Entrevista - Lambrusco Kids
26/08/2002 - São Paulo - SP

O Portal do Rock traz para vocês uma super entrevista com a banda paulistana Lambrusco Kids, que está agitando a cena independente brasileira, com seu som original e marcante, muito influenciado pelo punk rock 77.

A banda foi formada em 1999 e desde então seu nome tem sido sempre cotado entre as grandes revelações da cena rock independente nacional.

Portal: Vamos começar apresentando a banda, quem são os integrantes e quando resolveram se juntar para fazer um som?
Marcio: A banda é formada por Luiz (baixo), Marcelo (guitarra), Marcio (vocal) e Paulo (bateria). A gente teve a idéia de montar uma banda para tocar covers de bandas que a gente curte, como Buzzcocks, Cock Sparrer, Rezillos, Sex Pistols, The Clash, Ramones, Toy Dolls, entre outras. Isso rolou em 1999. Logo estávamos compondo nossas próprias músicas e já usando o nome Lambrusco Kids. Mas no começo ninguém pensavam em nada sério, era só diversão mesmo.
Luiz: Eu entrei por último na banda, eu tinha uma banda com o Marcelo, o Paulo e o Zé que se chamava Engradados, essa banda terminou quando o Zé foi embora pra Espanha. Fui expulso uma vez do Lambrusco por mal comportamento mas depois voltei, deve ser porque os caras gostam de mim pois continuo sendo muito chato.
  Portal: Quais são as influências do Lambrusco Kids? E por que resolveram compor em português?
Marcio: Como banda temos várias influências. Claro que cada integrante da banda tem suas preferências. Podemos dizer que no Lambrusco Kids existe democracia total neste lance de estilo musical. Cada um ouve o que quer. A banda faz um som próprio e original. Classificar nosso som disso ou daquilo é menosprezar nosso trabalho. Mas é evidente que nosso som é influenciado pelo punk rock clássico, do final de 70, começo de 80, só que com arranjos e pegadas mais elaborados. Mas sem essa de rótulos!
Luiz: As influências musicais da banda ficam realmente entre o que o Marcio falou, eu gosto muito de bandas como Clash, Buzzcocks, Undertones, Ramones e outras que representam o chamado punk rock, mas na verdade eu não gosto especificamente de “punk”, ouço o que eu bem entender, desde Elvis até Slayer. Quanto às músicas serem em português eu não me lembro se chegamos a discutir isso alguma vez, mas eu acho mais legal que sejam na nossa língua mesmo.

Portal: Como tá sendo a divulgação desse CD que vocês acabaram de lançar, o "In Vino Veritas"?
Marcio: Está sendo bem legal, tinha muita gente esperando o disco, gente que nem nós imaginávamos, de todos os cantos do país! Nossos mp3 sempre foram bem baixados no nosso site e agora com o CD à venda, a galera está procurando saber como e onde comprá-lo. Nos nossos shows a gente sempre vende o CD e a procura está bem legal. Quanto à crítica, recebemos bons comentários sobre nosso disco, de sites, jornais e revistas especializados, mas na verdade isso nem conta muito, o que vale é a molecada curtir nosso som e ir ao show cantar com a gente!
Portal: As letras de vocês falam sobre coisas do cotidiano, mas também não deixam de abordar assuntos políticos, como o terrorismo (aliás, esse é o nome da faixa 12 do cd). Vocês acham que é possível fazer um punk rock abordando vários assuntos, ao invés de se prender a um único tema (por exemplo,punk político)?
Marcelo: Sim, aliás não temos a preocupação de compor "letras politizadas"!! Atualmente a violência, corrupção, injustiças sociais já fazem parte do cotidiano das pessoas. Abordar alguns desses assuntos em algumas composições é perfeitamente normal. A música "Terrorismo" foi idealizada no ano passado após todos aqueles acontecimentos. Nossa preocupação maior é poder compor sem nenhum vínculo com temas específicos. Essa história de "punk político" é uma grande besteira.
 
Cenas da gravação do videoclipe da banda
Luiz: Se prender a um único tema seria péssimo para o Lambrusco, principalmente se esse tema fosse política, seria horrível ter um público que sempre esperasse um certo tipo de música da banda, perderíamos a liberdade de compor. Quando componho eu nunca penso “vou fazer uma música sobre religião” ou “política”, os assuntos sempre surgem casualmente, pode ser uma notícia, algum acontecimento na minha vida, alguma alucinação... qualquer coisa pode virar música.

