Entrevista Exclusiva - Invasores de Cérebros
São Paulo - Dezembro de 2003

  O Portal do Rock tem a honra de apresentar esta entrevista exclusiva, feita com Ariel, líder e vocalista da banda paulistana Invasores de Cérebros. O Invasores é uma daquelas poucas bandas punks que une de forma harmoniosa dois fatores fundamentais: som e conteúdo! Sem perder o senso de contestação e sua indignação frente ao status quo, eles seguram firme a bandeira do punk rock nacional, detonando sem pudor aqueles que fazem parte do famigerado sistema!

A formação atual dos caras é: Ariel (vocal), Paulo Biazotti (guitarra), Paulão (baixo) e Cuga (bateria).

Da formação original que data de 1988, seguem fiéis os "veteranos" Ariel e Cuga. Agora em 2003, completaram 15 anos de carreira e estão com o gás renovado. Suas músicas continuam fora de modismos, mantendo seu estilo direto e ameaçador, onde a mesma rebeldia do início ainda incomoda a quem deve incomodar. Seu repertório está atualizado e pode ser conferido no CD single que estão lançando agora, com duas músicas inéditas ("Oração" e "Noites Quentes Da Cidade"), além de uma versão bônus de "Beat On The Brat", dos Ramones, gravada ao vivo no extinto programa de TV Musikaos.


Confira a seguir como anda a carreira e a luta dos Invasores!!!

Portal: Qual sentido o punk tinha para você na década de 70 quando você começou? E qual sentido ele tem hoje?
Ariel: O sentido é o mesmo, o sentido da rebeldia, de ser revolucionário usando a arte. No começo, quando a gente começou a curtir, em 1974, não tinha punk ainda, mas a gente já era "punk", porque a gente curtia um tipo de rock diferente, uma coisa mais nervosa, não eram os Led Zeppelin da vida não. Na época, tinha Capitain Beyond, MC5 e The Stooges. Inclusive muitas destas estou resgatando agora da net sons antigos que na época eu tinha em fita cassete.

Portal: Qual a banda punk que chegou quando você já estava curtindo estas outras bandas e que definitivamente marcou sua vida e fez você pensar: "essa é a banda!?
Ariel: Sem dúvida, foi a simplicidade total do Ramones. Foi o primeiro disco punk que eu comprei. Eu já tinha Stooges, MC5, etc. O primeiro importado foi o do Ramones. Na época, eu trabalhava como office boy, ganhava 600 cruzeiros e o disco custava por volta de 400 ou 500, mas eu juntei a grana, fui lá e comprei.
 
     
  Portal: Nessa época, era fácil achar estes discos em lojas? Como vocês tinham acesso a este material que vinha de fora?
Ariel: Tinha um programa na Rádio Excelsior, se eu não me engano, que era do Kid Vinil, isso em 1979, e ele colocava muita coisa punk nessa rádio. Tinha uma loja que chamava Wop Bop, que a gente freqüentava desde 75, 76, que era do Antonio e do René, depois de um tempo que veio a Punk Rock Discos. Antes, só tinha a Wop Bop na galeria, depois ela foi para outra galeria e ficou apenas a Punk Rock Discos, onde a tinha acesso aos discos punks.

Portal: Antes de estar no Invasores de Cérebros que você toca agora, você já passou por outras bandas. Gostaria que você falasse um pouco mais sobre elas.
Ariel: A primeira banda foi a Restos de Nada, que já tocavam desde 77, então eu entrei nela em 78 e a banda durou até 81. Em 81, eu e o Douglas formamos a banda Desequilíbrio, que durou por volta de um ano. Fizemos alguns shows e gravamos algumas fitas. Na época, na Zona Norte onde eu moro, já tinha um pessoal que andava tudo igual, com jaqueta de marinheiro. Tinha os Ostrogodos, que andavam de jaqueta de couro, isso já desde 74. Em 74, a gente já ouvia um som mais nervoso, tipo Alice Cooper, que era uma coisa mais violenta. Depois de 81 com a Desequilíbrio, em 82 eu entrei no Inocentes. A gente gravou "Miséria e Fome", participamos do festival "O Começo do Fim do Mundo". Depois, até o movimento deu um tempo, surgiram novas bandas, umas mudaram de estilo e eu voltei com banda por volta de 88, já com os Invasores de Cérebros. Estamos tocando há 15 anos e sempre eu como vocalista e o Cuga como baterista.

Portal: Nesses 15 anos, você acha que a banda conseguiu passar alguma mensagem?
Ariel: Consigo porque há uma reciprocidade total. O pessoal até reconhece o Invasores por causa disso, eles se identificam muito com as letras e também porque eu falo muito durante os shows. É difícil entender uma letra com idéias suas, então tem músicas que eu falo, porque sei da importância dela. Tinha um tempo em que a gente distribuía panfletos em shows, eu acho isso muito importante.

