Entrevista
Exclusiva com Garotos Podres
11/06/2002
- São Paulo - SP |
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O
Portal do Rock tem a honra e grande satisfação
de trazer pra vocês esta entrevista mais do que simplesmente
exclusiva, sim porque trata-se da banda Garotos Podres, verdadeiro
ícone, patrimônio e unanimidade em termos de
punk rock no Brasil e no mundo!
Mas vamos deixar as apresentações e comentários
sobre a banda pra lá, pois realmente isso é
dispensável diante do que eles próprios têm
a dizer! |
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Portal:
Como está a banda atualmente, em termos de shows, novas músicas,
novos projetos, CDs, formação, etc.?
Mao: Atualmente continuamos fazendo shows, ainda estamos
divulgando o nosso mais recente cd ao vivo Garotos Podres "Live
in Rio", lançado no final de 2001 (por nossa conta), estamos preparando
o nosso novo cd que provavelmente esperamos lançá-lo ate
o final do ano, acabamos de participar de uma coletânea
"Class Pride World Wide Vol.2" pelo selo canadense Insurgence
Records, que reúne bandas de varios países,
entre elas Angelic Upstarts e Red Alert, que são duas clássicas
bandas inglesas, Razzaparte da Itália, entre outras. Ainda
este ano a Rotten
Records estará lançando o "Tributo aos Garotos
Podres", em comemoração aos 20 anos dos Garotos, com a participação
de varias bandas. A formaçao atual é Mao-vocal, Mauro-guitarra,
Sukata-bateria, "Capitão Caverna" Nunes-bateria.
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Portal:
Desde o começo dos anos 80, quando a banda foi formada
e estourou com as vendagens do primeiro disco, sempre existiu
um interesse por parte de gravadoras maiores e de produtores
em tentar popularizar a banda. Isso realmente ocorreu? Existiram
pressões sobre as letras, estilo e atitudes da banda? Como
foi essa experiência com as gravadoras?
Mao: Não existiu esse interesse em popularizar a banda,
muito pelo contrário, as gravadoras nunca investiram
na banda, nem deram a devida atenção e a maioria delas nos
devem até hoje direitos autorais e direitos artísticos.
Praticamente "tomamos chapéu" em todas as gravadores
que passamos. O caso mais recente foi com a gravadora Paradoxx. |
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Portal:
Quais foram as principais influências da banda no começo e o que
os integrantes da banda estão curtindo atualmente?
Mao: As nossas influências foram as bandas punks
do final dos anos 70, início dos anos 80. Cada integrante
da banda tem suas preferências musicais, praticamente ouvimos
de tudo um pouco: ska, punk rock, oi!, hardcore , etc.
Portal:
É sabido que a banda tem um grande público forte e fiel, que são
Skinheads, que se identificam com o som da banda e sempre estão
nos shows. Como é o relacionamento da banda com estes fãs e com
os seus ideais? Este público ajuda ou atrapalha a carreira da
banda?
Mao:
Na verdade a maior parte de nosso público, tanto no Brasil quanto
em Portugal, não é constituído de Skins ou Punks. A maior parte
de nosso público é formado de pessoas que apenas gostam de nosso
som e se identificam com nossas letras e que não necessariamente
fazem parte de qualquer "movimento". Desde o início da banda,
sempre nos identificamos com o Punk Rock do final dos anos 70,
com a Oi! Music do início dos anos 80 e com o Ska "Two Tone" do
mesmo período. O fato de sermos considerados uma banda Oi!, acabou
por atrair, principalmente no início de nossa carreira, um público
de Skins que aqui no Brasil nos trouxe bastante problemas em nossos
shows (brigas, etc.). Felizmente há muito tempo não temos qualquer
tipo de problemas em nossos shows. Na Alemanha por outro lado,
nunca tivemos qualquer tipo de problema e, a maior parte de nosso
público é formado por Skinheads antifascistas, que integram movimentos
como o SHARP (Skinheads Against the Racial Prejudice - Skinheads
Contra o Preconceito Racial), o RASH (Red and Anarchist Skinheads,
ou seja, os Skins anarquistas e comunistas) e principalmente os
Skins e Punks do Movimento Oi! (o Movimento Oi! é na verdade um
movimento que prega a união e, até mesmo a fusão, entre Skins
e Punks; muito embora a maioria dos Skins e Punks brasileiros
não saibam disso!).
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Portal:
Sabemos que existe uma confusão e um mal entendido no Brasil,
que acaba misturando na mesma categoria pessoas que curtem
som Oi! ou o chamado Street Punk, aqueles que mantém um visual
estilo Skinhead e cultivam ideais de esquerda ou anarquista,
com outras facções como os Skinheads do estilo white power
(força branca), que pregam o racismo e o fascismo, são adeptos
de Hitler e outros ditadores de direita. Como vcs vêem este
tipo de confusão formada? vcs acham que é um problema cultural,
já que em países da Europa por exemplo as coisas são bem separadas? |
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Mao:
Achamos que a maior parte dos brasileiros são extremamente desinformados
a este respeito!...e infelizmente a maioria dos próprios Skins
e Punks daqui no Brasil, também!!...Para começar os "white
power" sequer se intitulam Skinheads (eles chamam a si
mesmos de "bonneheads’), são absolutamente minoritários na Europa,
e no Brasil inteiro devem existir uns 5 ou 6!!! ... Portanto
o estereótipo do "Skinhead neonazista", que a mídia "alardeia"
como se existissem aos "milhares" e, que se constituiriam numa
"grave ameaça" para a "civilização" é, na verdade, "pura ficção"!!!!Acho
que as pessoas deveriam se informar um pouco melhor, antes de
sair por aí reproduzindo asneiras! ... e se a imprensa burguesa
quer perseguir os "fascistas", que persigam os "fascistas de
verdade"!! ... porque não perseguem os "Malufs" ou
os "Romeus Tumas" que infestam a vida política brasileira???
