Entrevista Exclusiva
Londres - Janeiro de 2004
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O Adicts é uma banda de punk rock formada em 1977, no vilarejo Ipswich, cidade de Suffolk, Inglaterra, com Monkey (Keith Warren) nos vocais, Pete De (Pete Davidson) na guitarra, Mel Ellis no baixo e Kid Dee (Michael Davison) na bateria. Mesmo hoje, quase 27 anos após o primeiro show da banda, eles ainda estão tocando com a mesma formação, os Adicts originais!

A banda foi influenciada pelo visual dos "droogs", do clássico filme Laranja Mecânica. Famosos na cena rock independente e campeões de vendas de discos nesta cena, eles conseguiram a proeza de emplacar seu segundo disco de estúdio, Sound of Music (1982) e o single "Bad Boy", na disputada parada rock britânica.

Realmente a banda dispensa maiores apresentações. Aqueles que os conhecem podem ser considerados seres deste planeta chamado Terra. Se você não está entre estes "seres", mas gosta de rock, tente descolar algum dos discos do Adicts e certamente seu passaporte para a Terra sera carimbado!


Monkey com Marcio Faveri no HITS 2003


Confiram agora a entrevista exclusiva:


Portal: Seria esta a primeira entrevista que a banda dá ao Brasil? Temos muitas perguntas que seus fãs brasileiros gostariam de fazer. Primeiro, vamos falar sobre o começo de carreira e sobre o nome da banda. Se pegarmos o dicionário, veremos que o significado para "addicts" (com dois "d") está assim: "uma pessoa dependente ou viciada em algo". Qual foi e qual é o vício da banda e porque apenas um "d"?
Monkey: Esta não é nossa primeira entrevista para o Brasil, pois já fizemos outras. O nome Adicts apareceu quando ainda usávamos o nome Pinz e depois Afterbirth, durante um de nossos primeiros shows, quando alguém fez uma resenha do show dizendo que nossa música era muito "addictive" (viciante). Infelizmente este nome está ligado também às drogas, portanto cortamos um "d" e ficamos com um nome que não significa absolutamente nada, mas mesmo assim algumas pessoas ainda escrevem nosso nome de forma errada, o que é um saco, já que com todos os anos de carreira que temos somos claramente THE ADICTS. Acredito que eu seja viciado em PAZ.
Kid: Eu me lembro de alguma coisa do tipo, mas meu cérebro fritou depois de tanta coisa que rolou no passado. Eu era mesmo um viciado.
Pete: Odeio drogas, mas acredito que a maconha deveria ser legalizada. Ela tem componentes medicinais que podem ajudar em muitas doenças.
Mel: Tivemos muitos vícios ao longo dos anos, mas sobrevivemos. Aperta um baseado aí!

Portal: Sei que o Adicts não é uma banda dos "principais centros" da Inglaterra, como Londres e Manchester. Como era a cena em Ipswich quando vocês começaram, tipo, quais as bandas vocês ouviam e quais eram as maiores influências naqueles tempos?
Pete: Fomos a primeira banda punk de Ipswich. A cena em Londres não era mesmo fácil e a gente não tinha vez lá. Marcar shows era praticamente impossível. O The Damned foi a única banda de Londres que nos ajudou. Eles foram realmente a primeira Verdadeira Banda Punk. Pra mim grandes influências foram New York Dolls, Slade e T. Rex.
Kid: Eu lembro do McLarem (empresário do Sex Pistols) querendo nos empresariar, mas logo sacamos qual era a daquele canalha e rimos na cara dele. Eu tinha apenas 14 anos e era cabaço ainda. A banda Doctors of Madness foi uma grande influência pra mim, assim como os lendários Ramones.
Monkey: Kid, Pete e Mel não estavam muito ligados na cena punk o tanto quanto eu. Eu não conhecia nada do som punk, mas quando ouvi, amei de cara. Queria fazer parte daquilo. Ainda não existia uma cena punk de verdade quando começamos, os Pistols ainda nem estavam na onda.

  Era apenas uma mistureba de som elétrico e um movimento underground. A gente curtia o que o David Bowie estava fazendo como Ziggy (Ziggy Stardust foi um personagem/alterego de David Bowie).
Mel: A gente curtia mesmo o New York Dolls e o Bowie e daí ouvimos falar dos Ramones. Um amigo me enviou uma fita cassete tosca e era maravilhoso. Pete e Kid estavam bolando umas idéias misturando Roxy Music e rebeldia cockney. Então tudo se encaixou perfeitamente, mas não conseguíamos tocar nossos instrumentos de forma correta. Esta fase de aprendizado foi divertida.