Portal: O que vcs acham dessa nova onda de bandas street punk que estão surgindo no Brasil, acompanhando os passos do que está rolando nos EUA e EUROPA, onde as bandas deste estilo estão conquistando definitivamente a cabeça da galera? Parece que foram vcs que recomeçaram com este novo estilo por aqui não?
Marcelo: Não gostaríamos de ser rotulados como isso ou aquilo. Nossa única preocupação é fazer um som que nos agrade, logicamente temos nossas influências mas até aí isso não quer dizer nada.
Marcio: Este lance de "street punk" é na verdade um termo que estão usando aqui no Brasil pra classificar aquelas bandas que fazem um som punk rock mais "raiz", podemos assim dizer. Aquele som sem compromisso, que fala de amigos, bebedeira, curtição e baladas! Sei lá, tem bandas lá fora que são classificadas assim também, como o Dropkick Murphys, Cock Sparrer, Roger Miret & Disasters, a banda nova do Lars do Rancid, etc. Mas não queremos levantar bandeira nenhuma, porque todo movimento acaba virando um partido e de partido já estamos cheios!
Luiz: Detesto ser rotulado de qualquer coisa, sou só um cara que toca baixo em uma banda, tenho minhas convicções políticas, religiosas e até musicais, mas não faço questão nenhuma de compartilhar isso com ninguém. Não faço parte de nenhum movimento.
Gravação com U.K. Subs e Show
com Peter Bywaters
  Portal: Vcs estão preparando o primeiro videoclipe da banda. De qual música vai ser, como e onde foram as gravações e qual a intenção da banda com o clipe?
Marcio: Estamos sim. É o clipe da música "Pra DP", primeira faixa do CD. Fizemos as gravações na cidade de Leme, interior de SP. Tivemos o apoio da TV Leme e da Produtora Quixote, que foi muito importante pra gente realizar as cenas durante um show que fizemos lá e outras cenas de estúdio e locações. A produção e direção ficoi por conta de um amigo dos tempos de moleque, o Ernane Carvalho, lá de Leme. O clipe ficou bem legal, à altura da música, que também é uma das nossas melhores. Queremos com este clipe divulgar mais a banda, numa mídia que é a TV, que chega mais rapidamente na casa e na mente das pessoas.
Portal: O que vocês acham da cena underground atualmente? Vocês acham possível levar uma banda à frente mesmo sendo independente?
Marcio: A cena está crescendo bastante. Várias bandas aparecendo todos os dias, mas ainda falta organização nas casas onde essas bandas se apresentam, que na maioria das vezes são gerenciadas por pessoas de fora da cena, que só querem lucrar às custas das bandas. Quando tivermos um maior número de casas para shows com estrutura decente, teremos com certeza o domínio das bandas independentes no Brasil. Os selos já estão se estruturando e se especializando. Logo o underground engole o main stream!
Marcelo: No nosso caso com extremas limitações sim. Todos somos profissionais formados e com os nosso ganhos pudemos nos manter até hoje.
Luiz: Eu só toco por realmente gostar, o dinheiro que ganhamos fazendo shows não chega nem a pagar a gasolina e a cerveja, isso quando ganhamos alguma coisa. Só conseguimos levar a banda pra frente pois temos empregos e não dependemos de música pra viver, as casas de show podiam dar um apoio melhor para as bandas independentes.
Paulo: Concordo com todos, mas hoje vejo várias casas abrindo, em vários lugares, vemos mais casas e mais shows, a única coisa que me incomoda bastante é o fato de ganharmos pouco, ou nada, ...Se existe essas casas, esse comercio é porque elas todas ganham dinheiro e pra onde vai todo esse dinheiro?? O que é feito? Porque as bandas em sua maioria não recebe para tocar nesses lugares? Parece até que é um favor que a casa faz para nós... e nossos amigos vão para nos ver nossas namoradas e mulheres, todos consomem... faça uma conta rápida, se cada um da banda levar 2 pessoas, mais a namorada e cada um gastar 10 Reais (que é muito abaixo do que normalmente se gasta nesses bares) teremos então com uma banda de 4 integrantes um total de 16 pessoas = 160,00, isso sem fazer muita força, e cadê essa grana??? Porque pelo menos a metade não vem para a banda?? Que seja uma ajuda de custo de 80 Reais, cara é o mínimo que as casas deveriam fazer, valorizar o cara que tá gastando seu tempo e dinheiro para manter o bolso dele cheio. E as que cobram couver e nem repassam para as bandas. Essa mudança deve partir das bandas e não aceitar mais tocar por cerveja e por nada. Se todos fizerem isso, os bares e casas noturnas terão que pagar este mínimo para as bandas. E finalmente quando as bandas forem valorizadas, os donos destas casas se preocuparem em divulgar bem um show para ter mais público e assim tudo melhora. Sei que é uma utopia mas vale tentarmos mudar essa cena.
Portal: Qual a opinião de vocês sobre bandas que saíram do underground e assinaram com uma gravadora?
Marcelo: Talvez minha resposta crie controvérsias. É muito fácil criticar as bandas independentes que por algum motivo assinaram com gravadoras. Não conheço ainda tão bem a estrutura de selos independentes lá fora...o que posso dizer é que tudo o que fizemos até hoje saiu do nosso bolso, absolutamente tudo... chega uma hora onde a nossa maior preocupação é poder gravar um CD com melhores equipamentos e melhores condições técnicas e isso só é possível no Brasil gastando muito (o que não podemos mais) ou procurar alguma estrutura que possibilite isso, no caso uma gravadora. Não entendo porque as bandas que são independentes e uma hora conseguem após muita batalha conquistar essa condição são taxadas de vendidos e traidores!!! Traidores do que? Existe alguma cooperativa ou sindicato dos músicos punk rock que colaboram com as bandas? Eu desconheço. Ao invés das críticas as pessoas deviam se preocupar em melhorar a situação para as bandas de rock em geral, deveriam haver mais casas para as bandas independentes tocar, melhor divulgação e venda de CDs, mais público, melhores equipamentos e estrutura para os shows, dai quem sabe nunca houvesse a necessidade das bandas "undergrounds" procurarem as grandes gravadoras.
 
