Entrevista Exclusiva com Chris Skepis
20/07/2002 - São Paulo - SP
  O Portal do Rock traz para vocês uma super entrevista com o brasileiro Chris Skepis, ex-guitarrista da lendária banda inglesa Cock Sparrer.

O Cock Sparrer nasceu da classe trabalhadora inglesa, tocando o som das ruas e sendo considerados os inventores do "street punk", cujo título é clamado por outras bandas, mas que sem dúvida é deles. A banda foi formada ainda em 1975, na zona leste de Londres, quando ainda nem existia a cena punk ou mesmo o nome punk rock. Eles eram uma banda de pub-rock, ou "rock de boteco". Poucos sabem, mas nesta época, a banda chegou a abrir shows para grandes bandas como Thin Lizzy e Motorhead, sempre com uma apresentação ao vivo insuperável e inesquecível, marcada pela energia e garra de seus integrantes. Poderia falar por horas desta grande banda, mas prefiro deixar a história da banda para o próprio Chris Skepis contar em detalhes, nessa brilhante entrevista.

Portal: Em quais anos vc tocou com o Cock Sparrer e como foi que você entrou na banda?

Chris:
Fui morar em Londres no fim de 1982. Já tinha morado lá em 1980 quando eu era piloto de corrida. Em 82, eu voltei pra lá para correr de novo, só que dessa vez eu comprei uma guitarra, mas não tinha intenção de entrar em bandas ou coisas do gênero. Era só pra passar o tempo entre uma corrida e outra. Foi a minha (atualmente ex) esposa que insistiu que eu deixasse um cartão com meu nome e endereço num imenso quadro de avisos que tinha na loja que eu comprei a guitarra. Como eu achei que seria impossível entrar em alguma banda devido ao gigantesco número de guitarristas que também procuravam alguma banda, eu só escrevi - CHRIS SKEPIS - GUITARRIST - PUNK/ HEAVY METAL, 12, SLOANE AVENUE SW3, LONDON-. Só isso. Eu nem tinha telefone. Realmente eu não acreditei que alguém se desse ao trabalho de ir me procurar , quanto mais me convidarem para entrar numa banda.

Como eu já era um 'Clash freak' (fanático pelo The Clash) antes mesmo de ir pra Londres, a segunda coisa que eu fiz, foi comprar um song book do Clash pra tocar as musicas em casa. Dois dias depois eu estava detonando a guitarra na sala da minha casa, quando tocou a campainha. Eu achei que era algum vizinho reclamando. Quando eu abri a porta, tinha dois punks que me perguntaram se eu era o cara que tinha deixado um cartão na loja de instrumentos. Os dois punks eram o Steve Burgess, baixista e líder do Cock Sparrer, e o outro era o Spider Bruce, batera do Sparrer. Eles já estavam há um tempão do lado de fora me ouvindo tocar as músicas do Clash (eles tinham acabado de lançar o single "England Belongs To Me", produzido pelo Cock Sparrer junto com o Joe Strummer do Clash). Eles entraram e me perguntaram se eu queria gravar um disco na semana que vem. Obviamente, minha resposta foi um 'whaaaat ???'. Eu achei que eles estavam tirando uma da minha cara. Eles disseram - nós somos do Cock Sparrer e vamos gravar um disco na próxima semana e precisamos de uma guitarra base e você parece ser o cara certo. Eu nunca tinha ouvido falar do Cock Sparrer, mas para não parecer alienado, disse que já tinha ouvido alguma coisa a respeito da banda. Mentira! Nunca tinha ouvido esse nome. Eles me disseram que se eu quisesse gravar com eles, eu tinha que decidir naquela hora mesmo, porque eles já tinham reservado um estúdio no dia seguinte pra ensaiar o disco. E eu teria que ir na gravadora assinar um contrato. Naquela hora eu deixei definitivamente minha promissora carreira de piloto de corridas para me tornar um punk rocker. No dia seguinte, eles foram me buscar em casa e me levaram pro estúdio para ensaiar. Aí eu conheci o Colin McFaull (vocal) e o Mickey Beaufoy (guitarra). Como eu não conhecia nenhuma musica do Sparrer, nós tocamos o repertório inteiro do Clash. Eles ficaram o tempo todo dizendo que eu tocava igual ao Joe Strummer. Isso fez um bem enorme pro meu ego, afinal, eu estava sendo comparado a Deus!!!
Depois eles me deram uma fita demo do Shock Troops (primeiro disco deles) e disseram para eu tirar as músicas pro ensaio do dia seguinte. Tinha umas dez músicas naquela fita e eu só tinha algumas horas para aprender todas pra tocar no próximo ensaio. Mas não desapontei os caras. No dia seguinte, já sabia tocar praticamente todas. Era tudo tão parecido com o Clash que eu me sentia como se soubesse tocar aquelas músicas há um tempão. Eu adorei aquilo. A coisa que eu mais gostava no mundo era o Clash e agora eu estava entrando na 'filial' deles. Depois de uma semana de ensaio fomos gravar o disco no Old Church Studio que pertencia ao Brian Ferry do Roxy Music.  