Portal: Como eram os shows no começo (final dos anos 70)? Quais as bandas que tocavam juntos com vocês no começo da explosão punk e que vocês têm saudades até hoje e gostariam de tocar juntos novamente agora?
Pete: Os shows do começo eram entusiasmados e cheios de novidade. Ninguém sabia o que iria acontecer, pois rolava muita violência. Fomos agredidos muitas vezes no palco, mas éramos um time e a lealdade entre a gente ainda permanece forte até hoje. Foram tempos loucos!
Monkey: Algumas bandas que tocávamos eram os Degraders (uma ótima banda), Tenpole Tudor, The Damned, Disco Zombies. Não diria que sinto saudades delas ou de tocar com elas, mas tenho excelentes lembranças. Eram tempos violentos. Eu era discriminado e chamado de gay, mas eu nem dava a mínima. Mas aprendi bem a nadar com os tubarões.
Kid: Eu adorava os primeiros shows. Eu era tão novo e sempre bêbado a ponto de no dia seguinte aos nossos shows, acordar sangrando e tentando se lembrar o que diabos havia acontecido na noite passada. Fico feliz por as coisas não serem mais assim.
Mel: Não tinha muita noção do que eu estava fazendo. Mas aprendemos como tocar na frente de qualquer um. Isso se alguém aparecesse nos shows, claro.

Portal: E como eram as primeiras reações das pessoas quando viram o visual "adicts" e especialmente a maquilagem de Monkey?
Monkey: Variava. As garotas adoravam. Tinham aqueles que não gostavam e queriam me bater. Mas no geral as pessoas curtiam e entendiam que aquilo fazia parte do show.
Kid: Nosso visual Laranja Mecânica tipo que ajudou o Monkey. Éramos uma gangue e Monkey era nosso bobo da corte. Toda gangue tem seu bobo da corte.
Pete: Inventamos o filho bastardo de Ziggy. A reação das pessoas era surpreendente, tão variada e curiosa que chegava ser interessante de se observar. Também aprendi a desviar de objetos voadores. Não sou tão bom nisso agora, portanto se alguém me acertar, apenas saio do palco.
 

Portal: Vocês tinham problemas com a polícia ou com grupos conservadores no começo? Quais lugares eram piores para tocar neste ponto de vista?
Monkey: Sempre saíamos de casas de shows e até de cidades de toda a Inglaterra, escoltados pela polícia. Muita gente nem sabe disso. Não porque éramos uma merda, mas porque éramos os disseminadores do futuro e as pessoas nunca haviam visto pessoas tão estranhas e malucas como a gente em suas cidades. Chegava ser assustador às vezes. Mas a gente enchia a cara e encarava tudo.
Mel: Yeah. E ainda fazemos as mesmas coisas e é ótimo. Hoje tudo rola numa boa e podemos nos concentrar em nosso show e nossa música. Gosto disso.

  Pete: A polícia é um porre! Nunca conheci um policial legal.
Kid: Política e música não devem se misturar, assim como religião e política também não. Existem pessoas que te amam e outras que te odeiam. Não se pode agradar a todos.

Portal: Sei que seus maiores fãs no começo foram os punks, mas os skinheads também foram e são grandes fãs da banda. Pude vir isso pessoalmente no show que vocês fizeram ano passado no HITS 2003. Como vocês vêem isso e qual o relacionamento da banda com os diferentes tipos de fãs mundo afora?
Kid: A gente atrai vários públicos. Principalmente punks e skins. Também podemos até agradar a sua avó. Cada vez mais estamos atraindo vovós. Adoro mulheres mais velhas.
Pete: Éramos uma banda. Quem rotulava a gente de banda punk estava errado por várias razões. Somos uma banda das ruas, da galera, nossa música sempre foi um hino das ruas. O rótulo punk é legal e até aceitamos. Às vezes penso que fomos muito mais uma banda skinhead do que punk por causa do nosso visual laranja mecânica. Rótulos acabam confundindo. No final das contas, éramos apenas uma banda, uma banda punk ou uma porra de banda de rock skin-laranja-mecânica-disco-hip-hop-shagadellic. E todos os caras que vêm aos nossos shows são legais.

Monkey: Fãs são fãs em qualquer lugar. Eles vêm e vão. Eles curtem o Adicts e o que tocamos. A festa é nossa e se você tem um piercing no nariz, ou uma tattoo na bunda, seja lá qual for a sua cor, seja você magro ou gordo, bastou querer entrar pra nossa festa e será bem vindo a nossa gangue.
Mel: O HITS é um festival punk, principalmente visto por punks e skins, mas quando fazemos nossas próprias turnês, pessoas de todos os tipos vão aos nossos shows. Isso é legal também.