Portal: Vocês ficaram sem gravar material novo por um tempo, agora estão voltando com este single. Quanto tempo vocês ficaram sem gravar?
Ariel: Ficamos bastante tempo. É difícil achar quatro pessoas que pensam da mesma forma e que até toquem da mesma forma, porque hoje em dia tem muita influência de metal, tem várias influências, até hip hop. Então, achar quatro pessoas envolvidas com punk rock é difícil. A gente ficou um tempão sem gravar, agora a gente está retomando isso, inclusive compondo bastante, vai ter bastante material para um novo CD.
 

Portal: Então, você concorda com a máxima "banda é como casamento sem sexo"?
Ariel: Quando você encontra pessoas que se dão bem musicalmente, não se dão bem de outra forma, mas sempre têm uns amantes por aí que tomam o lugar daquelas pessoas que não se enquadram.

Portal: 8- Na sua banda sempre prevalece a opinião de todos ou tem uma liderança, principalmente na parte de composição das músicas?
Ariel: Todos têm total liberdade para compor, mesmo porque na parte de cordas eu não manjo nada, mas eu sei qual definição dar para a coisa, qual base que eu quero, qual timbre que eu quero da guitarra, mas todo mundo é livre para criar, principalmente na parte de cordas, que eu sempre peguei guitarristas bons. Isso é muito importante, um cara que domine a parte musical para a banda ficar completa: letras e parte musical.

Portal: Nos anos 90, houve uma invasão de bandas usando o título de punk rock, só que com um som mais "melódico", mais pop. E no começo do ano 2000, começaram a ressurgir as bandas das antigas e outras bandas de punk rock tocando. Como é que você vê essa mudança e esse ciclo? E como você o punk rock como um todo no Brasil?
Ariel: Tudo isso passa e sempre a coisa autêntica é que prevalece. Agora, eu sinto que o pessoal está buscando muito as origens do punk.O punk de 77 mesmo, que já ficou marcado, apesar de que para mim o punk é anterior a isso. Mas eu vejo o pessoal voltando, como o punk voltou à origem do rock, quando o rock já estava estagnado. Muitos rock stars comprando castelos, não querendo saber do rock de rua, que é o punk rock na verdade.
 

Então, o punk voltou às origens dos anos 50, não fazendo o mesmo som, porque sempre há uma evolução, mas sempre buscando aquela simplicidade, aquela coisa primária mesmo. Todas essas coisas que você falou sobre esses modismos sempre passa. Um exemplo é o Holidays In The Sun (festival inglês), onde as bandas antigas voltam e você vê a força que elas têm ainda hoje. Por exemplo, quando você vê o carinha do Adverts subir no palco com um violão e todo mundo cantando junto, todo mundo empolgado, até arrepia. É porque a coisa é autêntica mesmo. Com essas bandinhas melódicas de hoje você nunca vai ver isso.

Portal: Você tem sonho de ver ou tocar com uma dessas bandas gringas ou até mesmo subir no palco com alguma delas?
Ariel: Eu vou mais no passado ainda. Gostaria de ver The Stooges ao vivo no palco.

Portal: Eles estão voltando agora.
Ariel: É, parece que gravaram quatro músicas.

Portal: Dizem que vão fazer alguns shows como Stooges mesmo, com os que sobraram da formação original.
Ariel: Se fosse teria que ser eles mesmos, porque a minha influência de Stooges é total. Até na parte do perigo que o Iggy Pop e o Stooges representam eu acredito que falta isso hoje no punk. Falta aquela agressividade e aquela rebeldia mesmo. Aquela coisa de se rasgar com uma faca no palco. Acho que falta este fator do perigo. As pessoas primam muito pela técnica hoje em dia e se esquecem deste lado da loucura que representa o rock mesmo. Pelo menos o rock que eu curto né. E o punk rock por conseqüência.

Portal: Agora falando do novo disco que vocês estão pretendendo lançar. Vocês já têm material pronto e agora estão lançando o single com músicas novas. Como fica a receptividade de selos e gravadoras para uma banda com 15 anos de carreira como o Invasores de Cérebros?
Ariel: : É difícil. Mesmo que a gente ache um selo legal que lance o disco, o que falta ainda no Brasil é distribuição. Cada selo trabalha sozinho, sem parceria e só atira pro seu lado. Eu sei de lances dos EUA, por exemplo, onde os selos se unem e formam distribuidoras para distribuir os títulos de todos os selos até mesmo para outros países. Não rola aquele lance de rivalidade e competição entre os selos, mas sim um alinhamento para distribuir cada vez mais mesmo. Aqui ocorre o contrário, rola muita competição entre os selos e não existe mesmo uma distribuição séria e verdadeira. Acho que nunca teve. As lojas também daqui do Brasil só procuram divulgar as bandinhas da moda, procuram privilegiar este ou aquele estilo. Acho que as lojas deveriam dar espaço pra todos os estilos e bandas e as pessoas decidem o que querem ouvir e consumir.

