Entrevista Exclusiva

Buenos Aires - Argentina - 30/10/2004

O Portal do Rock apresenta com exclusividade uma interessante entrevista com a banda argentina Doble Fuerza, que vai estar desembarcando pela primeira vez no Brasil neste mês de novembro, para alguns shows, participando também do festival Punk Rock Invasion, que rola dias 20 e 21 de novembro no Hangar 110 em São Paulo.



Ícone do street punk portenho e latino-americano, o Doble Fuerza foi formado em 1987 na capital Buenos Aires. Estes argentinos trazem em seu som toda a garra e a fúria do punk rock das ruas, que mesmo com toda a sua rebeldia, não perde o bom humor e o efeito diversão, que com a qualidade musical demonstrada pela banda, torna o show do Doble Fuerza em uma verdadeira festa.

Ouvindo o som destes muchachos percebe-se grande influência das clássicas bandas Ramones e The Clash, mas também fica evidente uma pitada da agressividade sonora e da pegada de bandas não menos clássicas como Cockney Rejects e Sham 69.

Mais sobre a banda vocês conferem a seguir na entrevista com eles.

Portal: Quando a banda foi formada em 1987, quais era as principais influências e bandas que vocês ouviam? E o que vocês ouvem hoje em dia?
Doble Fuerza: No início as principais influências foram os Ramones, o punk rock 77, a Oi Music! E o rock and roll dos anos 50 e 60. Atualmente as influências permanecem quase que as mesmas, podendo ser somadas ao gosto pessoal de cada um dos integrantes, o que pode ser percebido nos arranjos, vocais e alguns rifes de nossas músicas.
 

Hugo Irisarri (vocal)


Cala (baixo e voz)
  Portal: Sempre achei que o Attaque 77 é o "Ramones argentino" e que o Argies é o "The Clash argentino". Seria justo dizer que o Doble Fuerza é o "Cockney Rejects argentino"?
Doble Fuerza: No final dos anos 80 talvez se pudesse mesmo dizer que o Attaque era os Ramones argentinos, mas isso mudou e hoje na Argentina existem muitas bandas influenciadas pelos Ramones e que copiam seu estilo. Acredito que hoje o Doble Fuerza seja, humildemente, a banda que melhor tenha sido influenciada pelos Ramones na Argentina, uma vez que entendemos o conceito “ramone” de fazer punk rock, com uma alta dose de rock and roll.

Portal: Vocês têm uma preocupação em apresentar a banda como "punk rock" ou "street punk" ou preferem mesmo ser tratados como uma banda de rock apenas?
Doble Fuerza: Temos o street punk muito bem presente em nossas letras, com um altíssimo compromisso social e uma linguagem bem direta. O pun rock destilamos em nossas músicas de amor e em nossa atitude ao vivo.

Portal: Vocês se importam com os rótulos que principalmente a mídia dá às bandas?
Doble Fuerza: Não, porque o punk rock puro é um dos estilos que menos rótulos intermediários tem, mesmo porque a ideologia é a mesma para todas as bandas, sejam elas street, hardcore, punk rock 77, oi!, etc. O importante dentro da cena punk é o pensamento e a atitude punk, não só no ato de tocar um instrumento e fazer uma música, mas sim em todos os aspectos da vida. Uma pessoa que ama e vive o punk rock tem uma mentalidade punk 24 horas por dia.

Portal: Como está a cena punk rock e oi! na Argentina hoje em dia? E quais as bandas que mais se destacam?
Doble Fuerza: Sinceramente existe muito pessimismo hoje em dia, provocado em parte pela miséria e pelos produtores “sangue-suga’ que logo que percebem que uma banda consegue atrair cerca de 300 pessoas num show, começam a explorá-la comercialmente, até mesmo atrapalhando e podando a banda artisticamente. Também existe muita gana e concorrência comercial no underground, o que torna difícil as amizades com novas bandas.

Por sorte os velhos amigos, os de sempre, estão sempre lá e vocês sabem a quem nos referimos..


Bandas que podemos destacar atualmente são Expulsados, Alimañas, Topos (ex Flema). Na cidade de Rosario (Província de Santa Fé), existem muitas bandas boas, como Hall The Hats e Asphix.
 

Dani (bateria)


Liende (guitarra e voz)
  Portal: E o que vocês pensam desta cena "rocker" que se formou na Argentina, no Brasil e em outros países da América do Sul, com bandas que tentar copiar o som do de bandas "comerciais" americanas e európéias, como Strokes, Hellacopters Darkness, etc., insistindo em apenas cantar em inglês e fazer pose de rockers?
Doble Fuerza: Bom, acredito que existe algo que devemos diferenciar. Por um lado não temos nada contra bandas comerciais como Strokes, Hives, Darkness, Jet, que apesar de insistirem em dizer que são fiéis aos seus gostos, são apenas produtos de uma máquina comercial, que vê neles o mesmo que vê em Britney Spears ou Cristina Aguilera. Apesar disso, não nos importa este lance comercial deles, pois apesar de serem fracos em conteúdo, são melhores do que se escutar Cristian Castro, certo?