Portal: Agora falando do processo de composição das músicas. Como é feito normalmente? O que sai primeiro, letras ou melodia? Quais são os principais compositores da banda?
Pete: Eu faço as melodias e todos fazem as letras. Moramos cada um numa cidade diferente, portanto ensaiar está fora de questão. Então quando vamos gravar uma música ou um disco a gente se junta e já compõem e grava. Não temos nada preparado, apenas idéias e vamos juntando tudo, tanto que os discos Rise & Shine e Rollercoaster foram criados e gravados em apenas três semanas. É um grande dom que temos em fazer este tipo de mágica no estúdio.

Monkey: Escrevo letras de várias maneiras, como qualquer compositor. Acho interessante compor ouvindo o que o Kid e o Pete estão tocando no estúdio. Sento num canto e fico olhando as letras que tenho até encontrar aquelas que se encaixam no som que eles estão tocando. Mas existem muitas maneiras de se compor.
Kid: Gosto do jeito como nos relacionamos. Nos mantém vivos e honestos. Nossa música é mais honesta do que a de qualquer outra banda que conheço. Às vezes, nem tenho idéia sobre o que fala determinada música, até que ela esteja completamente gravada. Então ouço e penso: "uau, isso é punk rock".
 

Portal: Vocês têm alguma objeção quanto a temas para músicas ou cantam sobre qualquer coisa que vem à mente? Quero dizer, vocês têm um foco ou assunto preferido?
Monkey: Compomos sobre quase todos os assuntos. Gosto de compor sobre a vida em geral.
Pete: Cantamos sobre o que está rolando naquele momento.
Kid: Rola de tudo.

Portal: Contem-nos um pouco como foi a experiência de assinar um contrato de 180 mil libras (cerca de 1 milhão de reais, ao câmbio de Janeiro/2004) com a Sire Records (Grupo Warner). Apesar de todos os aspectos negativos do contrato, dentre eles o fato de que vocês foram forçados a mudar o nome da banda para ADX, vocês pelo menos curtiram essa grana toda? Teria sido este o pior momento da banda e talvez a razão para o final da banda?

Monkey: Nunca vimos a cor do dinheiro! Como você descobriu essa história? Também nunca ocorreu um "final da banda". Apenas demos um tempo depois da turnê mundial de 1987. Até aquele ano estivemos na estrada por 10 anos ininterruptos e tínhamos que dar uma pausa, porque eu estava todo detonado e sem gás. Acho que paramos por uns dois anos apenas.
Pete: O lance da Sire foi um pesadelo. A mudança do nome foi uma estratégia para cair fora do contrato, porque tentamos de tudo para nos livrar deles. Foi uma experiência terrível. Daquelas que preferiria esquecer.
 

Estávamos no canal de TV BBC e eles disseram no estúdio "desculpem-nos, mas teremos que cancelar vocês" pois os chefões da TV estão putos com vocês por causa do nome da banda. Bom, a gente não tinha grana nem pra gasolina, então decidimos trocar o nome, mesmo porque minha mãe queria tanto nos ver na TV. Então fizemos isso e olhando pro passado era todo uma sociedade contra a gente. Mas nós fizemos e ninguém se ofendeu com isso, além de um jornalistas bastardos que publicaram que tínhamos nos vendido, sem ao menos nos perguntar as razões da mudança. De qualquer forma, quem se importa? Era apenas um nome. Alguns fãs se ofendiam com nossa atitude, mas encaro isso de outra forma. As músicas são nossas e a banda é nossa, fazemos o que queremos e foda-se!
Kid: Enche o saco lembrar de como fomos tratados como merda no passado.


Portal: Existem muitos boatos e fofocas aqui e ali, dando conta de que alguém de vocês está com problemas de saúde, sofrendo de uma grave doença. Isso é verdade ou mentira? Como está a saúde da banda hoje em dia?
Pete: Yeah. Sou eu. Fiquei muito doente com um problema no fígado que acabou originando outras coisas mais graves e eu tive que fazer quimioterapia por cerca e um ano. Isso foi em 1995 e ainda não estou bem, mas acabei mudando meu estilo de vida. O Adicts esperou minha recuperação, mas atualmente ando muito frágil e tenho que tomar muito cuidado. Por isso que agora temos Scruff (irmão do Mel) na guitarra base.

