Entrevista Exclusiva
BLiND PiGS
São Paulo - 22 de Março de 2002

O Portal do Rock traz para vocês uma entrevista exclusiva com a banda paulista Blind Pigs, que está lançando seu terceiro CD "Blind Pigs", o qual promete ser um grande sucesso na cena punk rock e underground brasileira.

A entrevista foi respondida pelo vocalista Henrike e pelo baixista Mauro. Mas para você que ainda não conhece a história da banda, vamos dar uma olhada do passado dos caras.


História da Banda

A saga rumo ao fracasso começa em fevereiro de 1993. Os amigos de infância, sem a menor aptidão musical, sem amigos no meio e com uma vaga, e errada, idéia sobre o que é ter uma banda, desperdiçam seus domingos ensaindo na cozinha de uma casa em Barueri onde moravam os integrantes da banda Hard Life. A vida é dura.

Em novembro daquele ano, gravam a primeira demo, ao vivo, no quintal de uma casa barueriense. Algumas músicas desse sofrível registro, intitulado Blind Pigs, podem ser ouvidas nas faixas escondidas de seus dois primeiros CDs. Em 94 descobrem que São Paulo tem uma coisa chamada cena. Conhecem outras bandas e fazem seus primeiros shows na capital paulista. Gravam a segunda demo em dezembro, chamada Sweet Fury. A partir daí, novas portas se abririam para os porcos cegos.

Em 95 descobrem que o Brasil tem uma coisa chamada cena. E a Sweet Fury é muito bem recebida pela mesma. Jay Ziskrout, primeiro baterista do Bad Religion, está de passagem pelo país em busca de "talentos do rock latino" para sua nova gravadora. Seria ele um vanguardista ou um retardado? Não importa. Jay volta pra NY com caixas e caixas de fitas demo e CDs. Entre elas a doce fúria do BLiND PiGS. Seis meses depois, Mr. Zisktrout liga para Henrike e diz que gostou muito da demo - "Vocês não têm mais nada gravado?". "Não, mas daqui a um mês a gente vai ter". Desse telefonema surge a fita Lost Cause. A idéia era gravar umas músicas só pra mandar pro gringo, mas o resultado fica tão bom que vira outra demo.

Além de ser dono da gravadora Grita, Jay trabalhava na Epitaph Europe e era o responsável pelo licenciamento dos discos da major indie na América Latina. No Brasil, quem distribuia a Epitaph era a Paradoxx. Ninguém sabe como ou porquê, mas a Paradoxx aceitou a sugestão de Jay e assinou contrato com os porcos. Nasce então o São Paulo Chaos, primeiro álbum da banda.



Juntando as prensagens de Paradoxx, Grita (EUA e Europa), Alpha Music (Japão) e Sweet Fury Records (que relança o disco em 2000), o São Paulo Chaos vende cerca de 10 mil cópias. Logo após seu lançamento, em julho de 97, a banda entra numa van e faz seus primeiros shows fora do estado. A Brazil Chaos Tour percorre 18 cidades do sul, sudeste e centro-oeste do país.

Começa o declínio. Grita vai mal das pernas, BLiND PiGS odeia Paradoxx e Paradoxx odeia BLiND PiGS, o tempo passa e nenhuma gravadora se interessa em lançar um segundo disco. A formação muda constantemente, problemas pessoais, familiares, finaceiros e de toda ordem não param de aparecer até que em 98 a banda acaba.

Já conformado com o fracasso, Henrike recebe quase que ao mesmo tempo um convite para participar de um tributo ao Ramones que sairia na Alemanha e outro para uma coletânea de ska ao lado de Rancid e outras bandas.

Ele e Gordo chamam Arnaldo e gravam as duas músicas. Empolgados com o resultado, voltam à ativa e montam seu próprio selo, a Sweet Fury Records, para lançar o segundo disco. Em janeiro de 2000 sai o The Punks Are Alright, uma coletânea com gravações perdidas feitas entre 93 e 99.

Com o dinheiro do The Punks Are Alright gravam o clipe de Conformismo e Resistência. Com o dinheiro dos shows, relançam o São Paulo Chaos. Com o dinheiro do São Paulo Chaos, entram em estúdio e gravam o terceiro disco, lançado em 2002 e batizado com o mesmo nome da primeira demo. Os shows estão cada vez melhores, mais lotados e apesar de todos os contratempos inerentes a quem, por alguma deficiência mental, decide fazer punk rock no terceiro mundo, o BLiND PiGS segue firme e forte.

Vamos à entrevista

Portal:
De onde vcs tiraram o nome Blind Pigs e porque?
Henrike - Na época da Lei Seca, nos EUA, os bares que vendiam bebidas alcoólicas ilegalmente, onde também rolavam umas putas, jogos de azar, etc. eram chamados de Blind Pigs. Tinha uma casa de show na cidade que eu morava com minha família, Ann Arbor, em Michigan, chamada Blind Pigs. Meu pai viu shows do Misfits, Replacements, Husker Dü e outras lá. Eu tinha uns 5 anos e não vi nada. Foi do nome dessa casa de show que surgiu o nome da banda.


