Entrevista Exclusiva
20/03/2001 - São Paulo -SP

Esta entrevista foi feita com o maior prazer. Primeiro porque sou fã da banda desde quando comecei a curtir punk rock, há mais de 15 anos. Segundo, porque foi feita no SESC Pompéia, local muito importante na história do punk rock nacional, pois foi lá que aconteceu o primeiro festival O Começo do Fim do Mundo, com as principais bandas punks brasileiras do começo da década de 80.

Porque no SESC? Simples, porque nossa entrevista rolou minutos antes da banda se apresentar no palco do programa Musikaos da TV Cultura, comandado pelo Gastão e com Clemente (Inocentes) na produção.

Esta apresentação no Musikaos faz parte de uma semana muito agitada para a banda Lurkers, que toca neste mês de março em Curitiba (22), Campinas (23) e São Paulo (24).

A banda é formada por Arturo Bassick (baixo/vocal), Damon Waters (bateria) e Rabid Kemp (guitarra). Detalhes: Arturo é um Lurker original, que está com a banda desde os primeiros shows. Já o batera Damon, tem apenas 23 anos de idade e é sobrinho do primeiro baterista da banda, chamado Manic Esso. O guitarrista Rabid, também é da nova safra de integrantes da banda e por incrível que pareça, é cunhado de Pete Stride, fundador e primeiro guitarrista da banda. Esta formação atual da banda se deu em meados de 1998, quando Arturo se mudou para uma cidadezinha de 100 mil habitantes, chamada Lincoln, que fica a 200 quilômetros de Londres.

 
Vamos logo ao que interessa, a entrevista com The Lurkers.

Portal: Quem foram os verdadeiros fundadores da banda? Aqueles que tiveram a idéia de se juntar e formar a banda?
 
 
 
 

Arturo: A idéia de montar a banda partiu de Pete Stride (guitarra) e do baterista Esso, cujo verdadeiro nome era Pete Haynes na época. Isso foi em 1976. Eu também estou na banda desde os primeiros shows e primeiras gravações. A banda teve um primeiro baixista que foi Nigel Moore, mas ele só tocou em dois shows e depois eu assumi o baixo. Mais tarde, eu tive que sair e entrou um cara que tocava no The Saints, depois Nigel Moore voltou à banda novamente e agora desde 1983 eu sou o baixista da banda. Eu também participei dos dois primeiros singles gravados pelo Lurkers, que foram "Shadow" e "Freak Show".

Portal: Como é o relacionamento da banda com a cena punk inglesa de hoje?

Arturo: A cena punk inglesa não é tão ativa e grande como em outros países da Europa, mas nosso relacionamento com os punks é bom. Gostamos de estar sempre sintonizados com eles e pensamos como uma família. Mas nos últimos anos está acontecendo um fato curioso, os novos punks ingleses não conhecem o Lurkers e nós também não conhecemos os novos punks. Hoje o movimento punk está muito mais "undergound" do que era nos velhos tempos. Os punks estão misturados com outros caras e curtindo bandas americanas, como Green Day, Offspring, Rancid, etc.. Não que nos velhos tempos a gente não curtisse as bandas americanas, mas as bandas daquela época eram Ramones, Iggy Pop, New York Dolls, etc. Quanto às bandas americanas atuais, não quero dizer que elas são ruins, mas elas não tem nada a ver com o punk inglês.

Portal: Saiu alguns comentários na imprensa inglesa dizendo que no começo da carreira da banda vocês tiveram problemas para marcar shows, pois os skinheads apareciam em todos os seus shows e quebravam tudo. Isso é verdade? E hoje, eles vão aos shows?

Arturo: "It´s bullshit". Quem disse isso faltou com a verdade. Teve ter sido o pessoal da revista New Musical Express, que também adora exagerar. O que houve é que em uns três ou quatro shows, em 1978 e 1979, os skinheads vieram em peso e ocorreram alguns incidentes. Mas nada grave. No começo da década de 80 foi o auge do movimento skinhead em Londres e eles estavam por toda parte. Eles gostam até do Toy Dolls, que não tem nada a ver com ideais fascistas e nazistas. Hoje nem tem mais skinheads em Londres. Em outros países da Europa pode até rolar algum problema.
 
 
 
 
 
 

Portal: Vocês apenas tocam na banda ou vocês têm algum outro tipo de emprego? Ou seja, vocês conseguem sobreviver da banda?

Arturo: Eu tenho um outro emprego. Toco no 999 (outra lenda do punk inglês) e toco em outras duas bandas na minha cidade (Lincoln). Você acha que dá tempo para fazer outra coisa? Eu vivo do rock!

Portal: E os outros integrantes?

Lurkers: Nós também tocamos em outras bandas.

Portal: Além deste CD que vocês vão gravar ao vivo em São Paulo nesta turnê, vocês têm planos para um novo CD, com músicas inéditas, a ser lançado em breve?

Arturo: Não tão breve, mas acredito que até o final do ano estaremos com CD novo, pronto para ser lançado. Mas ainda não temos certeza. A gente tem muita preguiça. Estamos sempre adiando o novo CD e acaba sempre ficando para depois.

Portal: Mas vocês têm alguma música inédita que deve fazer parte deste CD ao vivo em São Paulo?

