Show - The Lurkers
24.03.2001 - Hangar 110 - São Paulo - SP
Abertura: Cólera - Grinders - Forgotten Boys
 

 

No dia 24 de março de 2001, sábado quente na capital paulista, se apresentou no palco do Hangar 110 uma das mais fiéis bandas de punk rock de todos os tempos. Sim, falo dos ingleses do The Lurkers, banda pouco conhecida por aqui mas adorada por aqueles que sabem o que é o verdadeiro e bom punk rock 77.

 
 
 
 
Novamente, a mídia em geral desprezou a passagem desta grande banda pelo Brasil, não dando uma nota sequer sobre a turnê brasileira do Lurkers. As fantásticas "rádios rock" também nem veicularam nada sobre os caras, com exceção do programa Garagem, da Rádio Brasil 2000 FM, talvez o único programa de rádio de São Paulo que conhece, respeita e divulga o punk rock. A gente não pode exigir muito conhecimento musical dessas rádios rock e de outros órgãos da imprensa que se dizem "rock", pois na maioria das vezes eles somente abordam assuntos como a turnê do Lurkers no Brasil ou outros eventos ligados ao rock alternativo, quando existe grana envolvida. São os verdadeiros exploradores do rock and roll!

Deixando o desabafo de lado, vamos saber o que rolou nesta noite de punk rock, que somente pode ser realizada graças ao trabalho árduo de Renato Martins (Ataque Frontal), grande incentivador da cena punk rock brasileira e responsável pelos melhores shows de bandas clássicas em nossos palcos.
 
 
 
 
 
 
 
  Forgotten Boys

Abrindo a noite, tivemos o som da banda paulistana Forgotten Boys, com seu som já conhecido e consagrado pelos admiradores do pré-punk rock estilo final dos anos 60, com fortes influências de Stooges, MC5, New York Dolls, etc. O show da banda em si foi muito bom, apesar de terem aberto a noite, ainda com pouco público na casa. Também devo ressaltar que as poucas pessoas que estavam presentes no início do show do Forgotten Boys não se empolgaram muito com o som da banda, que se mostrou um tanto quanto apática em relação ao público.
 
 
 
 
Grinders

A banda patrimônio dos skatistas do Brasil, subiu ao palco do Hangar 110 para uma demonstração de fidelidade e compromisso com o mesmo estilo de som que faziam há mais de 15 anos, quando começaram no cenário punk/hardcore de São Paulo. Com músicas como "Ande de Skate ou Morra!" e "Puta Vomitada", eles empolgaram boa parte do público, que naquelas alturas já estava com os ânimos mais quentes e cantavam juntos os clássicos da banda, colados ao palco. Dentre outras porradas da banda, eles tocaram ainda "Skate Gralha", "Como é que Pode?" e "Ser ou não Ser".
Cólera

Antecedendo o grande show da noite, sobe ao palco uma verdadeira lenda do punk rock nacional - Cólera. Foi gratificante ver Redson (guitarra/voz), Pierre (bateria) e Fábio (baixo), abrindo o show para uma grande banda punk rock internacional, depois de muito tempo tocando em shows menores e somente com banda nacionais.
 
 
 
 
 
Como todos sabem, o Cólera dispensa apresentações. A banda costuma arrebentar em todos os seus shows, mas neste a aparelhagem, principalmente o amplificador de guitarra usado por Redson, não estava nada bom, deixando o som com pouco peso e bem diferente do que se costuma ouvir nos shows do Cólera. Outra falha de equipamento foi no baixo reserva de Fábio, que teve que ser usado no lugar do baixo original e estava completamente desafinado. Tudo bem que o show é punk e que poucas pessoas notaram esses problemas, mas seria legal se estes deslizes pudessem ser evitados, para que a banda não fizesse feio na frente de seu público, que respeita a banda e que pagou para assistir ao show e também na frente dos gringos, que adoram este tipo de falha para menosprezar nosso som.
Ainda bem que pelo menos o problema com o baixo foi logo resolvido e a banda detonou em quase uma hora de apresentação. Dentre o repertório da banda, destaque para "1992", "Palpebrite", "Funcionários", "Pela Paz" e mais cerca de 20 músicas destes heróis do rock nacional, que servem de exemplo de dedicação e dignidade para várias gerações de roqueiros.
The Lurkers

Comentar o show do The Lurkers é uma honra para mim, que há muito tempo conheço o trabalho da banda e sei o quanto eles foram e são importantes para o punk rock mundial.
 
