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Entrevista
Exclusiva - Fernando Deluqui
15/10/2001 - No Mata Café - São Paulo -SP
O
Portal do Rock teve a satisfação de encontrar com Fernando Deluqui,
eterno ex-guitarrista do RPM, banda de rock nacional que abalou
a década de 80. Fernando foi também guitarrista dos Engenheiros
do Hawaii e agora está novamente se dedicando a sua carreira solo,
compondo novas músicas, com novos músicos, tocando em vários lugares
e com a cabeça bem aberta a vários estilos e vertentes da música,
mas sempre com os pés bem centrados no bom e velho rock and roll.
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Sua
nova banda, apelidada de Delux Trio, é formada por Deluqui
nos vocais e guitarra, Edu Diniz na bateria e Izy no baixo
e backing vocais.
O repertório é calcado no primeiro disco solo de Deluqui,
lançado no ano passado, acrescido de algumas inéditas, como
"Vaca", que devem estar no próximo CD, além de clássicos do
rock nacional rearranjados pelo trio.
Nesse processo espontâneo, o Delux Trio garimpou e incorporou,
com seus arranjos, músicas de bandas e artistas consagrados
como RPM, Ira, Legião Urbana, Gang 90, Lulu Santos, Rita Lee
e Raul Seixas. |
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A
maioria do repertório remete aos anos 80, por ser a geração a qual
pertence Deluqui. Isso não impede que a banda mostre oldies como
"Your Song", de Elton "John e Johnny B. Goode", de Chuck Berry,
ou mais atuais, como versões para músicas de O Rappa e até Charlie
Brown Jr.
O que rolou neste bate papo com Fernando, vocês conferem agora.
Portal: Qual a proposta musical de sua nova banda?
Fernando: Colocar coisas que eu quero falar. De uns dez,
quinze anos para cá eu tenho sentido vontade de expressar minhas
idéias. Quando eu estava tocando guitarra com o Engenheiros, eu
já estava ficando louco com aquilo. Eu acho legal o trabalho do
Humberto, eu acho que ele é um dos grandes compositores do Brasil,
mas o meu trabalho estava ficando sem salário e eu estava querendo
falar e não tinha como. Só como guitarrista não tem jeito, a idéia
é fazer uma coisa mais própria, né. Com bastante pesquisa,
com mistura de rítmos brasileiros, com punk rock, com essa
coisa mais Nirvana, samba reggae, que é uma coisa que eu acho legal
e que surgiu no começo dos anos 90. Foi uma coisa nova que aconteceu
e, sei lá porque, eu gostei. Na música, às vezes, a gente não tem
como explicar porque gosta das coisas. Eu resolvi incorporar no
trabalho e está aí. O primeiro disco foi praticamente feito sozinho
num estúdio, agora eu estou num trio, com o Izy no contra-baixo
e vocais, com Edu Diniz na bateria. A gente tem feito uma média
razoável de shows e o som pesou um pouco, ficou uma coisa mais voltada
para o rock, mas é muito interessante porque a gente também trabalha
com seqüenciadores, então, têm coisas muito diferentes rolando com
o pesado. É muito legal! |
Portal:
Quais as principais influências para o som da banda hoje?
E o que você está ouvindo ultimamente em termos de rock?
Fernando: Acho que a primeira pergunta ajudou a responder
isso, porque a gente está trabalhando com uma fusão de rítmos
brasileiros e também está fazendo um trabalho de rock'n'roll
pesado. Hoje, praticamente eu não ouço nada, eu tenho ouvido
o som do Cold Play, que é um pop rock inglês, eu comprei o
disco. Praticamente, eu não tenho comprado discos porque tenho
trabalhado demais em minha carreira, entendeu. Eu passo o
dia inteiro no escritório falando ao telefone. Eu também curti
o último lançamento do Echo & The Bunnymen, tem a música nova
que está tocando, que é muito legal. |
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Eu
tenho ouvido Neil Young, tenho ouvido a "Kiss FM", Rick Wakemann,
coisas do fundo do baú, que eu não ouvia há quinze anos,
que fez parte de minha formação. Eu tive uma formação muito grande
de rock progressivo, de Genesis, de Yes e muita coisa, depois
foi misturando, entrou o punk rock, a new wave e isso tudo faz
parte de um caldeirão. A parte dos guitarristas tem umas influências,
tem alguma coisa de New Order. Aquele guitarrista do New Order
é do caralho e o do Joy Division também era.
