Entrevista Exclusiva - The Business
Londres - Dezembro de 2003

É com grande satisfação que o Portal do Rock traz para seus internautas a primeira entrevista concedida pela banda inglesa The Business a um veículo de comunicação brasileiro. O Business é com certeza o orgulho da cena street punk e oi! mundial, porque desde o inicio sempre se manteve fiel às suas raízes e origens, que se refletem nas pessoas e na vida da classe trabalhadora inglesa. Esta entrevista foi feita com o guitarrista Steve Whale, o principal compositor da banda, que fala sobre os pensamentos do Business e da trajetória do grupo nestes quase 25 anos de carreira.


Conheça um pouco da história do The Business

O The Business foi formado no final da década de 70, em Londres, contando em sua primeira formação com Micky Fitz (vocal), Steve Kent (guitarra), Martin Smith (baixo) e Nick Cunningham (bateria). A primeira gravação da banda em vinil veio somente em 1981, quando a VU Records lançou a coletânea "Sudden Surge Of Sound", para qual eles contribuíram com a faixa "Out In The Cold".

  Neste disco também aparece bandas como UK Subs e Laura Logic (antiga X-Ray Spex). Esta música gravada pelo Business não agradou muito a crítica musical que a descreveu como "uma música bastarda e chata a la Status Quo". Depois disso a banda participou de outra coletânea, chamada Carry On Oi!, que trazia duas músicas do Business. Um mês depois veio o primeiro single da banda, "Harry May", que colocaria eles definitivamente no grupo das principais bandas punks do começo dos anos 80. Este single rendeu ao Business uma presença no Top 10 inglês das paradas independentes. Hoje o vinil com este single é quase impossível de se encontrar e virou mesmo uma raridade de colecionador. A formação original se separaria logo após o estouro de "Harry May".
O vocalista Micky não perdeu tempo e recrutou quatro novos integrantes, sendo eles Steve Whale, Mark Brennan (hoje dono do selo Captain Oi!), Graham Ball (ex-Conflict) e John Fisher(que sairia mais tarde para formar o Combat 84). Porém, esta formação com cinco integrantes durou apenas até o primeiro show, sendo que logo em seguida Graham Ball e John Fisher deixaram a banda. Micky então recrutou Key Boyce parar a bateria e com esta formação - Micky Fitz, Steve Whale, Mark Brennan e Key Boyce, eles gravaram o EP "Smash The Discos", em março de 1982. O EP ficou seis semanas nas paradas independentes inglesas, chegando ao número 1.

Antes do lançamento do primeiro e demorado LP da banda, eles ainda participaram de outras duas coletâneas em 1982. Para o EP Total Noise eles gravaram uma versão em estúdio de "Loud, Proud and Punk" e para o LP Oi Oi That's Yer Lot, gravaram a maravilhosa música "Real Enemy". O disco de estréia, Suburban Rebels foi lançado somente em maio de 1983, chegando à posição 37 nas paradas nacionais. Vale lembrar que o disco foi produzido por ninguém menos que Micky Geggus, da banda Cockney Rejects. Um fato curioso sobre este disco é que ele foi originalmente produzido e mixado por Ron Rouman (manager da banda), mas eles detestaram a mixagem e produção e resolveram escalar o amigo Micky para refazer todo o trampo. Mas quando eles foram começar a remixar o disco, descobriram que as fitas originais da gravação haviam desaparecido misteriosamente. Daí então eles tiveram que emprestar duas mil libras (cerca de 12 mil reais) do selo Secret Records e regravaram o LP inteiro.
 

Steve Whale

Mais misteriosamente ainda foi quando eles terminaram as gravações e as fitas perdidas reapareceram, coincidentemente na semana em que a Secret havia licenciado a faixa "Blind Justice" para a Cherry Records, que colocou a música na coletânea e trilha sonora do vídeo UK/DK (de 1983).

