Bandas em Destaque

Made in Germany!
  No início de 1998, um amigo recebeu uma fita de um camarada nosso que morava em Berlim. A fita de noventa minutos trazia dois álbuns de uma banda alemã, que cantava em alemão e fazia um fantástico mix de teclados e guitarras. Os nomes dos álbuns, HERZELEID e SEHNSUCHT e o nome da banda RAMMSTEIN.
 
 
 
Durante algum tempo, não ouvi nem li nada sobre o Rammstein, até que, de repente, em Abril de 99 eles estiveram no Brasil como banda de abertura do Kiss no autódromo de Interlagos, que na verdade se chama José Carlos Pace, em homenagem ao grande corredor brasileiro morto em acidente. Não fui ao show, mas conversei com alguns que estiveram lá e, eles simplesmente detestaram a banda alemã. Nem poderia ter sido de outra forma porque, a única coisa que as duas bandas tem em comum é o uso de maquiagem/mascaras e a pirotecnia usada no palco. Água e óleo. Tempos depois, um tio que viajou a trabalho para a Alemanha me trouxe o CD SEHNSUCHT. Nessa altura do campeonato eu já era fã do Rammstein e me arrependi amargamente não ter ido assistir os caras quando eles estiveram no Brasil.
Formada em 93 por seis alemães orientais (a parte oriental era dominada pela ex-União Soviética), a maioria de Berlim, o significado do nome escolhido pelo grupo é motivo de discussões acaloradas nas dezenas de sites dedicados à banda. Existem, entretanto, duas possibilidades que parecem ser as que mais se aproximam da realidade.  
 
 
 
 
Na primeira, seria uma homenagem a RAMSTEIN, com um único "M", uma cidade também do antigo lado Oriental, que teria sido atingida por bombardeios americanos durante a segunda guerra mundial e, onde também teria acorrido um sério desastre, com dezenas de mortos, durante a apresentação de acrobacias aéreas. A segunda hipótese, uma tradução, ou uma "aproximação", do original alemão, que significa "ARIETE DE PEDRA".

Na verdade, tudo é meio nebuloso nas histórias do vocalista TILL LINDERMANN, dos guitarristas PAUL LANDERS e RICHARD KRUSPE, do baixista OLIVER RIEDEL, do baterista CHRISTOPH DOOM SCNNEIDER e do tecladista DOKTOR CHRISTIAN LORENS (FLAKE).
  Até mesmo um nome, já que tudo tem que ter um rótulo, que explique de forma simplificada o tipo de som que o grupo faz, não está muito bem definido. O que se sabe é que a banda funde Rock Industrial com Heavy Metal e uma pequena pitada de Rock Progressivo. Por diversas vezes o vocalista Lindermann disse que eles fazem "Dance Metal". Na maior fonte de informação da banda que é essa "nossa" Internet, pode-se encontrar também o nome "Tanzmetall" e, por aí vai. Mas, vocês sabem, o que menos interessa são nomes, mas sim a música.
 
 
 
 
O primeiro álbum lançado pelo RAMMSTEIN foi o HERZELEID em 1995, gravado em Hamburgo. A capa desse álbum traz a banda sem camisa frente a gigantescos girassóis. A imprensa alemã, mergulhada no eterno trauma da Alemanha um dia ter entregado o seu destino nas mãos de um homem que entre outras coisas foi responsável pela morte de milhões de Judeus, acusou a banda de querer se apresentar como "progenitores de uma nova raça". Implicaram também com a pronúncia "arrastada" de Lindermann, dizendo que era parecida com a de Hitler. Disse nessa ocasião o guitarrista Landers: "Se nós fossemos espanhóis, nós não teríamos que lidar com essas controvérsias. Se alguns jornalistas querem nos colocar em algum canto nazista, nós não vamos poder ajudar eles. Eles fizeram a mesma coisa com o KRAFTWERK vinte anos atrás".
Na verdade, essas acusações não procedem. Nem sobre política eles escrevem. Não existe uma única linha falando sobre esse tema nas letras da banda. Veja bem amigos, digo isso baseado nas traduções em inglês facilmente encontráveis nos diversos sites dedicados ao grupo (entre em qualquer buscador e tecle "Rammstein", que ele vai te dar acesso a mais de 40 possibilidades!). Quanto ao racismo, um deles inclusive é casado com uma judia. Talvez um pouco "pervertidos", uma vez que o tema mais comum abordado por eles é o sexo em suas incontáveis variáveis, mesmo aquelas que todos gostariam de esconder, tais como dominação, submissão, desejos ardentes, nada que a maioria das pessoas não façam às escondidas e, a banda tem a coragem de cantar.  
 
