|
Entrevista
Exclusiva
Gee
Strings
Outubro/2003 - São Paulo - SP
A
banda alemã Gee Strings esteve fazendo sua segunda turnê
pelo Brasil no mês de outubro. Aproveitamos para falar com
eles e conhecer mais sobre o som da banda e suas idéias.
Portal: Inicialmente gostaria que vocês falassem
sobre a banda, quando foi formada, porque e quantos discos vocês
já lançaram.
Gee Strings: O Gee Strings foi formado em 1994 por cinco
amigos que estavam de saco cheio de ficar sem ter o que fazer
e decidiram seguir aquela velha máxima do punk rock: qualquer
um pode ter uma banda. Eramos em cinco no começo mas mudamos
para quatro integrantes (apenas uma guitarra) em 1997, menos para
nossa tour brasileira de 2002. Tivemos vários baixistas,
mas os demais são todos membros originais. A formação
atual tem: Ingi (vocal), Jac (bateria+voz), Nik Nasty (baixo+voz)
e Bernadette (guitarra). Além de cerca de 15 músicas
em diferentes coletâneas, também lançamos
os seguintes discos:
1997 - Primeiro CD "The Gee Strings" pela High Society
International
1999 - Segundo LP/CD "Alternative Losers" pela High
Society International
2000 - EP "Bad Reputation" pela Stereodrive/Green Hell
Records
2002 - Relançamento de "The Gee Strings" e "Alternative
Losers" compilados em um CD,
pela Thirteen Records/Brasil
2002 - Terceiro LP/CD "Arrest Me" pela Dead Beat Records/USA
e
Red Star Records/Brasil.
Estes 2 últimos CDs podem sem encontrados no Brasil e também estamos
participando de uma nova coletânea internacional só com bandas
com vocal feminino, que deve ainda contar com as bandas Bambix(Holanda)
e Staples (Brasil).
Portal: Ouvi em algum lugar que vocês abriram um show
pro Backstreet Boys, aquela banda de playboy. É verdade isso
e como aconteceu?
GS: Sim, é verdade. Foi num festival a céu aberto organizado
por pessoas que conhecíamos, a pedido de uma empresa. Neste
festival haveria as atrações principais, grandes nomes, mas
também bandas pequenas, de todos os estilos. Quando entramos
no palco havia milhares de garotinhas com cartazes escrito
"Te Amamos" e tal, tudo na frente do palco com uma porrada
de seguranças em volta. Começamos nosso show e percebemos
que sempre que falávamos a palavra Backstreet Boys elas gritavam
de forma histérica.
Então fizemos uma piada disso e começamos a colocar o nome
Backstreet Boys em todas as coisas que falávamos entre as
músicas do show, como por exemplo: "a próxima música não é
do Backstreet Boys e se chama Paranóia", ou ainda "vamos tocar
mais algumas antes do Backstreet Boys entrar no palco". Todas
as vezes que mencionamos este nome estúpido desta banda de
merda a galera gritava. Depois uma das garotas que gritavam
nos disse que achou que a gente era legal mas que talvez o
pai dela fosse gostar mais da gente do que ela própria. A
gente nem chegou a ver nenhum membro do Backstreet Boys no
backstage e nem demos a mínima também, claro! |
|
 |
Portal:
Por que investir no mercado de música brasileiro? Vocês tiveram
uma boa resposta da primeira turnê e da venda de seus títulos
lançados aqui? O que vocês esperam do Brasil?
GS: Nós tivemos uma boa impressão das pessoas nos nossos
shows. Nossa banda parece ser algo realmente diferente e especial
para as pessoas daí (pelo menos é o que nos disseram). Provavelmente,
deve ser por causa de nosso punkrock 77, estilo rock'n'roll sem
influências atuais, nosso baterista é definitivamente louco, a
apresentação de Ingi no palco e nossas unhas pintadas de preto.
Não há previsão para irmos ao Brasil, não esperamos muito do mercado
musical brasileiro, além disso, como banda punkrock você nunca
conseguirá ganhar muito dinheiro com CDs. Nós também não sabemos
quantos álbuns já vendemos no Brasil até agora. Nós só tivemos
a chance de lançar nosso trabalho aí, junto com a turnê, conhecemos
bandas e pessoas, nos divertimos juntos (e caímos de bêbados nas
casas delas), aprendemos sobre a vida e o punkrock no Brasil.
Foi uma puta experiência e é por isso que nós guardamos nosso
dinheiro e compramos as passagens para voltar ao Brasil novamente.
Nós fazemos nossas músicas para divertir e estamos felizes que
pessoas como o Jef (Agrotóxico, Red Star Records) nos apoia e
torna possível nossos shows em seu país.