Gravando com Agnostic Front e Chris Skepis

Luiz: Acho ótimo que algumas bandas saídas do underground tenham conseguido assinar contratos com gravadoras, é um reconhecimento e uma recompensa por anos de trabalho. É bem melhor que ver filhinhos de cantores sertanejos, filhos de empresários e outras personalidades, que fazem qualquer porcaria parecida com música, vendendo milhares de CDs e tocando no rádio toda hora só porque tiveram um “empurrãozinho” em algum momento da carreira.

Portal: E sobre aqueles que fazem sucesso lá fora (EUA), mas continuam sendo independentes?
Marcelo: É outra história, outra realidade. Nunca poderemos comparar a terra do rock com a terra do samba.
Luiz: A realidade brasileira é muito diferente da realidade dos EUA, como uma banda pode viver só de música aqui no Brasil e ser totalmente independente se aqui as pessoas não tem 5 reais pra ir a um show ou 10 reais pra comprar um CD? Como é que uma banda pode viver exclusivamente de música sem ganhar dinheiro com shows, CDs e artigos promocionais? Não consigo acreditar que as bandas independentes americanas vivam em baixo de pontes, procurem comida no lixo, peçam esmolas e façam seus instrumentos manualmente porque não têm grana nem pra comprar uma palheta, quanto mais uma guitarra. Ora, de alguma maneira eles ganham dinheiro, se conseguem se manter exclusivamente da música e são independentes é porquê a cena underground do tio Sam no mínimo não é tão “underground” quanto a nossa.
  Portal: Vocês já têm novas músicas prontas ou já pensam em um próximo disco? Falem também das participações em CDs tributos que o LK está fazendo.
Marcelo: Nunca deixamos de compor. Se desse gravaríamos um CD por mês!!!
Marcio: Temos outras músicas prontas sim e estamos sempre pensando em novos sons. Quanto aos tributos, vamos participar do CD Punk Rock Classics - Volume 1, que vai sair pela Ataque Frontal, para o qual gravamos quatro músicas: “Stranglehold”, do UK Subs (com a participação de Nick Garrat, guitarrista do UK Subs), “Where Are They Now”, do Cock Sparrer (com as participações de Chris Skepis, ex-guitarrista do Cock Sparrer e Roger Miret e Vinny Stigma, do Agnostic Front), “What do I Get”, do Buzzcocks, “Banned from The Pubs”, do Peter & Test Tube Babies (com participação de Peter Bywaters no vocal). Também gravamos a música “Eu Não Gosto Do Governo”, para o CD Tributo Garotos Podres que será lançado pelo selo Rotten Records ainda este ano. Devemos também entrar no CD “Rock and Roll Radio”, que é o tributo brasileiro ao Ramones, que deve finalmente ser lançado neste ano pelo selo Ataque Frontal. Provavelmente vamos entrar com a música “Suzy Is A Headbanger”.
Portal: Chegamos ao final dessa entrevista. Sucesso ao Lambrusco Kids! Este espaço é reservado para recados, contatos, agradecimentos...
Marcio: Agradecemos a todos que nos dão força, que compraram nosso CD, que vão ao nosso show e agitam bastante, principalmente agradecemos às pessoas que vêm falar com a gente nos shows (isso é muito legal!). Entrem em contato conosco! Visitem nosso site e fiquem por dentro do que rola com o Lambrusco Kids! Valeu!
Paulo: Acho que se estamos caminhando e estamos chegando em algum lugar é pela nosso esforço e gás, mas temos o dever de sempre lembrar de quem nos ajuda e que de alguma maneira fizeram parte de nosso trabalho. Agradecemos ao Renato Martins do selo Ataque Frontal, ao pessoal da 89 FM, Focka (Subjazz) , Ernane Carvalho e galera da TV Leme, Punknet, Zona Punk, Portal do Rock, Estúdio AD Road, Estúdio Mr. Som, todas as bandas e pessoas que nos chamaram para participar de gravações e tributos, especialmente à banda Holly Tree e a todos que compram nosso CD e vão aos nossos shows, VALEU MESMO!!!!
Luiz: Gostaria de mandar um recado para os extraterrestres em geral, se estiverem lendo esse artigo por favor me concedam superpoderes para combater o crime, sei que tenho potencial para ser o próximo Ultraman, aceito ser o Robô-gigante também ou pelo menos receber o relógio para dar ordens pra ele. Só não gostaria de ser o Jaspion ou fazer parte dos power-rangers, porque eu os acho muito chatos.

Nini - especial para o Portal do Rock

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