 
 
 
 
O primeiro álbum já expressava muito bem uma das principais características que se tornaria marca registrada do Rammstein, que é fundir passagens extremamente pesadas com melódicas de igual quilate. A voz de Lindermann também segue essa característica. Ele consegue mesclar vocais poderosos com outros de um lirismo impressionante. O fato de cantar em alemão é importantíssimo nessas construções. Se ele resolvesse migrar para o inglês, acredito que não só os fanáticos fãs de sua terra natal reclamariam, mas os de todo o mundo. O fogo é uma constante nas letras e na performance do grupo, talvez corroborando uma das hipóteses da escolha do nome da banda (acidente/ataque aéreo que resultaram em muito fogo). Na faixa "Asche Zu Asche", em inglês, "Ashes To Ashes" e, em português "Das Cinzas Para As Cinzas", lá está ele: "Corpo morno/Cruz quente/Falso julgamento/Cova Gelada/Agora eu estou deitado na cruz/Eles colocaram os pregos em mim/O fogo limpa a minha alma/E o que resta é um bocado de cinzas". Na faixa que dá nome a banda, canta Till Lindermann (versão integral da música):

"Rammstein/Um ser humano queimando/Rammstein/Cheiro de carne no ar/Rammstein/Uma criança está caída/Rammstein/O sol está brilhando"

"Rammstein/Um mar de chamas/Rammstein/Sangue coagulando no asfalto/Rammstein/Mães estão gritando/Rammstein/O sol está brilhando"

Rammstein/Um túmulo coletivo/Rammstein/Nenhuma saída Rammstein/Nenhum pássaro está cantando/Rammstein/O sol está brilhando".

  Mas a banda também trabalha muito bem o sentimento afetivo. Em "Herzeleid/Heartache/Tristeza (pode ser também mágoa ou pesar)", diz a letra: "Salvem um ao outro da tristeza/Porque o tempo que vocês gastam juntos é pequeno/Porque mesmo quando vocês estão juntos por muitos anos/Eles parecerão apenas minutos".

SEHNSUCHT de 1997 é o segundo álbum do Rammstein com onze faixas. Um fato importantíssimo aconteceu quando a banda procurava um diretor para gravar um vídeo clip.
 
 
 
 
Simplesmente eles listaram os seus diretores favoritos e mandaram para cada um deles, junto com a proposta de trabalhar no vídeo, uma cópia do primeiro CD. Entre os diretores que receberam o CD estava DAVID LYNCH que respondeu dizendo que não poderia dirigir o grupo porque estava trabalhando no filme LOST HIGHWAY, "Estrada Perdida" no Brasil, mas gostou tanto do Herzeleid que incluiu duas faixas desse CD ("Rammstein" e "Heirate Mich"), mais uma faixa do novo Sehnsucht ("Du Hast") na trilha sonora de Lost Highway. A banda que era conhecida mais localmente e em países como Áustria, Hungria, Suiça e Suécia, com a inclusão na trilha sonoro do filme, ganhou projeção mundial.

Essa exposição fez com que o novo álbum fosse Platina Dupla na Alemanha, Platina na Suíça, Ouro na Áustria, etc., alem de abrir as portas para uma primeira tournê nos E.U.A. Esse novo disco, SEHNSUCHT, segue na trilha aberta pelo primeiro álbum em instrumental e letras. Longe da correria das primeiras gravações, o grupo teve mais tempo para expressar de forma mais elaborada todas as propostas das seis cabeças pensantes que formam o grupo e assinam quase todas as faixas. As letras continuam como pequenas poesias a serem decifradas. Aproveito para dizer que, o fato da banda cantar em alemão, deve ter despertado interesse mundial pela língua Germânica, quebrando de forma saudável o monopólio da língua inglesa. Esse pobre escriba é um dos que foram "despertados".