Portal: E quando eu digo BRASIL, qual é a primeira coisa
que vem na cabeça de vocês?
GS: Para mim (Nik Nasty) seriam nossos shows no Hangar
em São Paulo, que foi muito legal e no Rio (Garage), onde Ingi
pulou do palco em cima da galera e voltou com a boca sangrando,
como o Sid Vicious. Os rostos das pessoas que conhecemos, a amizade,
hospitalidade e entusiasmo das pessoas em nossos shows, além da
viagem conturbada de táxi em São Paulo, na noite em que quase
não voltamos vivos. Para os meios de comunicação normais da Alemanha,
a resposta seria: futebol, samba e carnaval, garotas bonitas (isso
é verdade!), violência nas ruas do Rio e São Paulo e talvez (dependendo
do nível de inteligência) a Amazônia, que vem sendo destruída.
Portal:
Que tipo de pessoas são fãs do Gee Strings? E que tipo de pessoas
vocês querem que se tornem seus fãs?
GS: Nós temos fãs muito diferentes; jovens punks moicanos,
muitos punks veteranos, punks 77, ex-punks, galera que curte anos
60, roqueiros playboys e até hardrockers. Quando fizemos turnê
pela Europa, nós tocamos em vários squats (casas ilegalmente ocupadas),
centros de juventude, grandes festivais, assim como em bares rock'n'roll,
punkrock ou em pequenos pubs. As pessoas e os locais se diferem
de cidade para cidade, o que é mais interessante. Nós entendemos
isso como um desafio; nós tentamos trazê-los para o nosso lado;
e dançar onde quer que estivermos, independente do tipo de público.
Há apenas uma exceção; nós nunca tocaríamos para fascistas ou
skinheads nazistas para diverti-los. É onde nossa tolerância termina.
Nós não nos importamos com o tipo das pessoas, punkrock é uma
coisa que deveria estar primeiramente nas suas cabeças.
 |
|
Portal:
Falem-nos um pouco sobre a cena rock underground alemã.
Como é ter uma banda como a de vocês na Alemanha? Como os
promotores alemães e os proprietários das casas pagam pelos
shows? Quais são as principais dificuldades e os pontos
positivos?
GS: Não é muito fácil para uma banda hoje em dia,
pois há cerca de 4 a 5 vezes mais bandas na Alemanha se
comparado há 10 ou 15 anos. E ainda temos todas as bandas
americanas e escandinavas que vêm para a Alemanha, porque
elas têm mais condições na Alemanha do que em seus países.
Eles conseguem hotel, comida e ainda dinheiro, e eles não
têm que dirigir milhares de milhas para o próximo show.
Há muitas bandas americanas que nunca fizeram uma turnê
pelos EUA, mas vêm para a Alemanha e encontram um empresário
facilmente porque o principal é fazer as pessoas de Nova
York ou dos EUA irem aos shows. Não tenho nada contra estas
pessoas, mas elas estão destruindo o cenário underground
alemão, porque as bandas novas não têm chance o suficiente
para tocar, pois os empresários preferem o dinheiro fácil
que vem das bandas de fora. Nossa banda tem quase dez anos
e nós estamos envolvidos no cenário punkrock com diferentes
bandas há muito tempo, nós temos bons contatos para conseguir
shows (fazemos cerca de 50 shows por ano). O dinheiro é
muito diferente e varia de show para show. Hoje em dia ninguém
paga com garantia, normalmente nós conseguimos cerca de
200 a 600 dólares nos finais de semana (dependendo da quantidade
de pessoas que têm nos shows). Mas, geralmente nós precisamos
de metade disso, ou mais, só para a gasolina, que é extremamente
cara na Alemanha. Nós também tocamos em vários shows beneficentes,
em squats ou em locais que precisam de nossa ajuda.
|
Também
temos muitas despesas, porque moramos em cidades diferentes e
também temos uma van velha que nós estamos pagando com o dinheiro
da banda. É muito difícil encontrar bons shows durante a semana.
Punkrock e rock'n'roll são nossa vida, mas é claro que nós não
podemos viver de nossa música, nós nunca tivemos essa ilusão.
Portal:
É muito caro lançar um álbum na Alemanha hoje? Quanto (em dólar)
custa para gravar um álbum e quanto para prensar 1000 cópias?
GS: Nós sempre tivemos selos que pagam a prensagem para
nós, então não sabemos realmente o preço exato, mas eu acho que
seria cerca de 2200 dólares para cada 1000 cds (com capa). Para
gravar um álbum, depende de sua rapidez, de quanto tempo você
precisa ficar no estúdio. Você paga cerca de 300 dólares por dia
num bom estúdio. Nós precisamos de cerca de uma semana para gravar
um álbum. Para prensar um vinil é muito mais caro, cerca de 3500
para Lps de 12" e o problema é que a maioria de nossos fãs (os
punks alemães em geral) preferem as gravações em vinil. Nós vendemos
muito mais vinil em nossos shows do que cd.

