Mais
uma vez provando que em matéria de rock é o mais completo, o Portal
do Rock entrevistou a polêmica banda americana Dead Kennedys, que
esteve fazendo shows pelo Brasil, marcando a primeira turnê sul-americana
na carreira dessa banda, que já tem mais de 23 anos de estrada.
Nunca é demais lembrar que o DK fez seu primeiro show em julho de
1978, para uma platéia americana que já estava alucinada pelo som
de bandas punks britânicas como Sex Pistols, The Clash e The Damned.
Existia também naquela época uma forte presença dos Ramones (banda
punk rock americana que mais se destacava) e toda a novidade de
um "movimento" cultural e musical chamado punk, que se estabelecia
nos Estados Unidos.
O
DK cresceu e fez seu nome em meio a toda essa turbulência,
fazendo mais do que ser apenas outra banda punk. O DK firmou-se
como a mais importante e influente banda punk dos EUA, inclusive
propiciando o nascimento do estilo rápido de tocar punk rock,
que mais tarde viria a ser chamado de hardcore.
Mas, o resto da história quem conta são eles próprios, DH
Peligro (baterista), East Bay Ray (guitarrista), Klaus Floride
baixista) e Brandon Cruz (vocalista).
Portal:
O que realmente significa o nome Dead Kennedys e quem escolheu
este nome para a banda? DH Peligro: Bom, eu não tocava com a banda logo no início,
pois entrei no DK em 1981, mas pelo que sei os caras estavam
num bar um dia destes à noite, em meados de 1978, e Jello Biafra
(o vocalista original), com um amigo chamado John Greenway,
chegou com este nome como sugestão e o nome foi logo aceito
por todos. Dead Kennedys significa literalmente o que diz o
nome, ou seja, os "Kennedys Mortos". Significa que conforme
a família Kennedy perdia membros importantes, como o próprio
presidente dos EUA, John Kennedy, que foi assassinado, e quando
também Martin Luther King, líder e defensor dos direitos dos
negros, foi assassinado, muitos sonhos de liberdade e justiça
começavam a ser destruídos. Pois John Kennedy foi um avanço
para os EUA e foi brutalmente assassinado dentro de seu próprio
país. As pessoas tinham fé e acreditavam em John Kennedy e Martin
Luther King e achavam que eles poderiam tornar a América uma
nação mais justa. Quando eles morreram todos tomaram um grande
baque. Então todo mundo só falava nas ruas: "Kennedy's dead,
Kennedy's dead, Kennedy's dead...." (Kennedy está morto). Então
a banda teve a idéia do nome, que marca o fim de uma era e o
começo de um novo tempo nos EUA e no mundo.
Portal:
O que fez com que vocês resolvessem formar uma banda? E que tipo
de influências vocês tinham naquele tempo? Alguma banda inglesa
por exemplo? DH Peligro: Para mim foi mais um lance de querer fazer
algo no ramo artístico do que entrar no chamado movimento punk
e tal. A gente na verdade nem tinha muita noção dessa coisa toda
de punk e ideologias. O Biafra sim era mais ligado nisso, pois
tinha passado um tempo na Inglaterra. Não posso dizer que um dia
a gente parou e disse: "Queremos ter uma banda como essa, ou aquela".
Por isso não temos nenhuma influência de banda alguma, muito menos
inglesa. Era um lance de ter a mente aberta e pronta para novas
tendências e estilos musicais. Mas claro que algumas bandas faziam
nossa cabeça naquela época como Devo, Ramones, Blondie, Television
e aquela merda toda de Nova York.
Portal:
Vocês são considerados pioneiros do hardcore no mundo. Vocês
acreditam que música rápida pode alcançar o alvo mais facilmente? DK: (risos!!!) Brandon Cruz: Boa pergunta! Mas
música rápida nem sempre é sinônimo de boa música, você me
entende? Às vezes você toca tão rápido que ninguém consegue
entender o que você está tocando.
East
Bay Ray: Eu discordo completamente com este pensamento da
pergunta. Eu acredito que existe música rápida que é boa e música
rápida que é ruim, como também existem música que não é rápida
e é boa e que às vezes é ruim. O hardcore não tem nada a ver
com música propriamente dita, mas dependendo da música, do sentido
e do que ela passa, pode ser uma ótima música. Tanto a música
como a letra podem conter diferentes formas de comunicação e
de transmissão de mensagens. Às vezes a forma como você toca
sua música, pode passar muito mais mensagens para as pessoas
que ouve do que suas próprias letras. Isso é o que faz o hardcore,
que passa uma atitude mais rápida e agressiva, para chamar a
atenção para outras coisas mais importantes.
Portal:
Como é o processo de composição das músicas da banda? O que vem
primeiro, a música ou a letra? Ray: Às vezes música, às vezes letra, depende da música.
Muitas vezes estamos ensaiando e vamos tocando qualquer coisa
e saem muitas música novas assim, depois encaixamos as letras.
Mas muitas vezes chegamos com uma letra na cabeça e criamos uma
música para ela.
Portal: Como foi com "Holliday in Cambodia" e "California
Übber Alles"? O que foi feito primeiro? Ray: Nessas fizemos primeiro as músicas.