Portal: Alguma banda brasileira de rock atual você pode
dizer que esteja fazendo algo que chame sua atenção?
Fernando: O CPM 22, que é uma banda que ainda está no começo
e parece que tem um potencial muito grande. Eu me identifico com
o trabalho deles por ser um trabalho melódico, um trabalho que
você ouve uma vez e já gruda na cabeça, tem muita energia e os
caras são gente fina, eu conheci os caras numa loja de música
e eles são muito legais.
Portal: O que você acha que falta hoje ao rock nacional?
Fernando: Rock nacional? Qualidade. Tem muita banda da
nova geração, mas em comparação com as bandas dos anos 80, tinha
muito mais bandas melhores. Tem muita banda hoje que eu acho que
não tem uma formação legal, tem muito plágio. Tem banda que plagia
o Legião Urbana que você não acredita, até Charlie Brown. É difícil
você encontrar, hoje, ao menos uma banda legal. Você encontra
um Charlie Brown, um Raimundos, nos anos 80 tinha 8 bandas fudidas.
Eu acho que falta qualidade, não sei o que aconteceu, cara.
Portal:
E o RPM? Não existe a chance de um revival ou o Paulo Ricardo
está mesmo em outra praia?
Fernando: A praia onde ele (Paulo Ricardo) está é onde
ele vai ficar. Se de repente eu voltar a tocar com ele, a gente
vai fazer a praia que sempre fez, que era o RPM, que era uma fusão
de quatro estilos, onde ele vai poder botar o papo romântico dele
junto com a formação mais rock que a gente sempre deu. Tem chance
(de voltar), tudo é possível, a gente tem conversado bastante,
seria legal para mim, até porque faz mais de 15 anos que eu não
toco com o Luiz Squiavon, então seria legal pra caralho.
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Portal:
Este é um projeto solo seu como "Fernando Deluqui" ou trata-se
de uma banda mesmo?
Fernando: Tudo é em cima de meu trabalho, quem dá a
opinião final sou eu. A gente tem trabalhado bastante em termos
de banda também. A gente tem desenvolvido arranjos juntos,
esse primeiro disco, praticamente eu passei para eles porque
eu estava trabalhando em estúdio, mas agora estamos improvisando
nas músicas novas que gravamos, "Vaca", "Bordel" e "O que
interessa", que fizemos juntos, os três dando sugestão. |
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Portal:
Você encontra mais dificuldades ou facilidades de expor seu novo
trabalho na cena musical e para as gravadoras, sendo um ex-RPM?
Fernando: Olha, eu acho que eu encontro mais dificuldade.
Por exemplo, lancei o disco, aí o cara da Folha foi fazer a crítica,
ao invés do cara falar de meu disco, ele fica falando do RPM. O
RPM acabou há 15 anos e o cara fica falando que o RPM fazia
pop sem-vergonha, quer dizer, é complicado isso aí. Como foi uma
banda que começou e acabou muito rápido, tem muita gente que não
gosta, os caras acham que eu sou culpado de alguma coisa, acha que
a gente põe muito lobismo no negócio, talvez a gente tenha colocado
mesmo, enfim, é um negócio que já acabou há 15 anos. Mas
também, isso não é muito problema, eu acho que é mais uma
encanação de algumas pessoas do que de todo mundo. Pelo contrário,
hoje em dia há uma procura pelo trabalho que a gente fez há 15 anos
muito maior do que há cinco anos por exemplo. O que chega de e-mail
em casa pedindo a volta do RPM é um absurdo!