  Aparentemente o que rolou foi que a Secret Records mandou a versão gravada e mixada por Micky Geggus e não a de Rouman. As gravações originais do álbum perdido de Rouman foram também lançadas no disco duplo Back to Back Vol. 2, pela Wonderful World Records, em 1985. O disco foi chamado de Smash The Discos (mais tarde relançado pela Link Records) e incluía covers das bandas Crass (Do They Owe Us A Living) e Sham 69 (Tell Us The Truth). Em 1984 a banda não conseguiu lançar mais nada por causa de problemas de contrato com a Secret. Então no final de setembro daquele ano eles retornaram à cena com um novo LP chamado Loud, Proud and Punk (ao vivo) e com um novo baterista, Micky Fairbairn. O disco foi bem aceito pela crítica e ganhou vários elogios.

Em 1985 outro disco foi lançado, chamado Saturday's Heroes, já com a banda em nova formação. Este disco incluía a polêmica música "Drinking and Driving", além de outra música considerada "ofensiva" pela imprensa conservadora inglesa, da faixa título "Saturday's Heroes". Esta música era um hino e uma homenagem aos hooligans, tratada de forma séria e realista.

Além de ter várias músicas suas em outras coletâneas, o Business ficou desde 1985 até 1988 um tanto quanto apagado em termos de lançamentos. Mas foi neste ano de 88 que eles gravaram um cover do Cock Sparrer, da música "Do A Runner" (ressalva: esta música nunca foi gravada pelo Cock Sparrer oficialmente, sendo apenas tocada em shows). O compacto "Do a Runner" foi então lançado pela Link Records (selo formado em 1987 pelo então baixista do Business, Mark Brennan). Um LP chamado Welcome To The Real World veio em seguida em maio de 88.

Além de conter material inédito do Business, este novo disco tinha também versões de músicas das bandas Prole e The Blackout, que foram bandas por onde passaram alguns integrantes do Business. Em outubro de 88 um EP com quatro músicas foi lançado como presente de encarte na primeira edição da revista Beat of The Street. A música do Business incluída neste EP foi "Do A Runner", gravada ao vivo no festival francês na cidade de Lisieux, que foi o último e derradeiro show da banda antes de seu fim.

Mas antes disso, num sábado, dia 2 de abril de 1988, o Business fez seu ultimo show em palcos ingleses, no famoso Astoria em Londres. Cerca de 1500 pessoas foram ver a despedida da banda, que foi gravada pela Link Records e lançada em disco mais tarde, na série Live & Loud. A banda terminaria após o festival de Lisieux, mencionado anteriormente.

A banda ameaçou e ensaiou sua volta durante todo o final da década de 80 e começo dos anos 90, mas foi somente em 1994 que eles retornaram à ativa com Keep The Faith. Como de costume, o disco misturava histórias de futebol com bebedeiras, cunhadas em hinos da classe trabalhadora. Com nova formação: Micky Fitz (vocal), Steve Whale (guitarra), Lol Proctor (baixo) e Micky Fairbairn (bateria), em julho de 2001 eles lançaram o novo disco de estúdio, No Mercy For You, pela gravadora americana Epitaph Records.
 

Neste disco eles afirmavam terem voltado às raízes, fazendo a alegria dos fãs. Duas faixas deste disco - "Hell To Pay" e "Take Us and Use Us", além de "The Whole Truth..." foram usadas na trilha sonora do filme inglês Hell To Pay.

Em 2003 foram lançados dois discos coletâneas do Business, um chamado Under the Influence, com regravações de quase todos os covers gravados pela banda e outro chamado Hardcore Hooligans, apenas com músicas sobre futebol e hooliganismo.

Em 2003 a banda ainda participou da última edição do famoso festival punk ingles Holidays In The Sun.

O novo disco do Business está com previsão para ser gravado e lançado em 2004, ano em que também será lançado um DVD da banda, com um documentário que o diretor Gary Moore está filmando há mais de três anos.

A Entrevista

Portal: Acredito que esta é a primeira entrevista na história do The Business para um veículo de imprensa brasileiro, não é? Então, queria que você falasse aos fãs brasileiros o que significa o nome "Business".
Steve: "The Business" em Londres significa "o melhor soldado ou o melhor guerreiro". É uma gíria cockney usada pelos londrinos.

Portal: Quando vocês começaram com a banda, quais eram suas principais influências e que bandas vocês ouvem atualmente?
Steve: Nossas principais influências sempre foram a primeira geração do punk rock, como Sex Pistols, The Clash, The Ruts e Slaughter and The Dogs.

