Entrevista: Adriano Coelho - Revista Rock Brigade
São Paulo - Janeiro de 2003

O Portal do Rock traz para vocês uma entrevista com Adriano Coelho, fotógrafo oficial, responsável pela publicidade e mascote da Revista Rock Brigade, a maior publicação sobre rock do Brasil.



Fundada em 1981 como um fã-clube de heavy metal (virou fanzine em 1982), a Rock Brigade virou revista mensal na segunda metade dos anos 80, quando também fundou sua subdivisão mais ativa, a Rock Brigade Records, que já lançou mais de 350 títulos de discos no mercado brasileiro. No início da década de 90, a revista alcançou a marca dos 60 mil exemplares mensais, sendo distribuída em todas as bancas dos quatro cantos do país. Em Portugal, apesar de um pequeno atraso em relação ao lançamento brasileiro, a revista Rock Brigade também chega mensalmente nas bancas do país inteiro. Devido ao seu caráter universal e internacional, a revista pode ser encontrada também em lojas de produtos importados do Japão, Alemanha, Itália, França, Estados Unidos e Argentina, para onde são enviadas quantidades fixas todo mês.

Esta entrevista também é uma homenagem e um reconhecimento do Portal do Rock a esta revista que é cada vez mais fundamental para aqueles que querem ficar por dentro de tudo que rola no mundo do rock!!!

Portal: Nestes três anos de revista que você tem, o que você poderia dizer que encontrou quando entrou na Brigade e o que você gostaria de fazer na revista que não tenha conseguido fazer até agora?
Adriano: Quando eu entrei a Rock Brigade já tinha evoluído muito, pois como você bem sabe ela começou como um fanzine nos anos 80 e de 1991 pra cá ela vem crescendo muito. De 2001 pra cá ela começou a sair totalmente colorida. De uns 10 anos pra cá a revista começou a destacar também bandas punks, sendo que a Brigade sempre teve uma forte ligação com o metal. Quando eu entrei pra revista eu tinha uma vontade de deixar ela com uma cara mais eclética. Você pode ver que não tem um show punk que a gente não cubra. Raves góticas a gente está cobrindo, rockabilly, progressivo, etc. Hoje a gente está mais aberto aos demais estilos dentro do rock, inclusive tem uma parte da revista onde a gente cita até discos de rap, reggae e música eletrônica. Também começamos a fazer matérias sobre skate, casas noturnas, tatuagem, que foram idéias minhas e que foram bem acolhidas na revista.

Portal: O que a revista traz de benefícios para a cena rock brasileira? A gente sabe que na revista tem muito enfoque nas bandas gringas, mesmo porque dentro do metal são poucas bandas brasileiras que alcançam um relativo sucesso.
Adriano: Uma vez o Rafael do Angra disse assim: "o brasileiro só dá valor a banda brasileira quando faz sucesso lá fora". O Sepultura, Angra e Krisiun tiveram que estourar lá fora pra começar a serem conhecidas no Brasil. Ao passo que bandas lendárias como Korzus e Dr. Sin, como no punk temos o Ratos de Porão e Cólera, que também só depois que deram um pulinho na Europa começaram a ser valorizadas aqui no Brasil.

Portal: Mas você acha que tem por exemplo chance de um retorno à cena de bandas como o Korzus, que está gravando seu novo disco agora?
Adriano: A Rock Brigade nunca deixou de entrevistar estas bandas. Na revista temos uma seção que se chama Up Coming, que fala exatamente das bandas nacionais novas. E estamos abrindo uma seção nova que fala da cena, por exemplo da cena de Campinas, de Manaus, de Goiás, etc., pra que as pessoas possam ter uma idéia do que está rolando na cena nacional como um todo.

Portal: Aqui no Portal a gente recebe muitos e-mails dos internautas, com perguntas, críticas, elogios, etc. Vocês devem também receber muitas cartas e tal. Como é o relacionamento da revista com os leitores e quais são os mais apaixonados pelo rock? Os dos grandes centros ou aqueles do interior do país?
 

Adriano: É fácil ser roqueiro em São Paulo, Rio, BH, Porto Alegre, etc. Mas quando o cara é roqueiro no Acre, a gente até se emociona. Quando o cara curte black metal no interior de Goiás é uma coisa de tirar o chapéu! Então a gente tem que dar valor pra estas pessoas.

Portal: Como nós também trampamos na mesma área que é o mundo do rock, vivemos tendo decepções com bandas, ídolos, que muitas vezes pensamos que são demais, mas quando chegamos para uma entrevista ou matéria, percebemos que não é nada daquilo. Já rolou isso com você alguma vez?
Adriano: Olha, o Yngwie Malmsteen é um bosta! Quando ele veio pra cá eu tive vontade de dar umas porradas na cara dele. Ele desprezou o Ricardo Franzin, que é nosso jornalista, de um super gabarito. Falou mal da comida brasileira, dizendo que as churrascarias no Brasil são todas ruim. Fez uma tarde de autógrafos no Manifesto Bar, chegou tarde, tinha uma puta galera, ele deu seis autógrafos e saiu fora! O cara é desumano! Ele já foi eleito o cara mais mal amado e infeliz pela revista.