 
 
 
 
 
Acredito que a música que provocou mais controvérsia nesse novo CD foi a sexta faixa "Buck Dich/Bend Down/Abaixe-se". Sente o drama: "Abaixe-se eu ordeno/Fique de costas para mim/Eu não preciso ver a sua cara agora/Abaixe-se". Num show em 99, que foi filmado e gravado, batizado como "LIVE AUS BERLIM", disponível em CD, VHS e DVD, que eu recomendo com urgência para quem conhece ou não a banda, frente ao que eu acredito ser um público de mais de 100 mil pessoas, durante essa música, Till Linderman saca uma "estrovenga" de borracha de dentro das calças e a esfrega num pobre Flake "indefeso" e de quatro. E esse artefato esguicha uma substância branca levando os presentes à loucura. Por fim, Lindermann aponta o dito cujo, que continua esguichando, para a própria cara, num final apoteótico.
  O disco é muito bom, fazendo aquela mescla já citada de porrada e calmaria. A melódica que eu mais gostei foi a oitava "Klavier" (Piano). Mas eu poderia escolher também a nona "Alter Mann" (Homem velho). As guitarras continuam fulminantes, bases pesadíssimas e quase nenhum solo.

Sem querer compartimentar a importância de cada um na banda, uma vez que isso não existe, no entanto, vale ressaltar a marcação quase que "militar" da bateria em todas as faixas, indicando as viradas, as mudanças de ritmo, etc. MUTTER seria o próximo e último álbum banda lançado em 2001.
 
 
 
 
 

MUTTER (Mãe) traz 18 músicas, sendo onze novas e sete bonus . A banda continua lírica e polêmica com temas variados e construções melódicas, idem. A terceira faixa Sonne/Sun/Sol rendeu um belíssimo vídeo clip, onde os seis integrantes aparecem como mineiros, numa espécie de tirania consentida, sob o domínio de uma gigantesca e maravilhosa "Branca de Neve". A polêmica sexual continua com Zwitter/Hemaphrodite/Hemafrodita e Rein Raus/In Out/Dentro Fora ("Eu sou o cavaleiro/Você é o Cavalo/Eu monto/Você corre/Você Geme/Eu sussurro para você/Um elefante no olho de uma agulha).

A belíssima Mutter fala de alguém que nunca teve uma mãe. Spieluhr/Music Box/ Caixa de música, faz um paralelo entre o boneco de uma dessas caixas e a condição humana. A participação de um vocal feminino (Khira Li) e também de um arranjo de cordas em algumas faixas foi muito feliz nesse novo Rammstein. As músicas continuam assinadas pela totalidade da banda enquando Till Lindermann parece encarnar as tristezas e as mazelas que canta. Mutter foi lançado no Brasil e custa em média R$25,00.

Sabe aquele prato que você adora e o seu amigo detesta e você não consegue entender como alguém pode detestar algo tão delicioso? Ou então, como alguém pode comer determinadas coisas que você abomina? Com o RAMMSTEIN ocorre uma situação semelhante: adorar ou detestar! Gostando ou não, no mínimo, é muito saudável o surgimento de uma banda que consegue mexer com situações petrificadas, ou seja, Inglês como idioma majoritário e o quase domínio do mercado por bandas provenientes dos países que se expressam nesse idioma. E a mistura que o RAMMSTEIN utiliza na sua música, com certeza, já está influenciando várias bandas em todo mundo, principalmente na Alemanha. E isso não é pouco, amigos e amigas. Então, antes de comprar alguma coisa da banda, entra num buscador, como eu já disse, tecle RAMMSTEIN, baixe algumas músicas, ouça e só depois tome uma decisão. Mas não se esqueça: é AMAR ou ODIAR!! Boa sorte.

Niva dos Santos - especial para o Portal do Rock