Ele é meu reserva e se fico doente ou preciso sair do palco às pressas, ele assume a bronca. Ainda bem que isso ainda não aconteceu, mas ele agora é membro permanente e é uma alegria tê-lo na banda. Aceitem meu conselho, dinheiro nenhum poderá trazer de volta sua saúde, portanto cuide bem do seu corpo e não abuse dele.

Portal: O Olga (do Toy Dolls) que tocava baixo com vocês saiu da banda depois do HITS 2003. Como foi tocar com ele e quem é o baixista agora?
Mel: O Olga entrou na banda porque eu não pude fazer a primeira parte da turnê de 2003. Pete é um grande amigo do Olga e automaticamente ele entrou no meu lugar. Ele é demais. Ele é profissional e um "Adict Oficial". Então se precisarmos dele novamente ele certamente tocará no meu lugar de novo quando eu não puder. Tenho uma vida normal e é difícil pra mim ficar muito tempo afastado do meu trabalho. Tenho a honra de ter sido substituído por um dos maiores guitarristas do mundo, escolhido por Pete.
Pete: Ele é uma pessoa fantástica, excelente músico e um grande amigo. Espero que possamos tocar juntos novamente. Tenho certeza que tocaremos.
Monkey: Foi estranho não ter o Mel no palco a princípio, mas o Olga é demais e nos demos muito bem. Ele teve bons momentos com a gente.
 

Kid: Olga toca seu baixo como toca sua guitarra, de uma forma única, então era uma pegada diferente na banda, mas a gente nunca tentou mudar isso. Ele tocou do seu modo e manteve sua personalidade, se transformando num verdadeiro irmão. Ele usava seu chapéu o tempo todo, era divertido. Imaginem vocês que o cara dorme pra caramba.

Portal: Esta é uma pergunta pessoal pra vocês. Suponhamos que vocês não estejam no Adicts, em qual banda vocês gostariam de tocar? E porquê ?
Pete: No Blur, gosto da diversidade deles, melhor banda inglesa desde os Beatles.
Kid: Nos Ramones, Dee Dee me ensinou a contar até 4.
Mel: No Tom Petty and the Heartbreakers, eles são demais!
Monkey: Qualquer banda menos no Adicts.




Portal: Como vocês vêm o punk rock de hoje? Existem muitas diferenças entre os velhos tempos e a cena atual? Quais bandas novas vocês gostam ou ouvem atualmente?
Monkey: Hoje a cena punk gira em torno apenas da música. As portas estão abertas para o sucesso se você o quer. Novas bandas como os Casualties estão se dando bem. Ouço todos os tipos de música.
Pete: Eu acho que o punk rock de hoje é excelente. Uma nova era. O Brasil tem uma banda que adoro que é o Holly Tree. Eles são sublimes. Penso que é difícil começar a curtir novas bandas, porque sempre acho que eles copiam tudo.
Kid: Ouço todas as bandas. Os tempos são diferentes, claro, a maioria das pessoas nem pode imaginar como era difícil nos tempos em que começamos com a banda. Hoje tudo está pronto. Mas mesmo assim acredito que o espírito é o mesmo, das velhas e das novas bandas.
Mel: Ainda estou ouvindo muito Sheena Easton.

Portal: E sobre o Brasil. Vocês sabem alguma coisa sobre a cena punk rock brasileira? Alguma banda que gostem?
Monkey: Holly Tree.

Portal: Vocês têm planos ou proposta para tocar no Brasil ou em outro país da América do Sul?
Pete: Merda! Toda vez que estamos prestes a fazer algo na América do Sul aparece algum problema. Adoraríamos tocar pra vocês, mas alguém (promotores) tem que nos oferecer uma boa proposta, com dinheiro de verdade. Não é barato não, porque afinal temos que sobreviver.
Kid: Porque vocês do Portal não nos levam pro Brasil então?

Portal: Algum disco novo ou novo projeto para 2004?
Monkey: Acabamos de finalizar o novo disco Rollercoster e agora temos que encontrar uma gravadora para lançá-lo. Estamos sem gravadora há anos e como este é um excelente disco, tentaremos fazer o lançamento de forma apropriada, com rádio, TV, etc. Com isso esperamos boas coisas para 2004.
Pete: Ficar bem. Sinto-me uma merda no momento e quero entrar em turnê novamente. Espero que minha saúde me permita.
Kid: Uma tour pelo Brasil seria ótimo.
Mel: Vou cuidar do meu jardim e espero que o novo disco saia legal, pois é o melhor que já fizemos. É foda!



Portal: Algum comentário ou mensagem final para os fãs brasileiros?
Monkey: AMAMOS VOCÊS!

Para maiores informações acessem o site oficial do The Adicts

Marcio Faveri - da redação

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