Músicos em
Destaque
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Ao Mestre com Carinho!
A morte de Joey foi sem dúvida uma das datas mais tristes de minha
vida. Desde quando comecei a ouvir punk rock, ainda com meus saudosos
14 anos, tive a sorte de já começar ouvindo Sex Pistols, Dead
Kennedys, UK Sub´s, The Clash, Cólera, Ratos de Porão, Garotos
Podres, Olho Seco e uma série de outras bandas punks. Mas foi
em uma visita à Galeria do Rock em SP, em 1986, que conheci o
verdadeiro punk rock.
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Naquele dia, mesmo com a grana curta, consegui comprar uma
fita gravada em uma loja que se chamava "Rock and Rollos",
com músicas do LP "It´s Alive" dos Ramones, que gravado em
um show histórico da banda na cidade de Londres, em 1979.
Este LP era muito raro na época e quase não se tinha nada
dos Ramones lançado no Brasil. Então aquela fita rodou tanto
que nem existe mais, virou poeira. |
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Esta
fita e esta banda mudaram a minha vida. Comecei a ver as coisas
e o rock and roll de forma mais simples e direta. Percebi que é
mais difícil fazer o básico e o original do que fazer o erudito,
que muitas vezes é copiado de banda para banda.
A voz de Joey Ramone, aliada aos acordes básicos da banda, embalou
toda a minha adolescência. Quantos natais passados ao som de "Merry
Christmas". Quantas festas ao som de "Surfin´ Bird", "Sheena is
a Punk Rocker", "I Don´t Care", "Suzy is a Headbanger", para citar
apenas algumas músicas.
Estes bons momentos certamente se repetirão por muitos e muitos
anos até que um dia possamos nos encontrar com o velho Joey novamente.
Felizmente sua obra é vasta e seu talento foi reconhecido ainda
em vida, o que dificilmente ocorre com outros gênios do rock. |
Joey Ramone tinha apenas 49 anos quando morreu; sua doença
foi um golpe cruel que atingiu alguém que acreditou, até seus
últimos dias, que o rock & roll salvava vidas. Um mês antes
de sua morte, quando ainda estava em tratamento no hospital,
Joey chamou Seymour Stein, o presidente de muitos anos do
selo dos Ramones, Sire Records, para dizer que ele iria enviar-lhe
algumas demos para uma nova banda que ele estava querendo
montar. O produtor Daniel Rey, que havia trabalhado em inúmeras
gravações do Ramones e estava gravando o primeiro disco solo
de Joey, lembra-se do espírito resistente e alegre de Joey
naquelas últimas semanas: "Ele dizia que queria sair daquela
cama e logo poder estar em forma para sair em turnê", disse
Rey. |
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| Na
verdade, Joey era uma pessoa alta, magra e bastante frágil, que
sempre foi propenso à doenças durante sua carreira de 22 dois anos
com os Ramones. Mas, sob as luzes do palco e em estúdio, cerca de
2.263 shows e perto de duas dúzias de gravações de álbums, Joey
radiava a força de um gladiador com sua voz empolgante e ao mesmo
tempo amável. Em meados de 1970, quando Joey entrava alto e firme
no palco, em meio a uma original chuva de torpedos da guitarra de
Johnny, do baixo de Dee Dee e da batera de Tommy, tornou-se a imagem
mais marcante e indelével do rock. Joey parecia um "louva-deus"
curvado e cercado pelos gritos do público; suas pernas se firmavam
com muito esforço e suas mãos agarradas ao microfone eram como uma
lança, seu rosto de formato oval quase sempre ficava escondido por
uma fina cortina de cabelos negros. |
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Os
Ramones - Johnny, Joey, Dee Dee, Tommy e os últimos integrantes
Marky, Richie e C.J. - nunca foram recompensados devidamente
por terem sido os inventores do punk rock. Durante toda sua
vida, Joey só recebeu um disco de ouro nos EUA, pela coletânea
Ramones Mania, de 1988. Somente dois álbuns : Rocket to Russia,
de 1977 e End of the Century, de 1980, o último produzido
por Phil Spector com total entusiasmo - entraram para o Top
50 da Billboard. Mas Danny Fields, que de 1975 a 1980, foi
o co-empresário dos Ramones junto com Linda Stein, diz que
o impacto da banda foi imediato: "Nós 'penamos' para entrar
em Toronto (Canadá) e até mesmo tocar em qualquer porão de
armazém de alguma cidadezinha, então, quando voltamos, nós
encontramos aquelas oito bandas que tinham começado logo depois
que a gente tinha tocado lá." Foi aí que Joey pode perceber
a grande influência dos Ramones num detalhe musical bem sutil
do trecho "Hey! Wait!" da música "Heart-Shaped Box" do Nirvana,
uma cópia nítida de "Wait! Now!" com o vocal de Joey na música
"I Just Want to Have Something to Do", do disco Road to Ruin,
de 1978. |
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| Joey
Ramone nasceu com o nome de Jeff Hyman no dia 19 de maio de 1951,
em Forest Hills, uma área do Queens, Nova York. No início de 1960,
quando seus pais se divorciaram e sua mãe, Charlotte, logo se casou
novamente, Joey só encontrava conforto em seu rádio transistor.