... Quem viveu o período da ditadura militar no Brasil, sabe
muito bem do que nós estamos falando!!!
Portal:
Como foi a experiência da banda em tocar na Europa? Valeu a pena?
Como foi a recepção?
Mao: Para nós, tocar na Europa foi a melhor experiência
que tivemos em 20 anos de carreira! Se levarmos em conta a população
de Portugal, proporcionalmente somos mais conhecidos lá que no
Brasil! Tocamos quase todos os dias (em Portugal e Alemanha),
rodamos quase 5.000 Km de van, bebemos tudo que era "líquido".
Fizemos 3 shows grandes (Lisboa, Berlim e Dresden), e quase uma
dezena de shows em locais menores (chegamos a fazer shows em plena
2º feira ... e por incrível por pareça, lotados!). Em Portugal
a nosso público se parecia muito com o do Brasil (a maior parte
era constituída de pessoas "comuns", havendo poucos Punks ou Skins).
Já na Alemanha, ao contrário, o público de nossos shows era quase
que exclusivamente constituído por Punks e Skins. Em todos os
shows que fizemos na Europa, para nossa surpresa, não vimos uma
única briga!; e os caras mais maloqueiros que vimos por lá éramos
nós mesmos!
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Portal:
Vcs tem contato com outras bandas que compartilham do
mesmo ideal e estilo em outros países? Quais bandas mais legais
que vcs conheceram lá fora?
Mao: Não temos contato com bandas do exterior. Temos
apenas alguns contatos com alguns selos da Europa e América
do Norte. Quando fomos à Europa, tivemos oportunidade de tocar
com o Mata-Ratos (Portugal), Oxymoron (Alemanha) e Braindance
(Inglaterra). Como a agenda era corrida, não tivemos tempo
de conhecer outras bandas. |
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Portal:
Parece que existe um certo receio por parte de algumas casa noturnas
em agendar shows para os Garotos Podres em São Paulo. Por exemplo,
no Hangar 110, que é um dos redutos dos maiores e melhores shows
de bandas Punks e underground atualmente, não se vê show dos Garotos.
Isso é verdade? Porque?
Mao: Muitos anos atrás, tivemos alguns problemas em alguns
shows (brigas entre o público). Na verdade não foram problemas tão
graves assim, mas como diz aquele ditado popular, "quem conta um
conto aumenta um ponto". Se ocorria alguma briga em algum show,
no dia seguinte circulava a versão de que havia ocorrido uma "pancadaria
generalizada"; se alguém tropeçasse e se machucasse, no dia seguinte
circulava o boato que "o cara foi pra UTI", e assim por diante.
Curiosamente quando aconteceram verdadeiras tragédias em grandes
shows de pagode ou da Xuxa (onde já ocorreram várias mortes), ninguém
comentou nada! Realmente, uns 15 anos atrás, tivemos alguns problemas
relativamente sérios, relacionados com brigas de gangues em nossos
shows, como no Sesc Pompéia em 1986. Cabe ressaltar, que mesmo nesta
época, o que ocorreu não foi tão grave (felizmente ninguém morreu
ou ficou gravemente ferido), mas começou-se a criar uma verdadeira
"lenda" em torno dos Garotos Podres. A partir de então, circulavam
boatos que onde quer que nós tocássemos, éramos acompanhados de
uma multidão de "carecas", que batiam em todo mundo!.. esses boatos
cresceram tanto, que em muitos casos, produtores de shows tinham
medo inclusive de "nós", pois temiam que nós, os músicos, viéssemos
bater no público!!.. Apesar de não termos tido mais nenhum problema
nos últimos 15 anos (felizmente!), o "preconceito" em relação à
banda continua, e obviamente isto dificulta o agendamento de nossos
shows, principalmente na Grande São Paulo. |
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Portal:
Como é o relacionamento da banda com a mídia brasileira? Existe
alguma mágoa ou problema que a banda tenha sofrido ao longo
da carreira com órgãos com MTV, Rádios Rock ou revistas especializadas
em Rock?
Mao: Curiosamente nunca tivemos nenhum problema mais
grave com a mídia, principalmente com a mídia "escrita", a
qual em geral sempre tivemos um bom relacionamento. Em relação
às rádios e a tv, sempre conseguimos algum espaço, embora
limitado. Temos consciência de que a limitação deste espaço,
não é decorrente de "boicote" ou "preconceito", mas porque
cada vez mais as rádios e tvs dependem do tristemente famoso
"jabá". E como nós, e a maioria das bandas undergrounds não
estamos em nenhuma grande gravadora que pague este "jabá",
o espaço que temos nas rádios e tvs é bastante limitado. |
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Portal:
Vcs querem deixar alguma mensagem especial aos fãs da banda, que
com certeza são milhares em todo o Brasil?
Mao: Um abraço a todos......
Marcio Faveri - da redação |
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