Arturo: Claro, vamos tocar algumas músicas inéditas, como "Misery", que fala sobre pessoas que são sempre miseráveis e que sempre querem te ver para baixo, pessoas muito negativas. Também vamos gravar "Go Ahead Punk, Make My Day", que já lançamos em single e agora vamos incluir neste CD ao vivo. Esta música fala sobre Dirty Harry (personagem clássico do cinema, interpretado por Clint Eastwood). Ele não queria que a gente continuasse tocando punk rock e enchia o saco para a gente mudar de estilo. É pura sacanagem!

Portal: Vamos falar um pouco sobre os fundadores e principais compositores da banda, Pete Stride e John Plan. Vocês têm notícias deles? O que eles fazem hoje em dia?

Arturo: Pete Stride deixou o Lurkers há uns oito anos e desde então nunca mais tocou com ninguém, nem de brincadeira. Ele está meio estranho, meio recluso. Não quer saber de nada e ninguém. (isto é verdade pois até o cunhado dele, atual guitarrista da banda, disse desconhecer o paradeiro de Pete Stride). John Plan tem trabalhado em sua carreira solo, gravando alguns CDs. Ele também trabalhou muito com o Die Toten Hosen (banda punk alemã) e com a banda que ele formou chamada Cry Babies. John está sempre fazendo algo na música.

Portal: E sobre as bandas brasileiras? Vocês conhecem ou gostam de alguma banda em especial?

Arturo: Quando tocamos aqui cinco anos atrás eu comprei alguns CDs, mas não consigo lembrar o nome de nenhuma banda, o que é uma pena. Temos apenas uma vaga idéia sobre o punk rock brasileiro. A gente conhece o Sepultura (claro!), mas eles não são punks. O problema é que os punks ingleses são muito fiéis às bandas inglesas. Até mesmo o Die Toten Hosen que é da Alemanha e lota estádios por lá, não quer dizer nada na Inglaterra. Imagine as bandas brasileiras! Este é um defeito que temos. Precisamos nos abrir mais. Somos muito ligados também no punk rock americano e só.

  Portal: O que os fãs podem esperar dos shows do Lurkers no Brasil?

Arturo: Puro punk rock no melhor estilo 1977. Não vamos plantar bananeira ou fazer show pirotécnico para chamar a atenção no palco. Vamos subir e detonar o melhor punk rock que conhecemos.
 
 
 
Portal: E os fãs estão convidados a subirem no palco e darem seus moshes mesmo durante a gravação do CD ao vivo?

Arturo: Claro. Desde que não nos atrapalhem e que não se machuquem ou quebre a aparelhagem. Não podemos simplesmente dizer "não subam aqui". Isto seria loucura ou o mesmo que dizer "subam aqui".

Damon: Todo dia acontecem coisas imprevisíveis em nossas vidas. Portanto, temos que estar preparados para tudo.
Bate-Papo Punk

Arturo disse ainda que adora a banda Cock Sparrer e The Crack. Disse que ano passado ele foi em um show do Cock Sparrer em Londres, acompanhado de seus dois cães. O pessoal da segurança disse que ele não poderia subir no palco com os cães, mas quando o Cock Sparrer começou a tocar a música "Sunday Stripper", ele entrou no palco vestido com a mesma roupa de seus cães, ou seja, só com uma coleira em seu pescoço. Foi muito engraçado!
 
 
 
 
 

Ainda sobre o Cock Sparrer, Arturo disse que Mickey Beaufoy, guitarrista, saiu da banda e montou uma banda chamada Argy Bargy (nome de uma grande música do Cock Sparrer).

O baterista Damon Waters comentou que curte algumas bandas americanas como Rancid e NOFX. Disse ainda que alguns anos atrás Arturo montou uma banda "hillbilly" com outros caras "fortes" (para não dizer gordos) como ele, fazendo um som do tipo caipira inglês, mas com uma levada bem rápida. Mas ele logo desistiu deste estilo e voltou ao bom e velho punk rock. Damon disse também que às vezes toca em uma banda que faz bailes, casamentos, aniversários, etc., para faturar uma grana. Mas nada a ver com punk rock. Ele é a cara do Paul McCartney dos Beattles e é também muito parecido com seu tio Esso, primeiro baterista do Lurkers. Ele estava meio nervoso, pois era o primeiro programa de televisão (Musikaos) que ele estava fazendo. Damon tem apenas 23 anos. Essa foi a primeira vez que ele saiu de seu país em toda a sua vida e a primeira vez que ele voou de avião também. Ou seja, cabaço total! Mas na apresentação do Musikaos, provou ser tão bom quanto seu tio e detonou à frente da batera e também no backing vocal.

Ao final deste encontro, fomos presenteados por Arturo com um single da música "Go Ahead Punk, Make My Day", gravada em um compact disc de vinil. Mas a melhor surpresa foi o b-side deste single, a música "Lucky John", que é um dos melhores punk rocks que eu já ouvi em toda minha vida. Neste compact disc, Arturo tocou baixo, guitarras, vocal e compôs as duas músicas. Damon ajudou na bateria. Amigos, quem perder o show destes caras, não poderá perder o CD ao vivo, que sairá em breve. Valeu!

Marcio Faveri - da redação

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