O melhor de tudo é que o estúdio ficava tão perto da minha casa, que eu ia pra lá andando. Gravamos o disco em duas semanas. Todas as guitarras bases e backing vocal no disco sou eu quem fez. Só não participei do último dia de mixagem porque eu ainda tinha que fazer uma corrida em Brands Hatch. Essa foi a última vez que eu entrei num carro de corrida. Logo que terminou a mixagem, o Mickey teve que se mudar pra Birmingham e saiu do grupo. Além disso, a RCA, que bancou o disco, se recusava totalmente a lançar o disco com a capa que o Steve queria. (uma foto (real) de uma briga entre gangs de skinheads e as letras das músicas impressas na contra capa). Depois de muito atraso, o disco saiu pelo selo Razor, da Carrere Records.

Portal: Antes do Cock Sparrer vc fazia algum trabalho musical com outra banda em Londres ou estava morando lá por outros motivos?

Chris: Antes de ir pra Londres, eu já tinha tocado com algumas bandas em São Paulo. Eu cantava numa banda chamada Fickle Pickle com o bluesman André Christovam, Paulo Zinner e Nelson Brito do Golpe de Estado. Em Londres, foi só com o Cock Sparrer.

Portal: E como era a cena punk inglesa naquela época que vc tocava com o Cock Sparrer? Havia muita briga e confusão nos shows, principalmente envolvendo punks e skins?

Chris: No final de 82, começo de 83, a cena era aquela da segunda geração do punk britânico. A geração Discharge, Exploited, GBH, UK Subs, Peter and the Test Tube Babies (a melhor banda do pedaço na época). Tinha muita briga nos shows, especialmente em Londres. Mas, a maioria das vezes era entre skinheads. Sempre tinha mais skins do que punks.


Portal: O Cock Sparrer era uma banda política? Qual era a ligação da banda com os skinheads? A banda tinha alguma postura definida dentro do movimento chamado "oi" ou o lance era somente música e diversão?

Chris: Obviamente a maioria das letras são de direita. Mas NÃO são fascistas ou nazistas. É aquela história de protestar contra o governo, dizer o quanto a classe operária está fodida, enquanto os ricos estão financiando guerras e vivendo em mansões. Mas ninguém da banda se importava em votar nas eleições. Eu sempre discutia com eles por causa disso. Eu dizia que se eu pudesse votar, eu votaria na Margaret Thatcher e no Partido Conservador. Eles diziam que eu tava doido e que eu era o único fascista da banda. Nós não tínhamos nenhuma ligação direta com nenhum partido ou grupo de skinheads. Pra dizer a verdade, todos os skinheads que eu conheci sempre foram extremamente legais comigo. Tinha alguns que iam em todos os shows. Verdadeiros fãs. Eles saíam de Londres e viajavam até Manchester ou Liverpool, ou Glasgow. Eles iam pra qualquer lugar. Passavam horas num trem só pra ver o Cock Sparrer tocar. Tinha também o pessoal do Last Resort que vivia atrás da gente . O único envolvimento direto com o "oi" foi quando saímos na coletânea "The Son Of Oi", compilada pelo Gerry Bushell, com a musica 'Chip On My Shoulder'. Mas o lance da banda era mesmo "just for fun".
 

Portal: Vc chegou a compor alguma música para o Cock Sparer? Quem compunha a maioria das músicas da banda e quem era o líder?

Chris: Eu compus um monte de coisas com o Steve, mas nunca chegamos a tocar essas coisas com o Cock Sparrer. Eu e o Steve fizemos um grupo paralelo chamado Hell Patrol. Gravamos até uma demo que circulou razoavelmente bem no underground de Londres, em 1986. Mas o Cock Sparrer sempre foi a banda do Steve. Ele que era o líder, que compunha, que produzia, etc. Qualquer um dos outros, quando terminava sua parte numa gravação, virava para ele e perguntava 'is it all right ?'

Portal: Qual foi o show mais estranho ou bizarro que vc já tocou com o Cock Sparrer, em termos de lugar, evento, outras bandas que tocaram juntas, ou algum fato que marcou vc no show?

