Comportamento
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Se tudo correr bem, estamos ferrados!
julho/2002
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Qualquer
idiota (e é assim que eles nos vêem) sabe muito bem que
a vaca já foi pro brejo há muito tempo. A grande maioria
daqueles que ainda trabalham, recebendo minguados caraminguás
mensais, mal conseguem ter algum dinheiro no bolso nos
dez primeiros dias após receber. Não é por acaso a distribuição
de cestas básicas e vales transportes por algumas empresas
(vale transporte é obrigatório mas nem todos cumprem essa
obrigatoriedade). A comida, deve ser para evitar que o
cidadão fique em tamanha situação de penúria e fraqueza
a ponto de não poder trabalhar ( não gerando mais lucro
para o patrão), e o vale transporte, possivelmente, para
que ele não falte ao trabalho por não ter dinheiro para
o coletivo. Mas, como o dinheiro acaba bem antes do final
do mês, mesmo esse vale transporte é trocado por dinheiro
(80/90% do valor de estampa) ou por mercadorias, por um
grande contingente de trabalhadores. Ironias à parte,
a distribuição dessas verdadeiras esmolas são exemplos
claros e também a admissão de que o salário da maioria
dos brasileiros é tão vergonhoso que não consegue suprir
nem as mais básicas das necessidades: alimentação e transporte.
Lazer, viagens, "supérfluos" pode esquecer.
As
mídias comprometidas com o poder mascaram vergonhosamente
esses fatos. Quase sempre falam dos efeitos sem citar as
causas. A ultima novidade é a queda nas vendas de diversos
produtos, com destaque para os automóveis. Não sou nenhum
esperto em economia mas, assim como vocês, sinto no bolso
diariamente a desgraceira que é sobreviver num país com
a pior distribuição de renda do mundo. Pesquisei um pouco
sobre o assunto para que alguns não digam que eu estou apenas
especulando. Quanto aos automóveis citados, as vendas desse
produto caíram 17% nos ultimo mês (Junho de 2002). Ninguém
explica nada, ninguém se aprofunda nos motivos dessa queda
mas, é simples saber os motivos. Um carro dito "popular"
custa no mínimo R$12.000.00 (custava R$7.700,00 em media
quando da criação desse conceito). Carro popular para mim,
num país com salário mínimo inferior a 80 dólares, é ônibus
mas, vamos lá, vamos tentar entender porque ninguém esta
literalmente comprando nada, muito menos carro.
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Numa
população que já extrapolou os 170 milhões, são considerados
consumidores no Brasil, um contingente entre 20 e 30
milhões de pessoas. Em 2001, oito em cada dez que perderam
o emprego, ganhavam menos que três salários mínimos
mensais (R$660,00), e aqueles que retornaram ao mercado
de trabalho fizeram isso aceitando salários menores.
Números é um pé no saco mas não existe outro jeito de
entender aquilo que eu me proponho a explicar, ainda
mais se tratando de um texto, digamos, sobre economia. |
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Bom,
já deu pra perceber que o patronato em geral adora explorar
as desgraça alheia, mas ele não são os únicos culpados.
Um trabalhador com registro em carteira custa para uma empresa
o equivalente a 104% do quanto ele ganha, em encargos com
o governo. Se o seu salário é de R$500,00, então o seu custo
real para o empregador é de R$1020,00! Nos Estados Unidos
da América um trabalhador custa de 9% a 11% do valor do
seu (dele) salário em tributos pagos ao arrecadador! Você
sabe como é a distribuição dos salários no Brasil? Os últimos
dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística)
dizem o seguinte: 51,2% ganham dois salários mínimos por
mês; 24,4% ganham um salário mínimo por mês e apenas 2,6%
mais de vinte! O restante dos 100%, repousam no mais puro
limbo com rendimentos abaixo de meio mínimo mensal ou renda
nenhuma. Sei que vocês são pessoas inteligentes e com certeza
já começaram a entender porque ninguém esta comprando carro
nem nada no Brasil mas, tem muito mais.
