Entrevista - CJ Ramone
26/09/2001 - São Paulo -SP

O Portal do Rock acompanhou a rápida passagem de CJ Ramone pelo Brasil, ele que dispensa comentários, pois foi o baixista dos Ramones por 8 anos, tocando ao lado de Joey, Johnny e Marky Ramone em todos os últimos shows da carreira da lendária banda americana.

CJ esteve no Brasil para divulgar sua nova banda, The Bad Chopper, que ainda não tem CD gravado, mas está com um compact (vinil) lançado pelo selo americano Acme, com duas músicas, e em breve deve estar lançando seu primeiro CD.

Portal: Como é para você estar tocando com uma lenda do rock chamada Ramones, por vários anos, curtindo o status de uma das melhores bandas punks de todos os tempos e de repente, este sonho se acaba e você tem que começar tudo de novo?
CJ: Tocar com os Ramones, claro, foi fantástico, a maior experiência de toda a minha vida. Se eu tivesse que escolher qualquer banda para tocar para sempre, esta banda seria os Ramones. Eles significaram muito para mim. Mas eu nunca pensei que tudo aquilo duraria para sempre e eu levava as coisas sempre pensando que aquele sonho poderia acabar qualquer dia. Por isso não foi e não está sendo difícil para mim. Nos momentos que passei com eles eu tentei curtir ao máximo cada minuto e dava o melhor de mim para que eles curtissem também. Cada dia era uma festa diferente. Portanto, para mim, começar tudo de novo, não é grande coisa. Eu ganhei a chance de tocar com os Ramones como se fosse um passe de mágicas e sempre vivia esperando que aquela mágica acabasse. Portanto, tocar para 50 mil pessoas, como já toquei com eles e tocar para uma dúzia de pessoas, para mim dá no mesmo. Não posso reclamar, pois tive muita sorte! Outra coisa, eu não quero ser famoso e nunca quis, só quero fazer meu som e curtir com meus amigos. Eu imaginava que com a minha última banda, Los Gusanos, eu poderia tocar mais e encerrar minha carreira musical tocando com eles. Mas nós tivemos problemas e não rolou. Problemas com gostos musicais diferentes, cada um querendo tocar um estilo diferente. Depois meu segundo filho nasceu e eu queria levar minha família comigo nas turnês e os caras ficavam putos, dizendo que era para eu escolher entre a banda e minha família. Então não deu certo mesmo.

  Portal: Além da evidente influência dos Ramones, quais outras bandas influenciam o som do Bad Chopper?
 
 
 

CJ: Se levarmos em consideração a música que está por aí nos últimos anos, tenho que dizer que estou muito desapontado com o tipo de música que está sendo feita. Nada de bom está sendo gravado e nenhuma banda original está sendo lançada. No meu caso, eu curto muito bandas como Zeke, Speedealer, Fu Manchu, Queens of The Stone Age. Mas como a escassez de novas bandas é grande, eu tenho sempre que estar ouvindo bandas das antigas como Stooges e Iggy Pop, Motorhead, The Clash, Sex Pistols, The Damned, The Vibrators e outras bandas clássicas do punk rock. Mas quando eu começo a compor músicas e quando eu comecei a compor as músicas para o Bad Chopper, eu me ligo mais num lance tipo som de garagem dos anos 70, como se fosse Iggy Pop & The Stooges, com um pouco mais de peso, saca? Uma mistura de Iggy Pop & The Stooges e Zeke, com uma pitada de Ramones, claro. Eu realmente prefiro o tipo de som que estamos fazendo agora ao som que eu fazia nos Los Gusanos. Os Gusanos tinham uma pegada de som de Seattle, meio grunge. Já o Bad Chopper é rock puro, rock raiz.

Portal: Porque o nome Bad Chopper?
CJ: A banda se chamava Warm Jets inicialmente. Mas algumas semanas antes de sairmos em turnê, ficamos sabendo que havia uma outra banda com este nome registrado e tivemos que mudar de nome. Chegou um advogado da Island Records e nos informou que a banda Warm Jets já existia e era do catálogo deles. Então começamos a pensar em novos nomes, pensamos, pensamos e nada vinha às nossas mentes. Sabe, eu sou motoqueiro, tenho uma Harley-Davidson que eu mesmo personalizei, usando uma talhadeira (chopper) para fazer o design da moto de acordo com o meu gosto. E eu sempre comentava com meus amigos que aquela talhadeira era uma merda, muito ruim mesmo (bad chopper). Daí o nome Bad Chopper nasceu, foi assim!

