Entrevistas

Dead Kennedys
04/12/2001 - São Paulo -SP

Mais uma vez provando que em matéria de rock é o mais completo, o Portal do Rock entrevistou a polêmica banda americana Dead Kennedys, que esteve fazendo shows pelo Brasil, marcando a primeira turnê sul-americana na carreira dessa banda, que já tem mais de 23 anos de estrada.

Nunca é demais lembrar que o DK fez seu primeiro show em julho de 1978, para uma platéia americana que já estava alucinada pelo som de bandas punks britânicas como Sex Pistols, The Clash e The Damned. Existia também naquela época uma forte presença dos Ramones (banda punk rock americana que mais se destacava) e toda a novidade de um "movimento" cultural e musical chamado punk, que se estabelecia nos Estados Unidos.
  O DK cresceu e fez seu nome em meio a toda essa turbulência, fazendo mais do que ser apenas outra banda punk. O DK firmou-se como a mais importante e influente banda punk dos EUA, inclusive propiciando o nascimento do estilo rápido de tocar punk rock, que mais tarde viria a ser chamado de hardcore.

Mas, o resto da história quem conta são eles próprios, DH Peligro (baterista), East Bay Ray (guitarrista), Klaus Floride baixista) e Brandon Cruz (vocalista).
 
 
 
 

Portal: O que realmente significa o nome Dead Kennedys e quem escolheu este nome para a banda?
DH Peligro: Bom, eu não tocava com a banda logo no início, pois entrei no DK em 1981, mas pelo que sei os caras estavam num bar um dia destes à noite, em meados de 1978, e Jello Biafra (o vocalista original), com um amigo chamado John Greenway, chegou com este nome como sugestão e o nome foi logo aceito por todos. Dead Kennedys significa literalmente o que diz o nome, ou seja, os "Kennedys Mortos". Significa que conforme a família Kennedy perdia membros importantes, como o próprio presidente dos EUA, John Kennedy, que foi assassinado, e quando também Martin Luther King, líder e defensor dos direitos dos negros, foi assassinado, muitos sonhos de liberdade e justiça começavam a ser destruídos. Pois John Kennedy foi um avanço para os EUA e foi brutalmente assassinado dentro de seu próprio país. As pessoas tinham fé e acreditavam em John Kennedy e Martin Luther King e achavam que eles poderiam tornar a América uma nação mais justa. Quando eles morreram todos tomaram um grande baque. Então todo mundo só falava nas ruas: "Kennedy's dead, Kennedy's dead, Kennedy's dead...." (Kennedy está morto). Então a banda teve a idéia do nome, que marca o fim de uma era e o começo de um novo tempo nos EUA e no mundo.

Portal: O que fez com que vocês resolvessem formar uma banda? E que tipo de influências vocês tinham naquele tempo? Alguma banda inglesa por exemplo?
DH Peligro: Para mim foi mais um lance de querer fazer algo no ramo artístico do que entrar no chamado movimento punk e tal. A gente na verdade nem tinha muita noção dessa coisa toda de punk e ideologias. O Biafra sim era mais ligado nisso, pois tinha passado um tempo na Inglaterra. Não posso dizer que um dia a gente parou e disse: "Queremos ter uma banda como essa, ou aquela". Por isso não temos nenhuma influência de banda alguma, muito menos inglesa. Era um lance de ter a mente aberta e pronta para novas tendências e estilos musicais. Mas claro que algumas bandas faziam nossa cabeça naquela época como Devo, Ramones, Blondie, Television e aquela merda toda de Nova York.
Portal: Vocês são considerados pioneiros do hardcore no mundo. Vocês acreditam que música rápida pode alcançar o alvo mais facilmente?
DK: (risos!!!) Brandon Cruz: Boa pergunta! Mas música rápida nem sempre é sinônimo de boa música, você me entende? Às vezes você toca tão rápido que ninguém consegue entender o que você está tocando.
 
 
 
 
 

East Bay Ray: Eu discordo completamente com este pensamento da pergunta. Eu acredito que existe música rápida que é boa e música rápida que é ruim, como também existem música que não é rápida e é boa e que às vezes é ruim. O hardcore não tem nada a ver com música propriamente dita, mas dependendo da música, do sentido e do que ela passa, pode ser uma ótima música. Tanto a música como a letra podem conter diferentes formas de comunicação e de transmissão de mensagens. Às vezes a forma como você toca sua música, pode passar muito mais mensagens para as pessoas que ouve do que suas próprias letras. Isso é o que faz o hardcore, que passa uma atitude mais rápida e agressiva, para chamar a atenção para outras coisas mais importantes.

Portal: Como é o processo de composição das músicas da banda? O que vem primeiro, a música ou a letra?
Ray: Às vezes música, às vezes letra, depende da música. Muitas vezes estamos ensaiando e vamos tocando qualquer coisa e saem muitas música novas assim, depois encaixamos as letras. Mas muitas vezes chegamos com uma letra na cabeça e criamos uma música para ela.