São
Paulo sempre foi e continua sendo o principal Estado da
Federação em produção e consumo. 52,4% das unidades produtivas
se encontram na região Sudeste sendo que 58,08% desse total,
em São Paulo. A região Sudeste, também concentra 54,46%
(dados de 1998) da massa trabalhadora brasileira, cabendo
a São Paulo 31,09% desses 54,46%. Por outro lado, o numero
de desempregados, só na Grande São Paulo, é de quase 2 milhões
de pessoas (numa estranha metodologia que considera desempregados
aqueles que procuraram emprego num determinado tempo anterior
às conclusões quantitativas). Já que o carro esta sendo
o exemplo maior deste texto, se essas pessoas estivessem
empregadas e se 10% delas resolvessem comprar um carro novo,
seriam 200 mil carros novos vendidos! Dessa forma, os pátios
das empresas estariam vazios, o emprego seria quase pleno,
o eixo da economia estaria em movimento, etc. São situações
hipotéticas, idealizadas. Se empregados, poderiam não comprar
carro nenhum, é difícil saber mas, a sedução do consumo
não pode ser negada quando existe dinheiro no bolso (mesmo
pouco). Voltando aos 2 milhões desempregados, se em São
Paulo, local onde todos dizem estar o dinheiro, a situação
é de negra para pior, o que dizer então das demais regiões
do pais!!?
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| Mas
porque um país riquíssimo em recursos naturais como
o nosso se encontra na situação atual? A resposta pode
parecer simplista mas não existe outra: 494 anos de
péssimo gerenciamento, sempre dependente de uma matriz
externa, que culminaram com os oito anos do (des) governo
FHC! Da fase que eu conheço pessoalmente (últimos 30
anos), dentro desse gigantesco imbróglio, nem nos períodos
de inflação galopante estávamos tão ruins. A oferta
de emprego era boa (na década de oitenta, por exemplo,
os cadernos de empregos nos jornais dominicais eram
super rechonchudos, bem diferentes dessas duas folhinhas
de agora), os salários eram compensados de alguma forma
frente a erosão causada no poder de compra , a divida
externa e interna não eram essas vergonhas que são hoje,
e o Brasil exportava muita mais do que importava. Quero
deixar bem claro que eu não defendo essa fase, muito
menos inflação alta mas, quando o presente se mostra
desesperador, até mesmo um passado ruim é lembrado com
saudade. FHC gaba-se de ter contido a inflação, mas,
é só isso? Por outro lado, a inflação esta contida mesmo? |
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Bueno,
não tenho a menor idéia de como é composta a cesta de produtos
usada para medir a inflação, mesmo porque são pelo menos
três índices calculados por institutos diferentes mas, eu
sei que, vários produtos que afetam diretamente a vida dos
brasileiros, tiveram aumentos muitas vezes acima da inflação
admitida nesse período. Só para exemplificar cito alguns:
luz, telefone, gasolina, álcool, cimento, carnes em geral,
transportes coletivos e remédios, entre outros. Um botijão
de gás custava menos de R$7,00 quando o Plano Real foi criado
e hoje custa R$30,00!! A energia elétrica ganhou de goleada
da inflação nos anos Real/FHC devido a zona que foi a privatização
do setor, com racionamento, investimento abaixo do necessário
em novas hidrelétricas, e tudo mais o que vocês já sabem.
Resultado: preços bem mais caros e salários aviltados. O
valor real dos salários caiu mais de 10% nos últimos três
anos e o salário mínimo atual de R$220,00 equivale a 27%
do mesmo em 1940. E o Dólar!! Mascarado durante anos numa
falsa paridade , agora bate a casa dos R$3,00!!! Então,
do que esse governo se orgulha? A industria Nacional foi
aniquilada juntamente com milhões de empregos, sem falar
das estatais, algumas com acusações de fraudes nas licitações.
A ultima pá de cal pode ser dada se o Brasil aceitar fazer
parte da ALCA (Aliança do Livre Comércio das Américas) a
partir de 2005, capitaneada pelos americanos, quando passaremos
a ser provedores de serviços (e olha lá!) e importando tudo
o que consumimos (com que dinheiro eu não sei).
Alguns
dados da chamada macroeconomia são importantes para entender
melhor o nosso contexto atual. A economia do Brasil é maior
do que a soma das economias dos demais paises Latino Americano.
Mas isso não nos transforma em um grande país exportador.