Portal: Hoje em dia as grades casas de show do país como Credicard Hall, Olympia, Via Funchal, ATL Hall, etc., se tornaram verdadeiros templos dos maiores shows de rock já vistos no Brasil. Isso vai contra aquela tese que diz que rock é coisa de periferia, de garagem, fadado a ficar marginalizado na sociedade. Você acha que isso é uma vitória do rock no Brasil neste milênio?
Adriano: Claro, a prova é que os maiores shows de público no Credicard Hall foram Sepultura, Korn, Bad Religion e Red Hot Chili Peppers. E todas bandas pesadas! Inclusive nos shows de rock é onde menos saem brigas. A galera vai pra curtir a banda, tomar umas, paquerar as minas e tal.

  Portal: O rock já conseguiu romper várias fronteiras: revista, rádio e internet. Você acha que a TV é a próxima fronteira a ser rompida pelo rock? Porque na verdade o que se vê hoje na TV é um espaço muito reduzido e restrito ao rock.
Adriano: Realmente na TV está faltando apoio. Por exemplo, o Riff da MTV, de uma hora de programa passou agora pra meia hora. O Musikaos infelizmente passa num canal pouco assistido que é a TV Cultura. Mas eu acho também que a adoção do rock pela TV tem limites. Não consigo imaginar o rock em alguns programas do SBT, da Record ou da Globo, ficaria coisa comercial demais.

Portal: Qual o problema em ser comercial?
Adriano: Eu acho que tem limites. Ser comercial cantando no Serginho Groissman é uma coisa, cantando na Xuxa é outra. Você já imaginou uma banda de rock tocando no Gugu ou no Faustão? Nada a ver né!

Portal: Então se você visse o Iron Maiden tocando no Faustão você ficaria decepcionado e não compraria mais os CDs dos caras?
Adriano: Não que não compre o CD, mas ficaria estranho. Nem tanto pelo Iron, que é uma banda clássica. Mas por exemplo o Shelter tocando no Faustão não teria nada a ver, mas já no Altas-Horas rolaria legal, entende?

Portal: Mas o ideal do rock não é conquistar novos horizontes e passar a mensagem para o maior número de pessoas possíveis? Não está aí um certo preconceito da parte dos roqueiros com estes programas de TV também?
Adriano: Não, levar bandas como RDP, Sepultura, Inocentes, etc., em programas como Altas-Horas, Programa do Jô, até vai porque são programas intelectualizados. Não é aquela coisa falsa e maquiada do programa do Faustão por exemplo.

Portal: Isso é preconceito!
Adriano: Se o rock é forte há 50 anos, é porque ele teve sempre um pé atrás com a mídia.

Portal: Você não acha que um canal como a MTV, que fica repetindo um milhão de vezes aqueles programas, que na maioria das vezes nem tem muito a ver com música, deveria abrir espaço para novos talentos, como por exemplo fazer um programa para bandas novas, mandando um som ao vivo? Em vez de ficarem fazendo caça-vjs, eles não deveriam dar valor a músicos e jornalistas que realmente entendem de música e rock? Sei lá, um programa de sábado ou domingo à tarde, que seja de 2 horas, falando das bandas, história das bandas, cena rock no Brasil e tal. Será que falta tanta visão assim pra estes caras?
Adriano: Na MTV quando tinha o Gastão e o Zeca Camargo era outra coisa. Quando começou este tal de Marcos Mion (faço questão que você coloque isso aí!), aquela Didi, este pessoal "moderninho" e "modinha", avacalhou tudo. Eles diziam que o Gastão era radical. Pra provar que isso é mentira, basta ver o Musikaos, vai de tudo lá, artistas plásticos, reggae, música folclórica, etc. A Penélope é a única pessoa que temos que valorizar e respeitar dentro da MTV. A coitada agora está esmagada em meia hora de programa e ela está muito sozinha. Pode até ser que este programa saia do ar do jeito que vai! A MTV não quer ajudar o rock, o underground, o independente, a cena. A MTV quer ser fashion! A Fernanda Lima não é jornalista (é gostosa!) e por aí vai! Tem uma pá de cara e mina que se mata de estudar jornalismo, faz especialização e manja de música pra cacete e eles colocam lá uns carinhas e umas minas estilo 'bonitinhos e moderninhos'. Então a Penélope pra mim hoje é símbolo da MTV.

Portal: Bom, a gente agradece suas palavras e deixa um espaço para seus comentários finais.
Adriano: Agradeço pela oportunidade, o Portal do Rock é um grande parceiro da Rock Brigade e um grande veículo para o crescimento e fortalecimento do rock and roll! Valeu!

Para maiores informações escrevam para: adriano@portaldorock.com.br

Marcio Faveri - da redação



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