Portal: Como foi com "Holliday in Cambodia" e "California Übber Alles"? O que foi feito primeiro?
Ray: Nessas fizemos primeiro as músicas.
  Portal: Vocês ainda têm os mesmos pensamentos sobre questões políticas e sociais que tinham no começo da carreira ou agora isso não interessa mais?
Ray: Claro que interessa. Mas acho que agora estamos mais realistas. Quando você é jovem tudo é oito ou oitenta. Naqueles tempos a gente pensava que atirando palavras e muitas vezes objetos contra as pessoas, poderíamos mudar o mundo. Para conseguir alguma mudança política e social, é preciso que você faça uma mudança dentro de você, pois só assim você poderá ter um mundo diferente. Você tem que aprender a tratar as pessoas que estão a sua volta de uma maneira legal. Se você tratar bem e se preocupar com sua família, seus amigos, seu próximo, etc., a revolução acontecerá. Se você ficar esperando que a revolução aconteça como num passe de mágica, ela nunca vai acontecer. A verdadeira revolução começa dentro da gente.
 
 
 
 
 
Portal: Vocês pensam em um novo disco ou já compuseram novas músicas. Como está isso?
Ray: Muito cedo para falarmos nisso, só o futuro dirá. Não queremos especular sobre isso e nem falar sobre isso.

Portal: Vocês poderiam falar das bandas que estão tocando por aí hoje em dia? Vocês curtem algumas dessas bandas?
Ray: Tem o Glamour Pussies, de São Francisco (EUA), que é muito boa.
Brandon: In Control, de Oxnard (EUA), que é muito boa mesmo, também tem o Aggression. Essas são bandas que cresceram junto comigo, são da minha cidade e posso falar bem delas.
DH Peligro: Peligro é a melhor de todas!
DK: (Muitos risos!!!)

Portal: Essa é para o Brandon. Ficamos sabendo que sua banda, o Dr. Know, juntamente com outras bandas da Califórnia, criaram um novo estilo chamado "Nardcore". O que o Nardcore na verdade?
Brandon: (risos!!!) Nardcore foi nossa resposta para o hardcore. A minha banda e as outras bandas desse movimento são de uma cidade pequena chamada Oxnard, que fica uns 100 km ao norte de Los Angeles. Quando a gente toca em cidades grandes como Los Angeles, as pessoas nos chamam de os "Nard". No começo de 80, quando todo mundo só pensava em Hardcore, a gente pensou e decidiu: não vivemos em Los Angeles então somos Nardcore. As primeiras bandas deste movimento eram Dr. Know e Aggression. Depois dezenas de bandas aderiram a este movimento. Hoje para mim a melhor dessas bandas é a In Control. Eles são bons mesmo, vale a pena!
Portal: Como vocês sentiram a morte de Joey Ramone?
Ray: Fica até difícil de falar. É um assunto que até hoje não gostamos de lembrar e pelo menos a mim, me deixa sem palavras. (Ray ficou emocionado neste momento)
Brandon: Foi uma tragédia. Foi o mesmo que os fãs dos Beatles sentiram quando John Lennon morreu. Para o punk rock Joey Ramone tinha o mesmo significado. Perdemos uma lenda, que foi responsável pela origem de tudo isso que somos hoje e tudo o que se houve hoje em termos de punk rock e outros estilos de rock que surgiram depois. Eu conhecia Joey pessoalmente e posso dizer que perdi um ente querido.
 
 
 
 
DH Peligro: Por isso que acredito que sempre devemos fazer tudo o que quisermos fazer, pois de repente podemos adoecer e morrer, como aconteceu com Joey. Foi uma perda irreparável, mas que deixou um rastro de genialidade para sempre.

Ray: A gente que toca em banda considera músicos de outras bandas como parte da família, a família dos músicos. Veja agora com a morte de George Harrison, mesmo que eu ou você não sejamos fãs dos Beatles, temos que reconhecer a importância que eles tiveram para a música mundial e a falta que eles fazem para que coisas criativas e inovadoras possam nascer.

Portal: Todos sabemos que vocês e o Jello Biafa sempre foram amigos desde o começo da banda. Se vocês tivessem que mandar um recado para ele agora, qual seria?
Ray: (muito pensativo e reticente) Quando amigos cometem erros eles devem voltar atrás e se desculparem por seus erros. Quando eles não fazem isso, é porque a amizade acabou.

Portal: Mas vocês acham que dinheiro é mais importante que amizade?
Ray: Fim da entrevista!

Neste momento Ray se levantou e se transformou em uma outra pessoa, tratou-nos com certa frieza e disse que não deveríamos falar deste assunto.

Logo no começo da entrevista, o manager da banda, um cara muito indelicado e inexperiente, quis ver todas as nossas perguntas, antes de começarmos a entrevista e ficou em pé ao nosso lado o tempo todo só fiscalizando. Parece mesmo que estes integrantes do Dead Kennedys morrem de medo de falar alguma coisa errada ou quem sabe "falsa" sobre a história da banda e os motivos que ocasionaram o rompimento com Jello Biafra.

Ainda acredito muito naquele velho ditado: "quem não deve não teme!"

Marcio Faveri - da redação

Arte e Fotos - Paulo Vinicius

ENTREVISTAS
VEJA ESPECIAL DA BANDA