Num regime de trocas mundial avaliado em 6 trilhões de dólares
anuais, o Brasil participa com 0,9%, ou seja, exporta 58,2
bilhões de dólares (dados de 2001), 26° lugar na lista dos
países exportadores. Países infinitamente menores que o
nosso exportam bem mais. A Malásia e a Irlanda são dois
exemplos. O primeiro exporta 88,5 bilhões de dólares e o
segundo 83,5. Rússia e México, que têm características similares
às nossas, 103,2 e 158,5 bilhões de dólares respectivamente.
Em vinte anos a Coréia transformou uma economia incipiente
em algo poderoso (apesar da crise pela qual passou) e hoje
exporta 150,7 bilhões de dólares anuais, 2,4% daquele montante
global, sucesso conquistado devido, entre outras coisas,
aos pesados investimentos em dois pilares básicos e importantíssimos,
vitais para a sobrevivência de um país no presente e no
futuro: educação e tecnologia. Enquanto isso, as pesquisas
(único meio de se criar tecnologia) no Brasil se limitam
à esforços heróicos em nichos específicos e verbas reduzidas,
e a educação, bem... que educação?
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E
a vaca esta no brejo. Como eu já disse, eu não sou economista
e esse texto não pretende ser completo. Gostaria que
ele provocasse, quando muito, um pouco de indignação
e debate. E foi a indignação frente às meias verdades
ou mentiras inteiras, veiculadas pelas mídias comparsas
do poder central, que fez com que eu me aventurasse
por essa seara árida, que provoca aversão em muitos,
mas que nos afeta cotidianamente. Apesar do titulo apelativo
e provocador, não devemos aceitar a nossa realidade
como algo pronto e sem saída. Nossos falidos vizinhos
argentinos exemplificam bem como isso acaba. Não sei
se o voto em determinado candidato em Outubro desse
nosso 2002 vai ser a solução do problema mas, dele deve
ser exigido e fiscalizado, uma postura necessariamente
antenada com o mundo, mas concentrado mais no próprio
umbigo. Próprio umbigo? |
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Yes,
nós temos bananas! Certo, essa merda toda de globalização
criou uma sinuca de bico onde o que mais importa é a satisfação
do investidor, com fortunas geradas às vezes do nada e a
contra-partida de misérias também instantâneas. Quebradeira
geral, gigantes mundiais mentido em balanços engana trouxa,
mostraram o tamanho do pé de barro desse trambique gerado
principalmente na capital do império, sob a batuta e/ou
consentimento do seu imperador capiau. Países meio "old
fashion", como China e Índia, com as suas políticas econômicas
não ortodoxas, são exemplos de que é possível quebrar o
circulo maligno desse feitiço capitaneado pelo FMI e assemelhados.
Outra armadilha é aquela lastreada em palavras tipo "exportar
ou morrer". Exportar é de vital importância para um pais
com certeza mas, e o mercado interno? No caso do Brasil,
como é que um governo pode aceitar que apenas cerca de 1/6
dos seus cidadãos sejam consumidores em potencial!? Portando,
ai entra o próprio umbigo, deve-se exigir uma atenção acentuada
do próximo presidente quanto ao mercado interno (imaginem
uma expansão para algo próximo de 1/3 da base consumidora
brasileira, o que isso pode significar em termos econômicos
e sociais!).
E novas posturas também são necessárias em relação a outros
problemas, tais como: colocar-se em pé de igualdade frente
ao governo made in USA abominando a condição de súdito levada
a cabo por FHC e companhia, assim como em relação aos demais
parceiros mundiais, grandes ou pequenos; investimentos maciços
em educação e pesquisas, citados anteriormente; apoio incondicional
ao empresário brasileiro que realmente estiver interessado
em crescer e gerar empregos; um plano exeqüível de distribuição
de renda através de melhores salários; exploração mais racional
do nosso potencial agrícola (inclusive, com uma reforma
agrária radical e para sempre. Chega de palhaçadas!), porque
o Brasil tem sim a condição de ser o celeiro do mundo, ou
ninguém ainda percebeu que alimentos, juntamente com a água,
serão em breve as mais fortes moedas de troca? Esta lista
não pretende ser completa mas eu acredito ter citado o mais
importante. Este texto também deveria ser menor mas, como
tudo se entrelaça, certas ramificações não podiam ficar
de fora.
(Fontes: Folha Online - textos de Gilberto Dimenstein referentes
à semana de 17 à 23/12/01; Regional News - 20/06/02 - texto
de Luiz Paulo Costa; IBGE; "Você Sabia?" - texto MST/Paraná
na internet.)
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