Portal: Você acha que é mais fácil montar uma nova banda sendo um ex-Ramone ou é ainda mais difícil, pois você tem que provar o tempo todo que pode ser tão bom quanto era nos Ramones?
CJ: Eu acho que é mais difícil, pois as pessoas esperam mais de você. As pessoas têm que entender que Dee Dee, Tommy e Joey Ramone, quando esses caras compuseram as primeiras músicas, lá no passado, eles eram um em um milhão. Eu nunca tive pretensão nenhuma de ser tão bom compositor como eles foram. As músicas que componho são músicas que sou capaz de compor. Não estou tentando compor músicas estilo Ramones, não estou tentando fazer nada, apenas estou tentando fazer o que sei, que é compor músicas. Sei que muita gente irá sempre me comparar aos Ramones, mas isso é muita injustiça comigo. Eu não consigo ser como Joey Ramone. Estes caras foram únicos. Saca esse lance da Coca Cola? Pois é, só existe uma Coca Cola! Eles inventaram um estilo de música. Claro que sou influenciado por eles, mas não acho que seja legal me chamar de cópia dos Ramones. Ás vezes eu penso que seria melhor que todos esquecessem que um dia eu toquei nos Ramones. Talvez a pressão fosse menor na minha cabeça. Foram realizados vários tributos e vários shows em homenagem a Joey Ramone. Eu não participei de nenhum até agora, pois achei que o lugar ideal para este tributo a Joey seria o Brasil. Por isso, nestes shows que farei por aqui, tocaremos umas seis músicas dos Ramones no set list, como uma espécie de meu tributo especial ao meu amigo e irmão Joey. Acho que isso é o mínimo que posso fazer por ele, que tenho certeza estará feliz, onde quer que esteja. Por isso, aos fãs que forem aos nossos shows, estes serão shows especiais. Serão as últimas vezes em toda a minha vida que cantarei músicas dos Ramones ao vivo. Nunca mais voltarei a tocá-las depois do Brasil. Isso é uma promessa!

Portal: Esta nova banda é um projeto temporário ou definitivo?
CJ: A única coisa que eu sei é que vamos gravar um CD quando voltarmos aos EUA. Além disso, eu não posso prever o que vai acontecer. Eu realmente gostaria que este projeto durasse muito e que eu pudesse encerrar minha carreira musical com esta banda, pois eu acredito muito no som que estamos fazendo, mas não dá para falar pelos demais da banda. Eu gosto muito dos caras. Outra coisa, eu não acredito que nenhuma outra banda que está por aí consiga chegar aos pés dos Ramones ou fazer metade do que eles fizeram. Portanto, porque não tentar fazer algo pelo menos à altura dos reis Ramones. Acho que eu tenho todo direito, não?

Portal: Quais as lembranças você tem do Brasil? Boas ou más?
CJ: Nunca tive nenhuma má experiência no Brasil. Sempre que estive por aqui, curti muito e fui muito bem recebido. Na primeira vez que toquei por aqui, conheci os caras do Ratos de Porão e fiquei amigo do Gordo. Na segunda vez que estive no Brasil com os Ramones, conheci os caras dos Raimundos e até toquei com eles em um show da banda em algum lugar de S. Paulo (foi no finado Aeroanta em Pinheiros). Sempre tive ótimos momentos aqui. Todos me tratam muito bem, como agora mesmo, estou aqui com vocês, conversando, conhecendo gente nova. Adoro o Brasil!
 
 
 
 
 
Paulo Vinicius e Rodrigo Duarte do
Portal do Rock com CJ Ramone

Portal: Você acha que existe uma chance dos Ramones voltarem, mesmo sem Joey nos vocais?
CJ: Nenhuma chance! Uma vez que Joey se foi, ele levou com ele a lenda Ramones. Quem cantaria? Eu? Dee Dee? Nenhum de nós faria isso. Não os Ramones. Qualquer outra banda pode ser, mas os Ramones não é qualquer banda e sem Joey nos vocais, não existe porque continuar os Ramones. Ele era e sempre será a alma da banda! A única chance de uma possível volta dos três Ramones que sobraram ao palco novamente, seria algum show especial, por uma causa nobre, onde talvez tivéssemos como vocalista convidado o Joe Strummer (ex-The Clash) ou Lemmy (Motorhead). Mas seriam somente alguns shows e só. Mas nada com interesse comercial. Ninguém da banda mancharia a reputação de Joey. O Ramones sempre foi uma banda diferente. Algumas bandas vivem dizendo que vão parar e depois de alguns anos elas voltam e enchem o bolso de grana. O Ramones anunciou que estava parando e parou definitivamente. Não haveria de ser agora, sem Joey, que o Ramones iria ressuscitar!

Portal:
Alguma mensagem especial para os fãs brasileiros?
CJ: Prometo que eles não ficarão decepcionados com minha nova banda, que está com um som bem original e bem básico. Vamos lançar nosso CD em breve, que estará disponível no Brasil também e ano que vem voltaremos para uma turnê maior e mais barulhenta. Isto é só o começo!

CJ ainda comentou que perdeu muitos amigos no atentado terrorista ocorrido em Nova York, inclusive vários bombeiros que morreram no World Trade Center eram amigos de infância do cantor. Ele disse que mesmo com todo este pânico que tomou conta do povo americano, ele não teve receio em entrar num avião e vira para o Brasil fazer estes shows. Pelo contrário, segundo ele, agora é a hora mais segura para se viajar de avião a partir os aeroportos americanos. "A segurança está super reforçada", acrescentou. Será???

Marcio Faveri - da redação

Fotos & Arte - Paulo Vinicius