reação do público quando da execução das mais clássicas. Por outro lado, é como se você entrasse no cinema já sabendo o final do filme. E nós já sabíamos que a última seria “Locomotive Breath”, como já foi dito, outra do essencial “Aqualung”, que ela seria o bis (ou “encore”, como marcava o set list). Fim da “Budapest”, Ian agradece e sai do palco. Alguns até pensaram que não haveria mais nada mesmo e ameaçaram uma retirada. Minutos, ou minuto depois, o palco se acende, e se ouve a introdução de piano dessa poderosa canção.



É aquela parte que eu disse que é legal observar a reação de todos, alguns já bem turbinados pelas caríssimas beberagens vendidas no Credicard Hall (aliás, são poucos os banheiros, exigindo que neguinho já mixando nas calças tenha que encarar enormes filas, e não existem bebedouros! Por favor! Afinal, determinadas entradas custam quase um salário mínimo!). E o entusiasmo dos fãs foi muito grande nesta música, apesar de manifestações do mesmo quilate no decorrer do espetáculo. Ninguém sentou mais e ficou difícil para os seguranças manterem todos longe do palco. A guitarra aparece mais pesada nessa versão de seis minutos, Ian voa com a sua flauta, seguido de orquestra e banda, todos excelentes em mais uma noite para não se esquecida. Anote na sua agenda (quem foi) – 14 de abril de 2005. Cheerio!!

Texto: Niva dos Santos - especial para o Portal do Rock
Fotos: Ricardo Zuppa