Portal: E o trabalho com o Engenheiros do Hawaii? Porque
não rolou?
Fernando: Porque eu queria já estar fazendo o meu trabalho.
Foi uma oportunidade muito legal que foi me dada pelo Humberto e
pelo Carlos, pelo menos a gente conseguiu fazer um disco muito legal.
Claro que eu gostaria de ter ficado mais, poderia ter trabalhado
em vários discos e ficar tocando com eles. Porém, eu estava fazendo
RPM, fiquei com o Paulo por quase 10 anos, fiquei mais dois com
o Humberto e eu precisava fazer a minha carreira. Então, eu tive
que largar o Engenheiros, porque não dava para fazer Engenheiros
e a minha carreira solo. O Engenheiros tem uma carreira super promissora,
estão aí até hoje. O disco que eu fiz com eles deu super certo,
mas infelizmente é assim que acontece, nem tudo são flores. Eu tive
que fazer um show no Olympia lotado no sábado e na outra semana,
na quinta-feira, eu estava na Vila Madalena, tocando num boteco
sujo para seis "neguinho" e um monte de traficante. Fazer o que?
Foi o jeito de recomeçar.
Portal: No Engenheiros você chegou a compor alguma coisa,
ou é só uma cara lá que manda?
Fernando: Que tem um cara que manda tem, mas a gente compôs
"Algo Por Você", que é uma das minhas músicas gravadas mais legais,
inclusive os fãs dos Engenheiros falam que foi um trabalho legal,
um trabalho importante dos Engenheiros.
Portal: Alguma mensagem para os fãs?
Fernando: Hoje até que está calminho esse negócio de falar
do RPM. Tem dia que é foda. Eu fui fazer um chat e metade era fã
do RPM e metade do Engenheiros, enquanto eu estava respondendo as
perguntas, os caras começaram a brigar entre eles. Os caras do Engenheiros
falavam, "O RPM morreu e os Engenheiros continuaram a fazer shows".
"O RPM tem que viver do passado". Eu que fui um cara que participou
tanto de uma coisa quanto de outra, o que eu tenho a dizer é que
tudo é música e o que importa é a gente fazer uma boa música, encontrar
parcerias legais e tentar mudar o que está aí, porque o que está
aí é muito ruim e está cada vez pior. Por incrível que pareça, cada
vez mais violento, mais pobre, mais inconsciente, mais mentes vazias,
a gente fica sujeito à onda das bundas daquelas vagabundas, a tal
da bunda music. Aliás, a gente está lançando uma música que se chama
"Vaca", que é em homenagem a essas personagens efêmeras da MPB,
essas grandes personagens, essas mascaradas, siliconadas, então,
eu fiz a música "Vaca" em homenagem a elas. Elas podem até ser gostosas,
mas se você quiser bater uma punheta, você vai ao banheiro, compra
uma revista de sacanagem, vai ver um filme de sacanagem, não venha
falar que isso é música. Música é música, pornografia é pornografia.
Eu tenho uma filha de 12 anos, você vai ver televisão de domingo
e só tem vagabunda, eu tenho vergonha, eu não deixo e não assisto.
Então, eu fiz uma música muito bem humorada, muito irreverente sobre
essas personagens e ele vai estar disponível no site Submarino (www.submarino.com.br)
para download. Vão estar esta, "Bordel", que é a história de duas
prostitutas, que eu encontrei e não sabia que elas eram prostitutas
( fiquei sabendo no meio do caminho), foi uma coisa muito engraçada.
E o que interessa é a trilogia, são as primeiras três músicas que
a gente gravou com o trio, que também estarão disponíveis no site
Submarino.
O meu site é www.fernandodeluqui.com.br,
o meu e-mail é deluqui@fernandodeluqui.com.br,
entrem em contato. Muito obrigado pela oportunidade, Portal do Rock
na cabeça, obrigado!!!
Marcio Faveri - da redação
Arte
- Rodrigo Duarte
Arte e Fortos - Paulo Vinicius |
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