Comportamento

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A estética da violência nos videoclipes
outubro/2002

Eu gostaria de entender o motivo de tanta violência, explícita ou não, numa boa quantidade de videoclipes de bandas e artistas nacionais. O exemplo mais clássico é um do MV Bill "Soldado do Morro", onde verdadeiros "soldados" do tráfico são coadjuvantes. No caso desse filme, mesmo não acreditando na necessidade desse tipo de exposição, até que a temática da música explica de certo modo, o formato final desse trabalho, mas talvez fosse o caso de perguntar: porque não foram utilizados atores, uma vez que, o uso de "originais" pode levar a crer que existe uma certa apologia nessa utilização?

De todos os fetiches, o das armas, é aquele que exerce um poder mais brutal sobre nós, pobres humanos. Tive uma vez uma arma em minhas mãos. Era uma "Glock" de um amigo policial. Explico logo. A minha curiosidade era em relação ao peso da mesma, já que ela é feita de fibra de carbono, o que não deixa de ser também, uma mórbida curiosidade sem propósito. Por outro lado, confesso que uma desgraça dessas nas mãos é como uma descarga de adrenalina. Parece que você fica mais forte, mais poderoso mais... idiota! Pois é, segurando uma tranqueira desse naipe dá pra perceber também o porque de tantas mortes inúteis (algumas são úteis?). O cara que carrega esse tipo de coisa (estou me referindo ao civís em geral e também a alguns que, no exercício da profissão, são obrigados a portar armas), sente uma espécie de cócegas na cintura e ele quer sair mostrando o "seu poder" pra todo mundo, igual ao símio que descobriu que um osso poderia ser usado para matar, fazendo dele o mais temido, no filme "2001" de Stanley Kubrick. Quando você compra uma arma você leva o diabo de brinde. No caso de uma briga então, se armado, dificilmente alguém engole sapo e vai pra casa. O resultado todos conhecem. Vide brigas de transito por exemplo. E alguns clipes exploram justamente essa "fascinante" doença irradiada pelas armas.

Portanto, armas é o que não falta nessa safra citada acima, que teve como primeiro exemplo o do excelente músico MV Bill. "Hoje eu acordei feliz" do Charlie Brown Jr é outro que deve ser citado. Nunca vi um besteirol tão grande e tão violento nessa matéria. Pura exploração do fetiche comentado, numa letra nada a ver com as imagens. Não sei como o velho Abujamra entrou nessa roubada (ele participa do filme) e o André Abujamra (do Karnak) dirigiu o clipe. Nele, morre pelo menos uma meia dúzia, além de uma amputação e lesbianismo. A música mesmo quase nem se percebe. É claro, tem mulher quase pelada também. Não!!  
Estou longe, muito longe de ser moralista. Mas é o seguinte: clipe com esse formato, por analogia, parece aquelas apresentações de brasileiros no exterior. Quando dá tudo errado, é só apelar para o manjado carnaval (quando o artista é de MPB) que tudo se resolve. No caso de shows de bandas nacionais, quando as músicas próprias não convencem, é só rolar uns covers que o fiasco é consertado (nesse caso, no Brasil mesmo). No fundo é tudo apelação gratuíta. Não é muito diferente, também, dos "filmes" da Xuxa, recheados de "artistas" do momento, ou seja, esqueçam a história, olhem os "artistas". Nesses clipes, esqueçam a música, olhem a violência.
  A banda Raimundos também contribui com essa tragédia apoiada na violência. No começo eram bundas e vaginas. No ultimo clipe não existem armas, mas eles resolveram apelar para cenas de tortura e eu fiquei sem entender nada. Num outro videoclipe veiculado pela MTV, vestiram um pobre anão de branco "ensangüentado", que barbariza com uma enorme faca. Até a insípido grupo Engenheiros do Hawaii, quem diria, não deixou por menos. Uma gravação que reproduz um ensaio da banda (cheio de mulher quase pelada, é claro!) é invadido por homens com armas e cachorros Pit Bull.