Portal: Como as pessoas que querem entrar em contato com a banda, adquirir o novo single, os CDs lançados, merchandise da banda, devem fazer?
Ariel: Bom, a gente não tá colocando mais em loja porque realmente rola um boicote geral. Tenho o exemplo do CD do Restos de Nada que a gente lançou, que não vendeu muito, mesmo apesar das pessoas estarem procurando, por pura falta de visibilidade. Mesmo as pessoas do meio, da cena punk rock, não dão o apoio que deveriam dar. Pessoas muitas vezes de fora da cena dão mais apoio que os que se dizem do meio. E também algumas bandas de mais renome não chamam a gente pra tocar junto, não dão força mesmo. Mas nosso material pode ser encontrado no nosso site oficial www.invasoresdecerebros.kit.net.

Portal: Isso é realmente uma atitude "pequeno burguesa" e eu penso da mesma forma que você. Você acredita que isso seja problema de cultura, de pais subdesenvolvido mesmo ou o que será?
Ariel: Eu não sei. Eu tô há 25 anos tentando entender isso. Muitas vezes rola por falta de caráter mesmo. Sabe, a gente não faz o som da moda, a gente não faz estilo hardcore melódico ou um som mais metalizado (nada contra hein). A gente faz na verdade um som original, estilo "Invasores" mesmo, com levadas punks, hardcore, street punk e vários outros estilos dentro do punk, que formam o som da banda.
 

Então a gente não se classifica em nenhum modismo ou "paradinha" que a mídia gosta de estar colocando em evidência. Por exemplo, a gente já organizou dois festivais com dezenas de bandas. Você já pensou se convidássemos apenas bandas que são amigas nossas e que gostamos? Isso não rola por aí, dificilmente somos convidados por outras bandas para tocar junto. Talvez por medo de competição ou algo assim. Acho que todo mundo tem seu espaço, um som é diferente do outro. Antigamente tínhamos mais união. As bandas emprestavam equipamento entre elas, iam juntas pro som no mesmo carro. Eu mesmo tinha um Jipe que levava a maior galera e os equipamentos. E hoje a proposta punk fica perdida nisso tudo. Se a cena fosse fortalecida, com cada banda "importante" tentando apoiar as demais, tudo ficaria mais fácil pra todos.

Portal: Eu tenho certeza que o pessoal de fora do eixo Rio-São Paulo, como Salvador, Recife, Cuiabá, Goiânia, Belo Horizonte, Porto Alegre, Curitiba, Floripa, Fortaleza e mesmo interior de São Paulo, adoraria ver uma banda como os Invasores, que tem 15 anos de carreira no punk rock, tocando ao vivo na cidade deles. Eu sinto que este pessoal realmente dá mais valor as coisas feitas com sangue e garra e não se apegam muito aos modismos. Claro, tô falando do pessoal que curte mais o punk rock mesmo. O que você falaria pra este pessoal que não tem a chance de ver a sua banda tocando ao vivo?
Ariel: Você pega uma banda como o Devotos, toda a influência deles é punk rock nacional antigo. Teve até um pessoal lá de Pernambuco amigo deles que ficou em casa, eles não conhecem nada de som gringo. Eu mostrei vários clássicos de punk inglês pra eles e eles não conheciam. Mas quando eu mostrava um Sub, um punk nacional, eles cantavam as músicas todas! É aquilo que eu disse, falta mais aquela união hoje em dia. Eu procuro fugir deste lance de querer fazer as coisas individualmente e pensar "foda-se as outras bandas". Sempre procuro me relacionar com novas bandas e tal. Outro dia mesmo tocamos num show na Lapa, com uma banda chamada White Frogs, que teoricamente fazem um som que não tem nada a ver com o nosso, mas todo mundo curtiu o som dos caras. Como também já tocamos com Holy Tree, Blind Pigs e todo mundo adorou. Se as pessoas forem aos shows com a mente livre de preconceitos vão curtir e vão ser feliz. Falando de shows em outras regiões, a gente teve uma proposta pra tocar naquele festival Pé No Rock (Pernambuco no Rock). Iriam Invasores, Gritando HC e Ação Direta, daqui de São Paulo. Mas daí ficou inviável pros caras da organização. Acho que alguém meteu muita grana no bolso e melou todo o esquema. E também o Garotos Podres estava naquela mesma época tocando em Fortaleza. Eles resolveram então puxar o Garotos pro Recife, suprindo a necessidade deles e deixaram a gente a ver navios.

Portal: Gostaria de deixar o espaço do site agora pra você passar alguma mensagem ou um recado para os fãs que curtem o som da banda.
Ariel: Eu acho que a proposta inicial do punk tem que voltar à cena hoje em dia. Até mesmo as bandas deveriam se unir mais pra fazer as coisas e não buscar fazer tudo sozinho. Queria que as pessoas fossem mais aos shows também, porque a cena punk mesmo não tem muito espaço nas casas noturnas. Elas preferem apoiar estilos que teoricamente lhes garantem mais dinheiro. Mas tem outras casas que estão aparecendo, baixando seus preços de ingressos e começando a privilegiar a cena em geral. E também estou vendo que todos os dias uma enxurrada de novas bandas estão aparecendo e eu vejo isso de uma forma muito legal, pois significa que a semente está germinando. Obrigado!




Para maiores informações acessem o site oficial do Invasores de Cérebros

Marcio Faveri - da redação

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