Por outro lado (e aqui vamos tocar num assunto delicado!!!), bandas como Hellacopters, Backyard Babies, Supersuckers, são bandas muito respeitadas pelos grandes do rock, já que têm toda uma história de carreira e duvido que sejam bandas da moda ou simples posers, porque vieram do underground e tiveram que ralar também. O Nicke do Hellacopters foi o fundador do Entombed, os Backyard babes sempre foram amigos dos Ramones, Motorhead e Hanoi Rocks. Além disso, eles não se vendem por nada!!! Isso lhe parece ser comercial???

Com relação à cena sulamericana, penso que seja apenas uma moda, como muitas que existiram antes, mas na Argentina em especial o que mais se destaca hoje é a cena rockabilly e vintage, que surgiram nos últimos tempos, não muito comercial, mas com artistas de muito bom nível.

As bandas tentam “copiar” poses e formatos roqueiros comerciais do exterior não têm muito sucesso e nem são tantas assim na Argentina.

Portal:
Qual é a verdadeira face do rock argentino hoje em dia? Existe fidelidade e atitude com relação ao rock cru dos anos 60 e 70?
Doble Fuerza: Talvez se você olhar de fora, possa parecer que algum dia tenha existido uma cena com atitude na Argentina. Mas para nós, pessoalmente acreditamos que isso nunca existiu, porque sempre o rock nacional girou em torno da máquina comercial, sem nunca demonstrar humildade ou respeito com ninguém. Pode ser que o rock nacional dos anos 60 e 70 tenham sido bem mais crus que o de agora, mas isso rolava em todo o mundo e aqui o que se viu foi apenas um reflexo do que se acontecia com o rock no mundo em geral.

Com relação à atualidade do rock argentino, não estamos vendo muitas mudanças. Se você bate à porta de algum ícone do rock argentino para pedir uma força ou algum conselho, muito provavelmente ele irá bater a porta na sua cara, porque ele está em outra hoje em dia.

A “atitude” atualmente é um problema que cabe a cada banda e às decisões que elas tomam, sendo que no que diz respeito ao Doble Fuerza, não nos interessa falar de quem tem ou não atitude, já que isso é algo muito pessoal de cada um...apenas fazemos rock and roll!

Portal: Falando agora de Brasil, quais as bandas brasileiras que vocês ouviam quando começaram a banda e quais as bandas que vocês ouvem agora e gostam?
Hugo: Mmmmh…lembro de ter escutado faz muito tempo o disco “Ataque Sonoro”, uma coletânea dos velhos tempos, de quando conhecemos algumas das lendárias bandas do Brasil.
Doble Fuerza: Obviamente que gostamos de Ratos de Porão, Garotos Podres, Olho Seco, Cólera. Uma banda que a gente gosta muito é Os Replicantes. A banda Nauzia é uma galera nova do Rio, que promete muito também e sabemos que existem outas boas bandas de psychobilly, como Os Catalépticos, Ovos Presley, etc. E existem outras que temos vontade de conhecer.

Uma de nossas bandas favoritas também são os Mamonas Assassinas, uma banda que foi muito inovadora na sua época e sentimos muito com o final trágico que tiveram. Também gostamos do Nitrominds, que vimos há pouco tempo na Argentina.


Pablo (guitarra e voz)

Portal: O que vocês acham da cena rock brasileira como um todo? O que a Argentina consome mais em termos de rock brasileiro?
Doble Fuerza: Sinceramente na Argentina não existe um consumo importante de rock brasileiro, pelo contrário, prestamos muito mais atenção às bandas chilenas e uruguaias, o que acreditamos ser por causa do idioma. O forte nacionalismo que demonstram os brasileiros em termos musicais se reflete em Argentina, com a música popular brasileira, samba, bossa nova e todo o que tenha a ver com o folclore brasileiro. O rock tem uma penetração em um nível muito mais underground e o intercâmbio é direto entre as bandas e selos independentes, sem intermediários, o que é algo a ser destacado, pois tanto brasileiros como argentinos estão fazendo um grande esforço para sobreviver. E o vínculo acaba existindo pelo rock e pelo punk rock.

Portal: Voltando às influências, citem suas 5 bandas preferidas de todos os tempos e digam em poucas palavras a razão de ter escolhido essas bandas entre as 5 melhores pra vocês?
Doble Fuerza: Bom, vamos tentar responder porque é um pouco complicado. Somos amantes da música e existem tantas bandas legais que fazem “boa música”, que fica difícil destacar algumas. Acreditamos que uma “banda preferida de todos os tempos” deveria ser uma que sempre nos dá prazer em escutar e que se transforma em uma eterna influência. Então não podemos deixar de citar Ramones, Beatles, Rolling Stones, The Who, AC/DC, The Clash, MC-5, Stooges, Elvis Presley e tantas outras que sempre que as escutamos nos fazer saber o porque fazemos rock and roll.

