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John Bonham - o pulso do Led Zeppelin

Eu assisti ao filme do Led Zeppelin "The Song Remains the Same" em um cinema que não existe mais, o Cine Metrópole, que ficava numa galeria próxima à avenida Ipiranga, em São Paulo. Foi em 1977, vocês acreditam! O filme, que demorou três anos para ser feito, estreou nos EUA em outubro de 1976. No Brasil, quase um ano depois. Então, numa época que era muito raro chegar alguma coisa de rock no Brasil, quando isso acontecia, era algo digno de ser celebrado.



  Há mais ou menos quatro anos eu peguei emprestada uma cópia em VHS desse filme com o meu primo Roberto ("Rock é Rock Mesmo" é o nome escolhido no Brasil) e confesso que fiquei decepcionado e irado ao mesmo tempo. Decepcionado porque eu descobri que não era tão fã assim do Zepa apesar do seu pioneirismo e da influência óbvia que ele exerceu em várias gerações de roqueiros. Descobri que o Robert Plant é muito chato com aquele maneirismo todo pra cantar, o excesso de ié, ié, e por aí vai.

Mas o que me deixou mais puto foi o fato dele e Jimmy Page, o guitarrista, como vocês já sabem, aparecerem quase só eles nas apresentações gravadas ao vivo (Madison Square Garden - Nova York), enquanto o grande John Bonham, imortalizado como Bonzo, e o não menos poderoso baixista tecladista e arranjador John Paul Jones, serem relegados a um fundo de palco com aparições esporádicas. Em resumo, o filme é muito chato e vale mais pelos takes onde cada um da banda aparece interpretando ele mesmo ou alguma ficção. Mas este texto é para falar do Bonzo, de quem, sem dúvida nenhuma, continuo fã incondicional.


John Henry Bonham nasceu em Redditch, Inglaterra, no dia 31 de maio de 1948, filho de Jack e Joan Bonham, irmão de Michael e Debbie. Como todo moleque que se interessa por bateria, John começou batendo em panelas e potes da mãe, ou em qualquer outra coisa que saísse som. Com dez anos de idade, talvez cansada de ver as suas panelas serem amassadas, a mãe lhe compra um daqueles tambores com uma cordinha para se colocar no pescoço.

Em 1964, portanto, com 16 anos, ganha do pai o seu primeiro kit de bateria, um velho modelo, todo feito de metal, e foi com ele que Bonham aprendeu a cuidar de um instrumento, conforme confessaria bem mais tarde. Já que era muito cuidadoso com a sua ferramenta de trabalho, baterista desleixado com o próprio equipamento, o deixava muito aborrecido.
 

Bonzo decidiu definitivamente que queria ser um baterista logo depois de sair da escola (desculpem, mas eu não descobri até quando ele estudou). Sua primeira banda foi Terry Web and the Spiders (com a qual ficou um ano) e eles costumavam se vestir com jaquetas de cor púrpura, cabelos engomados e gravatas de cordinhas.


 

Mais exagerado ainda era o vocalista, que usava uma jaqueta de lamé dourada. Quando tinha 17 anos começou a tocar no Way of Life e também se casou com Pat Phillips, a quem prometeu que iría deixar de tocar. "Mas todas as noites eu voltava pra casa, sentava na bateria e tocava. Eu me sentiria miserável se eu não fizesse isso", confessou um dia nosso herói. Desculpe a quebra de promessa Pat, mas... ainda bem ele fez isso!

Olha só como era dura a vida do casal iniciante, eles moravam em um trailer e Bonham teve que parar de fumar para guardar dinheiro e quitar o aluguel. Mas antes do Led, ele ainda fez parte do Crawling King Snakes e da Band of Joy, com Robert Plant, de quem era amigo de infância. Detalhe importantíssimo - Bonzo já era conhecido na época como o mais pesado, o baterista que tocava mais alto, algo que muitos imitadores tentaram, mas não conseguiram igualar até hoje. No início da sua carreira, era normal bumbos, caixas e tontons não resistirem à energia musical de suas porradas. Com o tempo, como ele mesmo confessou, aprendeu a tocar alto sem detonar o instrumento.

O Led Zeppelin (Zepelim de Chumbo, aquele que é pesado, mas decola!) foi formado em 1968 pelo ex-Yardbirds, o guitarrista James Patrick Page, o que fez dele líder desde o inicio.



The Yardbirds, do polêmico e grande guitarrista Jeff Beck, teve sua última treta (eles viviam brigando) e desmonte em 1968. De repente, Page herdou um nome e compromissos assumidos.


Na busca de músicos para dar continuidade ao grupo e para cumprir os contratos, o primeiro que aceitou o chamado para a nova formação foi John Paul Jones Baldwin, baixista que havia participado com ele da gravação do Becks's Bolero. Mas, John era muito mais que um simples baixista, era também tecladista, produtor e tinha formação clássica. Ele foi a eminência parda do Zepa, aquele que tudo fazia, sem que o fã comum tivesse conhecimento disso.