Chris: O mais bizarro acho que foi no Fulham Greyhound, em Londres. Na semana anterior, o Colin tinha dado uma entrevista para um repórter do jornal Melody Maker dizendo que nós não éramos nazistas e nem tínhamos nada a ver com o National Front, nem com o British Movement. Alguns skinheads mais radicais não gostaram muito da declaração do Colin e literalmente destruíram o Fulham Greyhound. Nós já prevíamos que iria acontecer alguma coisa e fizemos uma barricada de madeira em volta do palco para manter os mais exaltados afastados. Não adiantou nada. Na segunda música, eles já tinham demolido a barricada e já estavam no palco gritando slogans nazistas em alemão. O Spider saiu de trás da bateria, pegou um microfone e começou a gritar perguntando por que é que eles estavam falando em alemão e fazendo a saudação nazista, se os alemães tinham bombardeado e quase destruído a Inglaterra toda e provavelmente matado pais e avós deles. Aquilo foi bizarro. Mais bizarro ainda foi que durante a confusão, alguns skins puseram fogo mas paredes da casa. Tivemos que ficar trancados no camarim por mais de duas horas, protegidos por skinheads leais ao Sparrer. Outro show que me marcou, foi o primeiro que eu fiz com o Sparrer. Foi também a primeira vez que eu subi num palco na Inglaterra. Foi a sensação mais incrível que eu senti. O show foi no 100 Club, na Oxford Street em Londres, no verão de 1983. Eu ficava tocando e lembrando que o Clash e o Sex Pistols tinham tocado ali mesmo várias vezes e eu tava pisando no mesmo palco que eles. Foi incrível!

Portal: Com quais bandas punks das lendárias vc teve a honra de tocar no mesmo dia com o Cock Sparrer?

Chris: Com o GBH em Birmingham, com o Peter and the Test Tube Babies em Brighton, com o Angelic Upstarts em Manchester, com o UK Subs, Action Pact, Adicts, Vice Squad em Londres e com o Chaotic Discord e o Disorder em outros lugares que eu realmente não me lembro onde foram. Acho que foi na Escócia, em Glasgow ou Aberdeen, sei lá. Eu sempre estava 'totally out of my mind' nos shows.

Portal: Sobre que assuntos falavam (no geral) as letras do Cock Sparrer e qual era afinal o barato dos caras da banda? Eram punks, skins ou apenas amigos curtindo?

Chris: No Shock Troops as letras são meio políticas, meio protesto. Tinha várias que eram sobre gangs de skinheads como Droogs Don't Run, Riot Squad, We're Coming Back, Watch Your Back e as mais antigas como Chip On My Shoulder, Running Riot e Argy Bargy (nos shows o Colin sempre anunciava essa música como Onion Bargie, que é um prato indiano). As "pseudo protesto" eram Where Are They Now, Working (eu sempre achei essa meio comunista), Take 'Em All e I've Got Your Number. Nos shows também fazíamos covers de "White Riot" do Clash e "We Love You" dos Rolling Stones. No segundo disco, Running Riot In '84, a maioria das musicas foram compostas por Shug O'Niel, que entrou no lugar do Mickey na guitarra solo, e algumas eram conmpostas pelo Steve. Esse disco foi gravado em Croydon, que fica cerca de uma hora de viagem de trem ao sul de Londres. Eu tinha que pegar esse maldito trem todo dia para ir pra Croydon. No meio das gravações, todo mundo brigou. Tivemos que adiar por um mês o resto das gravações e mixagem, até que todo mundo fez as pazes. A banda por pouco não acabou. As letras das músicas desse disco são muito mais 'pop' do que as do Shock Troops. A mulher do Shug era comunista e ficava sempre criticando a tendência de direita do Cock Sparrer. Ela chamava a banda de "Nazi Bastards". Isso refletiu nas músicas do Shug que eram a maioria. Ficou tudo bem, mas mesio "top of the pops". O solo de guitarra em The Sun Says sou eu que faço. Mas a minha letra favorita do Cock Sparrer era de uma música que o Steve tinha feito em 1978, chamada Platinum Blond, que era sobre uma prostituta de Poplar (zona leste de Londres) que ele conhecia.

Portal: Quais eram as principais influências do Cock Sparrer e suas particularmente? E o que vc está curtindo atualmente?

Chris: Do Cock Sparrer, é claro que era o Clash. Mas eles também gostavam do Sex Pistols, Buzzcocks, Damned, The Who, Alice Cooper, Slade e Rolling Stones. Eu comecei ouvindo Elvis desde pequeno. Minha mãe era presidente de um fã clube do Elvis quando eu nasci. Depois passei por Beatles, Stones, Bowie, Alice Cooper, T.Rex, até chegar no Clash. Hoje eu curto mais pop experimental noise, tipo Sonic Youth, My Bloody Valentine, Swerve Driver, Polvo, Ride, Pixies, Lush, Mercury Rev e também algumas bandas mais porrada tipo Ministry, Jesus Lizard, Marilyn Manson, Sound Garden, Nirvana, Come, Veruca Salt, Mudhoney, etc....