"O rock & roll era a minha salvação", ele declarou numa entrevista
dada em 1999, "ouçam o WMCA Good Guys e o Murray the King". Nessa
época Joey era elogiado por "Do You Remember Rock 'n Roll Radio?"
do disco End of the Century. |
| Ele
também começou a tocar bateria depois que Charlotte (sua mãe)
lhe deu dois surdos comprados em um supermercado. "Eu aluguei
uns pratos", disse Joey, "e tocava acompanhando as músicas
dos Beatles, Gary Lewis e dos Playboys, usando meu toca-fitas".
Em 1973, Joey era vocal de uma banda glitter, o Sniper e já
compunha músicas hard-pop como "I Don't Care" e "Here Today,
Gone Tomorrow", as quais mais tarde seriam dos Ramones. |
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| A
vizinhança inteira era contra o "superstar" do rock dos anos 70.
Joey, Johnny (John Cummings) e Dee Dee (Douglas Colvin) fizeram
o lançamento oficial do Ramones no dia 30 de março de 1974, no Performance
Studio, um estúdio de Manhattan. O nome da banda foi Dee Dee quem
roubou de Paul McCartney, que utilizava o sobrenome artístico Ramon,
no início dos Beatles. Joey tocava batera e dividia o vocal com
Dee Dee. Thomas Erdelyi, um dos donos do estúdio Performance, junto
com o futuro empresário dos Ramones, Monte Melnick, foi quem percebeu
que Joey deveria ser mesmo chefe dos microfones. |
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"A
guitarra tinha uma qualidade inferior, mas era formidável,
o baixo parecia um pistão de motor e Joey cantando dava o
toque especial", disse Erdelyi, que se apossou da baqueta
e e se tornou o Tommy Ramone. "Quando eu tomei as rédeas da
batera, eu me deparei com aquela coisa propulsiva e fui adiante,
todos os elementos soavam ao mesmo tempo". Com os cabelos
estilo "hooligans", jaqueta de couro preta, estilo motoqueiro
e com músicas geniais como "Blitzkrieg Bop" e "Judy Is a Punk,"
Tommy declarou, "nossa arte era completa". |
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| Joey,
em especial, era abençoado com um dom natural, que era expressado
de maneira inteligente e divertida. A mãe dele foi até uma galeria
de arte no Queens e conheceu Arturo Vega, um pintor que viu o Ramones
pela primeira vez no Performance Studio e acabou se tornando o diretor
artístico e de iluminação da banda. Ele disse que, como Joey "não
era muito falante, ele não conseguia entender qual a importância
de uma boa obra de arte. Ele conseguia transmitir seus temas filosóficos
através de algo muito prático". |
| Quando
Vega estava desenvolvendo o agora famoso logotimo dos Ramones
- uma paródia do brasão presidencial americano, com uma águia
segurando um bastão de baseball e uma faixa escrito "Hey ho
let's go" no bico - Joey sugeriu incluir algumas maçãs nos
ramos de oliva. "Eu disse, 'OK, americanos lembram "apple
pie'" mesmo, Vega se lembra, rindo. "E Joey prosseguiu, 'Não,
maçãs são deliciosas'". Joey também disse para Vega que as
primeiras maçãs que ele tinha desenhado estavam muito vermelhas
e que mais pareciam tomates. "Aquele era seu jeito, tornar
as coisas simples", disse Vega. "E isso é que é o punk rock". |
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| Joey,
por várias vezes, compôs e cantou canções de amor: "I Remember You",
"She's the One" e "I Wanna Be Your Boyfriend". Embora a autoria
tenha sido dada a Fields, a curiosíssima música "Danny Says", do
álbum End of the Century, foi baseada num breve período romântico
da vida de Joey. "Eu havia conhecido alguém muito especial", ele
explicou, "e quando acordávamos, a gente realmente assistia Get
Smart na TV". Mas, Joey nunca se casou. (Além de sua mãe, Joey também
tinha um irmão mais novo, Mickey Leigh, também músico, que tocava
numa banda com o crítico de rock Lester Bangs) |
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Na verdade, Joey não tinha muito para mostrar de sua vida
fora dos Ramones - e ele não parecia se importar com isso.