Portal: Como vcs definem o estilo da banda? E o que faz com que a banda tenha este estilo?
Mauro - Acho que a gente faz um punk rock acelerado. Muitas músicas são hardcore mesmo. Sei lá, a gente tenta pôr o máximo de energia e agressividade nas músicas sem perder a musicalidade, a melodia, mas não acho que esse disco novo possa ser considerado hardcore melódico. A gente escuta muita coisa. Cada um da banda tem um gosto musical bem diferente dos outros. Na hora que junta todo mundo sai aquilo.

Portal: Quais as principais influências da banda no começo, que fizeram vcs terem vontade de montar uma banda e quais as bandas que fazem a cabeça do Blind Pigs de hoje?
Henrike - A principal influência no começo era o Forgotten Rebels, uma banda canadense, tanto que nos dois primeiros discos a gente faz cover deles (No Beatles Reunion e The Punks Are Alright). Essa banda é muito foda e não tem metade do reconhecimento que merece. Outras bandas que nos inspiraram foram o Lost Lyrics, o Stiff Little Fingers, Asta Kask e, alguns meses depois do começo da banda, o Bad Religion e as bandas da Epitaph. Das bandas em atividade de punk rock, curto muito Swingin’ Utters e Rancid.
 

Portal: O que vcs acham da cena underground de hoje e o que ainda falta rolar para que bandas como o Blind Pigs possam conquistar um espaço maior na mídia?
Mauro - Ela tá crescendo em progressão geométrica, mas ainda tem muito chão pela frente. Tá no caminho certo, não tem tanta violência, produz várias bandas. Não acho que um dia bandas como o Blind Pigs consigam um bom espaço na mídia brasileira. Pra isso acontecer, a mídia é que teria que mudar, não as bandas. Quando, e se, a mídia deixar de lado a bundalização, as letras de corno em melodias chorosas, e as modas de verão que exaltam a sensualidade, alegria e babaquice verde-amarela, meus netos já estarão pra se aposentar. Não acho que o underground deva dar às costas ao mainstream, mas também não deve esperar muito dele.

Portal: Quais conselhos vcs dariam pra bandas que estão iniciando agora e que pretendem se firmar na cena?
Henrike - Muita paciência, as coisas acontecem muito, muuuuito devagar. É um chavão o que eu vou dizer, mas enfim: se você acredita no que está fazendo, nunca desista. Saiba exatamente o que vc quer com sua banda, se a idéia é tocar nos fins de semana pra curtir uma balada e descolar umas cervejas na faixa, isso é o máximo que vc vai conseguir.

Portal: Vcs acreditam que selos independentes sejam uma boa alternativa para que uma banda iniciante possa divulgar seu trabalho, ou a produção e divulgação totalmente independente é a melhor opção?
Henrike - Acho que sim, só a economia em gravação e prensagem que banda vai ter compensa qualquer coisa. Fora isso a maioria dos selos independentes dão liberdade total.

Portal: Vcs já gravaram videoclipes, que inclusive passaram na MTV. Clipes são uma boa forma de divulgar o trabalho de uma banda como o Blind Pigs? Porque?
Mauro - Sim, é uma ótima forma. Porque a MTV tem um alcance que abrange todo o território nacional. É muito fácil pra um muleque de São Paulo falar que a MTV é uma bosta, que não assiste e não faz falta. Tudo bem, eu também não assisto MTV, mas em Teresina, em Manaus, em São Luís e outras milhares de cidades do Brasil existem pessoas que curtem um som e não contam com uma galeria, com um Hangar, com nenhuma fonte de novas bandas que ofereça algo que não seja axé, sertanejo e outros estilos populares. E a MTV, bem ou mal, dá chance para todas as bandas que não contam com a estrutura de uma gravadora.



 
Portal: Falem um pouco deste novo CD da banda, quais as diferenças com os trabalhos anteriores e o que o Blind Pigs acumula de experiêcia neste disco?
Henrike - Ele está bem mais punk rock do que hardcore, com muita influência de street punk, O bom é que a gente já tinha uma experiência melhor de estúdio então deu pra tirar o som que a gente queria. A formação é bem mais estável do que nos outros discos e isso fez uma diferença. Pra gente é de longe a melhor coisa que já fizemos. É o disco que eu sempre quis gravar.

Portal: Quais bandas nacionais vcs acreditam que devam estourar na cena undergorund neste ano no Brasil?
Mauro - Estourar tipo CPM acho que nenhuma. Acho que as bandas de destaque tipo Street Bulldogs, Dance of Days, Dead Fish, Zumbis do Espaço vão continuar crescendo, mas não ao ponto de darem entrevista pra Capricho. As bandas da terceiro mundo vão ganhar bastante público, acho.

Portal: O que vcs pensam do movimento punk no Brasil? Ele existe?
Mauro - Você fala daquele movimento punk cheio de regras, diretrizes, dogmas e de seus robozinhos programados para odiar? Sim, acho que ele existe, mas não queremos fazer parte dele. Nunca quisemos.

Marcio Faveri - da redação
Fotos: Cristiano Martins

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