 

Portal: O Cock Sparrer original nunca pisou em palcos brasileiros. Como foi aquele lance dos shows que vc organizou aqui no Brasil no começo dos anos 90, usando o nome Cock Sparrer, com outros integrantes?

Chris: Isso foi meio que idéia do Kid Vinyl. Ele me convidou para tocar no programa dele na TV Cultura. Eu tinha acabado de chegar de Londres e o Valcir da Woodstock Discos tinha lançado a edição brasileira do Live And Loud, disco ao vivo do Cock Sparrer. Aí o Kid me ligou e disse pra eu ir fazer o lançamento do disco no programa dele. Só que, para promover um disco do Cock Sparrer, eu tinha que ser Cock Sparrer. Por isso eu adotei o nome. Eu liguei pro Steve e perguntei se não tinha problema me apresentar no Brasil como Cock Sparrer. Ele disse "why not?". Afinal, eu era um Sparrer Trooper. Poderia representar o Cock Sparrer sem nenhum problema. Por isso fiz alguns shows usando o nome. Depois mudei o nome da banda para Sabotage.

Portal: Pq vc saiu do Cock Sparrer e quais outras bandas vc já tocou ou toca atualmente? Fale sobre elas.

Chris: No começo de 1988, eu já tinha gravado três discos com o Cock Sparrer, uma demo com o Steve (Hell Patrol) e feito uma infinidade de shows na Grã Bretanha. Achei que se voltasse pro Brasil com toda essa bagagem iria descolar um contrato melhor aqui. E se não fosse pelo Collor, eu teria descolado mesmo. Estava tudo certo pra assinar com a Eldorado, quando o motherfucker roubou a grana do país inteiro. Depois disso, fui vocal do Electric Funeral (Black Sabbath) do Vitão Bonesso e do Hélcio Aguirra (Golpe de Estado) e em 1992 eu, junto com o Deca (guitarra, ex Trama), Tigueis (baixo, ex Chave Do Sol) e o Pastor (bateria, ex todo mundo) formamos o Pitbulls On Crack. O Pitbulls foi o grupo em que eu pude usar tudo o que eu tinha aprendido com o Cock Sparrer. Tudo que eu aprendi sobre como tocar guitarra, cantar, gravar, compor, produzir, fazer um show com o Sparrer, eu apliquei no Pitbulls. É o mais próximo da Inglaterra que eu consegui levar o Brasil. Hoje eu tenho 370 músicas compostas e gravadas por mim, que são um cruzamento de Cock Sparrer com Nirvana, My Bloody Valentine e Sonic Youth. Em 1993, o Pitbulls participou da coletânea da 89FM, A Vez Do Brazil. Em 1996, lançamos o primeiro CD Lift Off. O Pitbulls participou de inúmeros programas de TV, rádio e importantes eventos entre 1992 e 2001. Desde dezembro do ano passado estou participando de um projeto teatral que vai mostrar a tortura na época da ditadura no Brasil, intercalada com um show do Alice Cooper. É um projeto totalmente inédito e muito doido. Vai ter até a explosão do Puma no Rio Centro (que aconteceu realmente no show da anistia em 84 no Rio). Vai ter forca, guilhotina, um monte de efeitos especiais, tudo igual ao show do Alice Cooper. Vão participar vários atores de teatro, a banda Generation Landslide e eu vou fazer o papel do próprio Alice Cooper. Vai ser a minha estréia no teatro.

Portal: Alguma outra informação ou fato que vc ache legal contar?

Chris: Apesar de ter tocado pra uma galera radical de direita na Inglaterra, quero deixar claro que eu não simpatizo com nenhuma forma de violência que obrigue as pessoas a aceitarem idéias morais, políticas, sociais e religiosas, como fazem certos partidos e grupos terroristas como o National Front, British Movement, IRA, Ku Klux Klan, Taliban, Hamaz, Comando Vermelho, PCC, DENARC, etc.. Eu não apóio nenhuma forma de preconceito. Sou absolutamente contra a ignorância de não se aceitar as pessoas como elas são. Não apóio nenhum partido político e aconselho a todos a anularem seus votos na próxima eleição.

Portal: Gostaria de mandar uma mensagem para a galera que se liga no Portal do Rock e que gostaria de obter mais informações sobre vc e sua banda atual? Vc gostaria de deixar seu e-mail de contato?

Chris: Valeu galera do Portal. Espero que eu tenha ajudado a esclarecer mais sobre essa grande banda precursora do "street punk", o lendário Cock Sparrer. Se alguém quiser falar mais comigo, enviem um e-mail para:

chrisskepis@portaldorock.com.br

Keep on rockin', motherfuckers e anulem seus votos.
See ya! Chris Skepis


Marcio Faveri - da redação

VISITE O SITE OFICIAL DO COCK SPARRER