 
 
 
 
Formado em 1976, na cidade de Londres, o Lurkers teve em sua primeira formação Pete Stride na guitarra, Pete Haynes na bateria, Pete Edwards no vocal e Nigel Moore no baixo, sendo que Nigel foi logo substituído por Arturo Bassick, que é o único integrante da banda que está firme até hoje, comandando também os vocais do Lurkers. Detalhe: Arturo é também o baixista da clássica banda 999 e já tocou no The Business.
  A diferença do Lurkers de 1976 com o Lurkers de 2001 é muito pouca, ou seja, quase nenhuma. Apesar da evolução musical da banda e dos 25 anos de estrada, eles conseguem manter o bom e verdadeiro punk rock estilo 77, o que é raro hoje em dia. Com fortes influências de Ramones, mas com sua originalidade própria, a banda deve ser considerada discoteca básica para todos os amantes do verdadeiro punk rock.
 
 
 
 
Na nova formação, com o velho Arturo Bassick no vocal/baixo, os novatos Damon Waters na bateria e Rabid Kemp na guitarra, a banda detonou nesta que foi sua segunda passagem pelo Brasil, principalmente neste show de São Paulo, onde foram gravadas músicas que farão parte de um CD ao vivo oficial da banda, que deverá ser lançado ainda este ano pelo Selo Ataque Frontal.

Começando a noite em grande estilo, o Lurkers mandou logo um de seus primeiros singles, lançado em 1977, chamado "Freak Show", que dava o tom da noite. Muita alegria rolava nesta hora e a certeza de que o show seria "fudido" estava no ar!
O trio punk rock rolou várias outras preciosidades, compostas no final da década de 70, como "Take me Back do Babylon", "Pills", "Ain't Got a Clue", "I'm on Heat", o primeiro single lançado pela banda - "Shadow" e a maravilhosa e clássica "New Guitar in Town", considerada por muitos como o hino do punk rock 77.  
 
 
 
 
 
Do repertório mais recente da banda, destaque para "One Day", "Misery", "Gotta Go" e o mais recente sucesso da banda, "Go Ahead Punk, Make my day", que também é título de um single lançado em vinil pela banda em 1999. Esta música é excelente, com muita energia punk rock, com a letra falando sobre uma possível história envolvendo a banda e Dirty Harry, personagem do cinema western, interpretado em 1972, por Clint Eastwood. Segundo trechos da letra desta música, o Lurkers ensaiava em uma casa que era vizinha da casa de Dirty Harry e o cara vivia ameaçando a banda, dizendo que não gostava do som e pedindo para que eles parassem de tocar. Mas eles não estavam nem aí e as discussões eram constantes!
A banda teve que repetir algumas músicas cerca de duas vezes, o que fez com que o show se esticasse, obrigando a banda a cortar algumas músicas que seriam executadas naquela noite. Arturo se desculpava o tempo todo, mas dizia: "Vocês não querem o CD ao vivo em São Paulo? Então terão que agüentar!"

Com o maior prazer Arturo, ouvir suas músicas duas ou dez vezes não é sacrifício nenhum para um punk rocker que se preze.
Após uma pausa, eles voltaram para o bis, com outras excelentes músicas como "Furry Face", "Just Thirteen" e com aquela que eu considero uma das melhores músicas de punk rock que eu já ouvi até hoje, chamada "Lucky John". Segundo Arturo, esta música conta a história de John, que era um cara muito mentiroso e estava sempre se safando dos perigos, arranjando uma desculpa para tudo. Mas no final da música John não teve tanta sorte assim e morre.

Para você que não conhece o som da banda e tem curiosidade de conhecer, sugiro que você adquira o CD "Greatest Hit - Last Will and Testament...", que pode ser encontrado em qualquer loja virtual de CD, que trabalhe com CDs importados. Também não deixe de conseguir o CD ao vivo deste show, que será lançado em breve pelo Selo Ataque Frontal. Vale a pena este investimento, pois se você curte punk rock ou rock and roll e nunca ouviu um CD do Lurkers, está meio por fora meu amigo!!!

Valeu Lurkers e continuem mantendo o que vocês têm de mais precioso: originalidade e humildade.

Marcio Faveri - da redação

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