Para os vocais, Jimmy Page queria Terry Reid, muito conceituado na época, mas ele havia acabado de assinar um contrato, entretanto, indicou um cantor que se apresentava nos bares de Birminghan (cidade natal do Black Sabbath!). Seu nome, Robert Anthony Plant. Recrutado por Jimmy, depois de pouquíssimo tempo, gostos musicais muito semelhantes, faz com que a química entre os dois funcione perfeitamente, tanto que eles continuam se apresentando juntos até hoje e, inclusive, estiveram no Brasil em um Philips Monsters of Rock.
 

Para a bateria, Robert Plant sugere a Jimmy page, o velho amigo de infância, John Henry Bonham. Jimmy ficou pasmado quando viu pela primeira vez o grande Bonzo detonando o seu kit.


  O círculo, ou quadrilátero estava completo. Nascia o Led Zeppelin. Mas, antes que se tornasse como tal, foi necessário um acerto no nome. Jimmy Page queria que a banda fosse The New Yardbirds, mas, dizem, Bonham não queria tocar sob esse nome.

Durante uma semana eles ficam trancados em um estúdio de Londres tocando músicas de Little Richard, Chuck Berry e Elvis Presley. Keith Moon, baterista do The Who, foi visitar os caras numa noite e achou o nome The New Yardbirds, nada a ver. Disse que eles eram pesados, mas voavam. Como um zepelim de chumbo, Led Zeppelin!

Fizeram ainda uma turnê como The New Yardbirds pela Escandinávia, para cumprir os contratos já citados. Depois, como Zepa, vocês sabem, conquistaram o mundo.

Fama (antigamente) chegava com muita grana e podia (e pode) pirar a cabeça de alguém sem estrutura. E o Led não foi exceção, mas, de certa forma, seus membros conseguiram manter a sanidade durante os poucos anos que a banda durou. John Bonzo Bonham tinha uma fazenda onde gostava de cuidar das suas vacas de raça e cavalos.

E ele era realmente o mais simples dos Led. Enquanto no filme citado, Page, Plant e Jones interpretam um sonho, um desejo, nas seqüências enxertadas, Bonzo interpreta ele mesmo, na sua querida fazenda, andando à cavalo, de moto, com seus carros, em tomadas com o filho e a mulher. Cada um na banda tinha um símbolo, retirado do livro de Runas e o dele era o mais simples de todos - três círculos entrelaçados representando uma trilogia: homem, mulher e criança.
 

Álbum após álbum, turnês infindáveis, montanhas de dinheiro (graças ao "quinto" Led, o empresário Peter Grant), alguns acidentes e desgraças nesse percurso (a morte do filho de Plant, um acidente que quase o aleijou), o Zepelim de Chumbo chega numa altura jamais imaginada e seus membros ganham estatura de mitos.


  Page e Plant, pela evidência de serem os "front men" da banda (evidentemente, também pelas qualidades de ambos); Jones e Bonzo, mais pela técnica do que pela exposição propriamente dita. Bonham tinha uma pegada inigualável, não era só peso e velocidade, como já foi citado, mas também muita técnica, apesar de nunca ter tomado nenhuma aula de bateria. Viradas incríveis, uma batida que parecia em certas horas, ir em direção contraria ao da banda, mas que se encaixava perfeitamente, além do dom de enfiar três pancadas onde parecia só caber duas, entre outras características particularíssimas.

Como esquecer sua incrível performance em "Moby Dick", que em certas apresentações chegava a durar mais de meia hora (no filme, dura 17 minutos!).

Apesar dos imitadores, quem mais senão o próprio era capaz de tocar com as mãos nuas de forma tão perfeita e ensurdecedora?! Mas Bonham também gostava muito de beber (cerveja Heineken era a sua preferida), além de abusar de outras substâncias.

Em um show no começo de 1980, Bonham cai do seu banquinho de bateria depois da terceira música. Era o sinal de que o gigante bonham, o gentil Bonzo, talvez o maior fã de outra lenda da bateria, Ginger Baker, entrava em uma perigosa curva descendente, como os fatos que se seguiram comprovaria, no apogeu dos trinta e poucos anos. Sobre Ginger Baker, ele dizia ser ele o responsável por colocar o baterista como mais um membro da banda e não um mero coadjuvante, como era antes dele, lá no fundo do palco, isso em termos de rock. Gene Krupa, outro de seus ídolos, fez isso em relação às big bands - ele colocava a sua bateria bem na frente e tocava num volume que ninguém havia feito antes em circunstâncias semelhantes.
 

Mas, 1980 foi o último ano de Bonham. No dia 24 de setembro desse ano, John Henry Bonham estava em uma festa no castelo de Jimmy Page. Nesse dia ele havia tomado um medicamento que servia para mantê-lo longe da heroína. Mas ele bebeu muito, tomou 40 doses de vodka em 4 horas! Levado pra casa por um roadie da banda, vomita, inconscientemente, a noite toda e se afoga no próprio vômito. Na manhã do dia seguinte, 25 de Setembro, é encontrado morto por John Paul Jones.



John Bonham, o magnífico Bonzo, Foi enterrado no dia 10 de Outubro e o LED ZEPPELIN acabou em Dezembro, depois de tão somente 12 anos de estrada. John Bonham morreu coma apenas 32 anos de idade. Mas, o som de suas porradas na querida bateria soarão para sempre em nossos ouvidos e nos daqueles que virão, depois que os nossos se tornarem surdos. Que assim seja.

Texto: Niva dos Santos
especial para o Portal do Rock