A barbárie que se segue, inclui espancamentos e quase estupros. Nunca é demais lembrar que essas coisas rolam em qualquer hora do dia, sobre os olhares de crianças em processo de formação de caráter. O que passa por suas cabeças quando assistem a esses filmes e mesmo nas de alguns adolescentes de miolo mole, já que são facilmente influenciáveis? Alguns dos participantes desses clipes, inclusive, são pais de crianças nessa idade!

A versão brasileira da MTV é considerada uma das mais liberais do mundo e eu acredito que deve ser dessa forma mesmo. Na série "The Osbournes" transmitida no Brasil, gerada, é claro, pela matriz americana, foi censurado todos os "Shit", "Fuck" e assemelhados que Ozzy e família diziam aos borbotões. O resultado foi algo grotesco capaz de enfurecer qualquer pessoa minimamente crítica, uma vez que os "palavrões" eram inerentes ao formato. E a MTV americana também censura qualquer seio de fora, nádegas, aquele famoso sinal com um dedo apontado pra cima, etc., mesmo que o contexto exija. Esse detalhe é importante: EXIGÊNCIA DO CONTEXTO (é verdade, as crianças que assistem à MTV conseguem entender se algo esta dentro ou fora do contexto? Essa questão não é fácil de ser resolvida e a figura dos pais, de posse do controle remoto, talvez seja a única solução numa situação dessas). Se por um lado a MTV gringa se esmera numa espécie de caça às bruxas verbal e visual, a liberalidade da MTV brasileira, num passado recente, chegou a transmitir vídeos que mais pareciam filminhos de sacanagem e agora os violentos. A comparação entre os extremos é necessária pelo seguinte: censura é produto de ditaduras e ela tem que ser definitivamente expurgada dos meios de comunicação! Entretanto, os liberados da censura e abençoados pelo livre arbítrio (todos nós), precisam ter bom senso, bom gosto (ok, essa coisa varia muito, mas vamos tentar!), critérios estéticos, ÉTICA meus amigos e até mesmo, simplesmente, um mínimo de "simancol"! Posto isso, não é nenhum exagero perguntar: esses camaradas que mexem com as imagens são do ramo mesmo ou caíram de pára-quedas no ofício?

Quase sempre, excessos visuais (não somente os ligados à violência) servem apenas para esconder produtos de baixa qualidade. O Kiss, por exemplo, usou e abusou desses truques quando começou. Nessa fase, Simmons e Cia. não tocavam bulhufas. Por isso, a pirotecnia, as cuspidelas de fogo, o sangue falso, etc., que acabaram virando marca registrada do grupo.  
Esse tipo de comportamento não é regra mas é muito usado no show business (e no que não deveria se transformar em show business). Por outro lado, todos lucrariam se a MTV (que vem se distanciando perigosamente da "música" que carrega no nome, ao mesmo tempo em que os demais canais televisivos não se mostram nem um pouco preocupados com as manifestações musicais brasileiras com o mínimo de risco de não dar audiência e lucro), repensasse um pouco as suas estratégias.

Poderia abrir, por exemplo, espaço para as milhares de ótimas bandas e artistas brasileiros, que não precisam de apelações, sobrevivendo tão somente da propaganda boca-a-boca, que se difunde graças à honestidade do trabalho produzido, já que são boicotados pela quase totalidade das mídias , sem falar do "jabá" que continua mais forte do que nunca nas famosas "rádio roque" ou não (shit!). A propósito, já que uma coisa puxa a outra, permitam-me um pequeno parêntese no final deste texto. Um simples recado. CUIDADO SENHORES!! O mercado independente esta crescendo feito cogumelo depois da chuva e vocês poderão ser atropelados muito em breve pela história!!. Quem viver verá! Com ou sem sangue falso.

Niva dos Santos - especial para o Portal do Rock

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