 
Portal: Qual foi o melhor show que vocês, como fãs, já foram?
Doble Fuerza: Foi o show dos Ramones em 1995, no Estádio Obras Sanitárias, em Buenos Aires. Também temos boas recordações de um show recente no El Teatro, onde tocamos com a formação atual, onde nós cinco nos sentimos muito bem frente a mais de 2 mil pessoas. Mas neste momento temos muitas expectativas para os shows no Brasil.

Portal: E quais shows vocês gostariam de ver um dia?
Doble Fuerza: Se pudéssemos falar de shows de bandas que não existem mais acredito que todos nós falaríamos de Elvis Presley, Ramones ou Beatles. Já das banda da ativa, não seria nada mal um dia abrir um show para o AC/DC por exemplo, o que seria demais!!!

Portal: A banda teve seu disco "Premium Argentina - 100% Puro Punk Rock" lançado no Brasil pela Rotten Records. Como está sendo o retorno deste lançamento em termos de aceitação pelos fãs brasileiros? Vocês pretendem lançar mais discos no Brasil?
Doble Fuerza: Bom, sinceramente as notícias sobre há quantas anda o disco lançado no Brasil teremos quando tocamos em São Paulo. Sabemos pelo pessoal da Rotten que existe grande interesse por parte dos brasileiros para ver nossa banda ao vivo e isso nos fez aceitar a proposta de fazer essa mini turnê pelo Brasil. Temos muito interesse em saber o que as pessoas pensam do nosso disco e da banda, gostamos de falar com os fãs, que ao final são os responsáveis pelo fato de estarmos tocando no Brasil. Gostaríamos muito de lançar todos os nossos discos no Brasil, mas como sabem, devemos antes solucionar algumas questões logísticas, para que os discos cheguem a um maior número de pessoas possível. O que podemos adiantar é que estamos chegando em São Paulo dia 18 de novembro com nosso recém lançado quinto disco debaixo do braço, chamado “Rocker”, e estaremos tocando algumas músicas dele, sendo que os interessados poderão comprá-lo nos shows.

Portal: Já pensaram em fazer um split CD com alguma banda brasileira? Com quais bandas vocês gostariam de fazer?
Doble Fuerza: Ainda não pensamos nisso, mas seria uma boa experiência, já que o split é um formato muito interessante para trocar idéias entre bandas.



Portal: O que os brasileiros podem esperar dos shows do Doble Fuerza no Brasil?
Doble Fuerza: A primeira coisa que devem fazer é não comer alimentos pesados, porque vamos agitar as cabeças e fazer os brasileiros pogarem muito, já que os shows ao vivo são o melhor de uma banda de punk rock, por tudo o que ela pode transmitir. Brigou com a namorada? Com seus pais? Foi reprovado na escola? Nada importa!!! Nada importa se você tem um bom punk rock para escutar!

Portal: Como vocês estão esperando este show com o G.B.H no festival Punk Rock Invasion em São Paulo?
Doble Fuerza: Com muita expectativa e alegria, principalmente porque sempre é um prazer dividir o palco com bandas internacionais. Aqui na Argentina tocamos com Die Toten Hosen, La Polla Records, Ramones e é muito interessante como experiência. E gostamos muito de poder tocar no Punk Rock Invasion, que é o festival mais importante de punk rock de todo o Brasil.



Portal: mensagem final para as pessoas que gostam do som de vocês?
Doble Fuerza: Antes de tudo queremos agradecer a Rotten Records pelo profissionalismo com que gerenciaram este lançamento e estamos convencidos de a turnê será um sucesso. Desejamos o melhor a Rotten e um crescimento rápido porque eles merecem. Às pessoas do Brasil gostaríamos fazer chegar nossa mensagem através de nossa música e nunca deixem de pensar por vocês mesmos, já que isso é a única coisa que podem nos salvar.



As diferenças não existem, a música é uma só e a pessoa que insiste em querer estipular diferenças entre argentinos e brasileiros nos dá pena, porque não entende o significado da palavra UNIÃO, nem tampouco nunca entenderão o que a música e o punk rock fazem e farão pelos sulamericanos, um povo oprimido e borbardeado econômica e moralmente, que não precisa neste momento de ninguém que nos diga o que fazer e o que aceitar.

Também gostaríamos de saber o que os brasileiros acham da nossa banda, quais as dúvidas e tudo o mais que desejam conhecer do Doble Fuerza, podem entrar em contato através do site www.doblefuerza.com. Stay Punk!!!

Marcio Faveri - da redação