 

Portal: Dentre estas bandas que influenciaram vocês no começo, teve alguma que decepcionou vocês por algum motivo?
Steve: Isso é tão fácil de responder: The Clash. Eles eram muito bons e ainda acho que eles foram umas das maiores bandas de rock da Inglaterra em todos os tempos. Não me sinto decepcionado com nenhuma banda do passado. A única coisa que eu diria é que John Lydon (vocalista do Sex Pistols) foi o cara! Tive a honra de conhecê-lo e tenho total respeito por ele, quem considero até hoje o mais foda de todos.

Portal: É possível sobreviver por mais de 20 anos de carreira tocando punk rock, vivendo apenas da grana dos shows, CDs, etc? Como a banda está na ativa por tanto tempo?
Steve: : Infelizmente estar numa banda de punk rock não faz com que você seja auto-suficiente. Conseqüentemente temos que fazer outros trabahos que aparecem para complementar nossa renda e para pagar nossas contas. A razão pela qual estamos na ativa por todo este tempo deve ser o fato de sermos malucos.

Portal: Sei que o The Business não é uma banda punk propriamente dita, mas sim uma banda Oi! (me corrija se eu estiver errado). Bom, qual é o verdadeiro sentido do Oi! para vocês? E porque as bandas Oi! são quase sempre e equivocadamente associadas com idéias facistas e nazistas?
Steve: : A maioria das pessoas não conhece a história da banda profundamente. O The Business e o The Blitz foram as primeiras bandas da história a serem chamadas de "skunk", pois tinham em sua formação punks e skinheads, unidos nos mesmos ideais. Este fato por si só já era um recado direto e objetivo que dizia que deveria haver união na cena. Vide nossa música "The Real Enemy", que fala sobre este assunto em específico.

Portal: Os skinheads estão por todos os cantos do planeta, mas em que país você acredita que exista o tipo certo de skinhead, com o verdadeiro sentimento Oi! nas veias e sem aqueles ideais políticos de merda?
Steve: Os princípios do verdadeiro e original Oi! que você fala são bem socialistas e vindos da classe trabalhadora. Então me diga você, porque eu acredito que a resposta para essa pergunta é bem fácil: os verdadeiros skins estão em todo o mundo!

Portal: E sobre esta verdadeira devoção que vocês têm sobre coisas ligadas aos hooligans, tais como futebol e bebedeira? Vocês acreditam que a maneira violenta e agressiva que os hooligans agem é um jeito de liberar o stress do dia-a-dia?
Steve: Acredito que este lance dos hooligans e o futebol em si mudou muito comparado com a época que você está falando. Isso eu penso que rolava muitos anos atrás. O comportamento que você está associando aos hooligans eu diria que é resultado da falta de educação das pessoas até mesmo com seus pais.

Portal: Como está a banda agora? Alguma turnê em mente, novas músicas ou novo CD em vista?
Steve: No momento não.

Portal:
Eu vi o show de vocês no Holidays in The Sun este ano em Morecombe e foi realmente foda! Vocês estão ainda com o mesmo baterista que também toca com o UK Subs? E vocês sempre usam aquele "segurança pessoal" para o Micky?
Steve: Não.
 

Portal: Como vocês lidam com a mídia, especialmente coisas como MTV e outros canais de TV que tem programação musical? Vocês têm algum videoclipe novo? Consideram importante para uma banda como o The Business ter um videoclipe rolando na MTV, ou mesmo uma música da banda como trilha sonora para um anúncio de TV?
Steve: A mídia, a indústria da música e a MTV passaram os últimos 20 anos desprezando e ignorando o The Business. A única razão que faz a gente continuar é saber que somos uma pedra no sapato deles.

Portal: E sobre o Brasil? Algum plano de tocar por aqui? É difícil armar shows para o The Business fora da Inglaterra?
Steve: O Brasil seria excelente. Mas tocamos em outros países regularmente e sem problemas.

Portal: Algum comentário final para seus fãs brasileiros?
Steve: Para todos os nossos fãs brasileiros - KEEP THE FAITH!!! (tenham fé). O novo material do The Business estará nas ruas no ano que vem. Vejo vocês nos shows! Steve.




Para maiores informações acessem o site oficial do The Business

Marcio Faveri - da redação

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