Portal:
Vocês ainda têm os mesmos pensamentos sobre questões políticas
e sociais que tinham no começo da carreira ou agora isso não
interessa mais? Ray: Claro que interessa. Mas acho que agora estamos
mais realistas. Quando você é jovem tudo é oito ou oitenta.
Naqueles tempos a gente pensava que atirando palavras e muitas
vezes objetos contra as pessoas, poderíamos mudar o mundo.
Para conseguir alguma mudança política e social, é preciso
que você faça uma mudança dentro de você, pois só assim você
poderá ter um mundo diferente. Você tem que aprender a tratar
as pessoas que estão a sua volta de uma maneira legal. Se
você tratar bem e se preocupar com sua família, seus amigos,
seu próximo, etc., a revolução acontecerá. Se você ficar esperando
que a revolução aconteça como num passe de mágica, ela nunca
vai acontecer. A verdadeira revolução começa dentro da gente.
Portal:
Vocês pensam em um novo disco ou já compuseram novas músicas.
Como está isso? Ray: Muito cedo para falarmos nisso, só o futuro dirá.
Não queremos especular sobre isso e nem falar sobre isso.
Portal: Vocês poderiam falar das bandas que estão tocando
por aí hoje em dia? Vocês curtem algumas dessas bandas? Ray: Tem o Glamour Pussies, de São Francisco (EUA), que
é muito boa. Brandon: In Control, de Oxnard (EUA), que é muito boa mesmo,
também tem o Aggression. Essas são bandas que cresceram junto
comigo, são da minha cidade e posso falar bem delas. DH Peligro: Peligro é a melhor de todas! DK: (Muitos risos!!!)
Portal: Essa é para o Brandon. Ficamos sabendo que sua
banda, o Dr. Know, juntamente com outras bandas da Califórnia,
criaram um novo estilo chamado "Nardcore". O que o Nardcore na
verdade? Brandon: (risos!!!) Nardcore foi nossa resposta para o
hardcore. A minha banda e as outras bandas desse movimento são
de uma cidade pequena chamada Oxnard, que fica uns 100 km ao norte
de Los Angeles. Quando a gente toca em cidades grandes como Los
Angeles, as pessoas nos chamam de os "Nard". No começo de 80,
quando todo mundo só pensava em Hardcore, a gente pensou e decidiu:
não vivemos em Los Angeles então somos Nardcore. As primeiras
bandas deste movimento eram Dr. Know e Aggression. Depois dezenas
de bandas aderiram a este movimento. Hoje para mim a melhor dessas
bandas é a In Control. Eles são bons mesmo, vale a pena!
Portal:
Como vocês sentiram a morte de Joey Ramone? Ray: Fica até difícil de falar. É um assunto que até
hoje não gostamos de lembrar e pelo menos a mim, me deixa
sem palavras. (Ray ficou emocionado neste momento) Brandon: Foi uma tragédia. Foi o mesmo que os fãs dos
Beatles sentiram quando John Lennon morreu. Para o punk rock
Joey Ramone tinha o mesmo significado. Perdemos uma lenda,
que foi responsável pela origem de tudo isso que somos hoje
e tudo o que se houve hoje em termos de punk rock e outros
estilos de rock que surgiram depois. Eu conhecia Joey pessoalmente
e posso dizer que perdi um ente querido.
DH
Peligro: Por isso que acredito que sempre devemos fazer tudo
o que quisermos fazer, pois de repente podemos adoecer e morrer,
como aconteceu com Joey. Foi uma perda irreparável, mas que deixou
um rastro de genialidade para sempre.
Ray: A gente que toca em banda considera músicos de outras
bandas como parte da família, a família dos músicos. Veja agora
com a morte de George Harrison, mesmo que eu ou você não sejamos
fãs dos Beatles, temos que reconhecer a importância que eles tiveram
para a música mundial e a falta que eles fazem para que coisas
criativas e inovadoras possam nascer.
Portal: Todos sabemos que vocês e o Jello Biafa sempre
foram amigos desde o começo da banda. Se vocês tivessem que mandar
um recado para ele agora, qual seria? Ray: (muito pensativo e reticente) Quando amigos cometem
erros eles devem voltar atrás e se desculparem por seus erros.
Quando eles não fazem isso, é porque a amizade acabou.
Portal: Mas vocês acham que dinheiro é mais importante
que amizade? Ray: Fim da entrevista!
Neste momento Ray se levantou e se transformou em uma outra pessoa,
tratou-nos com certa frieza e disse que não deveríamos falar deste
assunto.
Logo no começo da entrevista, o manager da banda, um cara muito
indelicado e inexperiente, quis ver todas as nossas perguntas,
antes de começarmos a entrevista e ficou em pé ao nosso lado o
tempo todo só fiscalizando. Parece mesmo que estes integrantes
do Dead Kennedys morrem de medo de falar alguma coisa errada ou
quem sabe "falsa" sobre a história da banda e os motivos que ocasionaram
o rompimento com Jello Biafra.
Ainda acredito muito naquele velho ditado: "quem não deve não
teme!"