Ele era um símbolo da fraternidade no cenário dos clubes de
Nova York, pois lançava novas bandas e promovia suas favoritas
para os amigos e empresários, como o D-Generation e o Independents.
Raramente ele falava, em público ou particular, de qualquer
frustração que ele havia tido em relação a seu esforço na
banda, só para ser recompensado financeiramente ou reconhecido
historicamente. "Os Ramones tinham uma continuidade e uma
credibilidade", dizia Joey. "Nós fizemos isso para nós mesmos
e para nossos fãs". |
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| Foi
o lançamento do primeiro álbum do Ramones em 1976 que marcou o verdadeiro
nascimento do punk rock; embora as bandas como Stooges, MC5 e New
York Dolls tivessem iniciado um movimento, foi o estilo dos Ramones,
com canções de três acordes, humor sadio e uma energia sem limites,
que serviu de base para as inúmeras bandas punks que apareceram
nas decadas seguintes. Este disco (conhecido como Ramones) trazia
a marca registrada dos Ramones, que ficaria para sempre: músicas
de dois minutos, três acordes e muita energia. A banda ficou famosa
no meio underground de Nova York, fazendo seus shows típicos de
90 minutos, com 30 músicas. |
| A
turnê de 1976 na Inglaterra serviu para enfatizar que o cenário
punk inglês, assim como o impacto dos Ramones sobre a música
americana, nunca foram mais evidentes do que nos anos 90,
quando uma legião de bandas pop-punk, que nem sequer existiriam
sem a música do Ramones, alcançava o topo das paradas. |
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Apesar
de sua enorme influência, uma carreira que se estendeu por duas
décadas e uma porção de álbuns indiscutivelmente clássicos, os
Ramones nunca se tornaram estrelas - e olha que o som que eles
foram pioneiros, acabou dominando a música popular durante a maioria
dos anos 90 e ainda durante esta década, a banda gravou um som
mais limpo e racional.
Os
Ramones realmente influenciaram toda uma geração, desde Sex Pistols
e The Clash até grandes bandas pop como U2, Pearl Jam, Stone Temple
Pilots, Blink-182, Green Day, Offspring, entre outras. Vale ressaltar
que seu primeiro LP, chamado Ramones e datado de 1976, foi gravado
em apenas dois dias e teve um custo ridículo de 6 mil dólares!!!
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Após
o Festival de Lollapalooza de 1996, os Ramones concluiram
que o estrelato que eles haviam ansiado nunca existiu, então
eles decidiram parar antes do final do ano. Apesar de ter
lançado em 1994 o EP "In a Family Way", para colaborar com
seu irmão Mickey Leigh (com o nome de Sibling Rivalry), Joey
Ramone sempre fugiu dos holofotes. Ele só fazia aparições
públicas ocasionais e trabalhou uma vez como DJ de uma rádio. |
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No
final dos anos 90 ele também começou a trabalhar esporadicamente
numa gravação solo. Joey montou uma banda com o guitarrista Daniel
Rey, o baixista Andy Shernoff (ex- Ditactors) e o baterista Frank
Funaro (das bandas Cracker e Del Lords), que tocou em vários shows
na região de Nova York.
Mas,
Joey nunca deixou de ser um Ramone ou de acreditar que, dentro
do rock&roll, ele era considerado um ícone eterno e imbatível
- e tinha a responsabilidade de compartilhar isso com qualquer
pessoa que ele conhecesse.
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| Durante
uma entrevista dada em 1999, Joey ainda falava dos Ramones
no tempo presente, como uma incontestável força da natureza:
"O Ramones foi e é uma puta banda fudida . . . Quando nós
saíamos para tocar, a força era intensa, era como ir ver o
The Who nos anos 60". |
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Às
14h40min do dia 15 de abril de 2001, num domingo de Páscoa, Joey
Ramone - o vocalista e grande líder da melhor e maior banda punk
do mundo, os Ramones - morreu no Hospital Presbiteriano, em Nova
York, após seis anos de batalha contra um câncer linfático. Naquela
noite, no meio de um show do U2, no Rose Garden, na cidade americana
de Portland, Bono Vox pediu um minuto de silêncio à platéia para
dizer como sua própria vida e sua banda haviam sido influenciadas
pelo Joey dos Ramones - por aquela voz e pelo excelente rock &
roll que fazia bater o coração à cada música. Bono logo percebe
que ele não era o único naquele lugar que estava sentindo tudo
aquilo. A multidão presente no show do U2 imediatamente começa
a bradar: "Hey Ho Let's Go! Hey Ho Let's Go!".
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