Portal: Mudando de assunto, vocês acham que as bandas
como Strokes, Hives e Vines estão realmente trazendo de volta
o espírito rock'n'roll dos anos 60 das bandas como Who, Kinks,
Stooges, MC5, ou eles são só um bando de novas caras fazendo algo
muito velho e nada de novo?
GS: Não há nada de errado em fazer algo velho e nada novo,
afinal todos nós estamos fazendo isso também. As pessoas também
têm sido muito foda nos últimos anos e isso não é nada novo, mas
de qualquer maneira ainda é bom! Quanto mais bandas como estas
que vc citou ficam populares, menos porcarias teremos que ouvir,
coisas pop que temos que ouvir hoje em dia. Por isso digo que
as paradas musicais e este meio pop me dão ânsia de vômito! Eu
os odeio!
Portal: Muitas pessoas, principalmente aqui no Brasil,
sempre comparam as músicas de vocês com aquelas feitas por
bandas como o Vice Squad, Joan Jett, Runnaways. Vocês concordam
com este tipo de comparação?
GS: As pessoas sempre comparam, mas no nosso caso elas
não sabem comparar muito bem, isso é por causa do vocal. Para
começar, eu não gosto do Vice Squad. Pelo que me conta eles
tem apenas uma música boa (Last Rockers) que inclusive é definitivamente
muito longa. Elas estão enganadas, nós somos totalmente diferentes
e gostamos de músicas curtas! Sim, nós gostamos de Runnaways
e de Joan Jett, eles são legais, mas nossa música é menos
Hardrock. A pessoas sempre inventam comparações, porque às
vezes a gente toca algumas músicas deles. Uma outra banda
que nós somos freqüentemente comparados é a Avengers (banda
punk rock de São Francisco, de 78, que foi produzida por Steve
Jones do Sex Pistols) que é uma comparação que eu posso aceitar.
É claro, que como todas as bandas nós achamos que somos especiais
e incomparáveis, mas se você quiser ouvir algumas bandas pelas
quais nós somos influenciados, elas seriam: Sex Pistols, Johnny
Thunders and the Heartbrakers, Dead Boys, New York Dolls,
Radio Birdman, The Stooges e é claro, os Ramones. Pois os
discos dos Ramones são uma grande lição de guitarra. |
|
 |
Portal:
Eu sei que o Die Toten Hosen é uma banda famosa na Alemanha. Como
é o DTH para vocês? Eles são influência para a banda ou não? Quais
as bandas alemãs que ainda vivem e carregam o espírito punk rock
de 77?
GS: Não, eles não nos influenciam. Eu acho que é legal
o que eles estão fazendo e o que eles estão fazendo é muito dinheiro
com a música deles, mas eu não gosto disso, exceto pelas duas
primeiras gravações. Para mim, a música do DTH agora é poprock
com uma imagem punk. De qualquer maneira nós conhecemos o Vom,
baterista deles, e ele foi muito legal por ter nos emprestado
os pratos dele quando nós estávamos gravando. Nossa outra conexão
com o Die Toten Hosen é que um dia a Ingi atropelou o Campino
(vocalista) com o carro dela. Sorte que nada sério aconteceu.
Não há muitas bandas que carregam o espírito 77; The Shocks de
Berlin são legais, The Puke de Bonn são ótimos, mas eles não existem
mais. Hoje, há um tipo de tendência das bandas alemãs tentando
ser estilo punk rock 77, mas geralmente isso não vem na verdade
do coração e não tem nenhum background. Talvez, eles viram uma
banda (definitivamente soberba) como o Briefs ou nós e pensaram:
vamos fazer algo como isso. Na minha opinião, você não pode ser
punk 77 original com uma guitarra heavy metal, com pickups em
ação, amplificador digital, bateria com pedal double bass e um
baixista que pendura seu baixo sob o queixo. Mas talvez, mais
para frente, você encontrará.
Portal:
Algum comentário final, mensagens ou algo que vocês queiram dizer
para seus fãs e os fãs de rock daqui?
GS: Pense por si mesmo, não deixe ninguém lhe dizer o que
pensar ou fazer. Venham em nossos shows, somos um bando de peidorreiros
loucos e doentes! Para mais informações acesse www.geestrings.de.
Esperamos ver vocês por aí!

Marcio Faveri - da redação
MAIS
ENTREVISTAS
|