Entrevista
Coletiva - Sepultura
02/03/2001 - Rock Bar Café - São Paulo -SP
A
banda de metal Sepultura, orgulho do rock brasileiro, concedeu uma
entrevista coletiva, para falar sobre o novo CD da banda, chamado
Nation, que chega às lojas de todo o mundo neste mês de março. Na
coletiva, estavam presentes Igor Cavalera (bateria), Andreas Kisser
(guitarra) e Paulo Jr.(baixo). O vocalista Derrick Green não esteve
na coletiva.
O Sepultura começa a turnê do CD Nation, no dia 9 de março, nos
Estados Unidos, onde fica por cerca de 45 dias, seguindo diretamente
para a Europa, para uma grande tour por lá, devendo estar tocando
no Brasil no começo do segundo semestre deste ano, sendo que nenhum
show por aqui ainda está confirmado.
O Portal do Rock esteve cobrindo esta importante coletiva, que sem
dúvida é histórica para o metal mundial e traz
agora para vocês tudo o que rolou.
Imprensa: Com todo esta onda de funk que toma conta do país,
com bandas como Bonde do Tigrão assinando contrato com uma gravadora
como a Sony Music, este novo disco de vocês, Nation, com esta nova
concepção, tem todo um tom de protesto, politizado, uma coisa que
está meio fora de moda hoje. Gostaria que vocês comentassem isso.
Sepultura: Como sempre a gente traz um conceito bem positivo,
bem amplo, não só nas letras, nas músicas, mas também no visual
e a gente tem certeza que vai dar prá fazer muita coisa. É um CD
muito utópico, pois o disco inteiro aborda o mesmo tema, que é a
criação de uma nação utópica, um mundo onde não exista fronteiras,
um mundo sem armas, sem guerra, com um completo entendimento entre
religiões, respeito mútuo entre culturas e um lance mais ecológico
também. A gente acha que as pessoas podem viver no nível que elas
estão vivendo, mas sem destruir a natureza no ritmo em que ela vem
sendo destruída. O CD é um conceito utópico, porque nunca aconteceu
isso na história do mundo e é mais provável que nunca aconteça.
Nosso esquema foi buscar uma influência para escrever música e o
sonho de todo artista é ter uma influência, esta coisa que mexe
com você, que dirige você para fazer a música, a produzir todo o
efeito visual, capa do CD, vídeos, ou seja, uma coisa bem rica.
Não é uma tentativa de mudar o mundo, mas estamos passando uma mensagem
mais positiva.
Imprensa: Este novo conceito de alguma forma modificou o
processo de elaboração das composições?
Sepultura: Com certeza. A partir do momento que você tem
um tema, fica muito mais fácil compor. Este objetivo a gente já
tinha bem antes de começar a escrever as músicas. Então todo mundo
que se envolveu com as letras e com as músicas já estava com a idéia
básica formada na cabeça de relacionar as músicas ao tema Nation.
Tanto eu (Andreas), quanto o Derrick, como até mesmo o Igor, que
escreveu letra pela primeira vez, estava com esta imagem na cabeça
e isto ajudou bastante a gente a direcionar o trabalho para um objetivo
fixo.
Imprensa: Com relação às vinhetas entre as músicas do CD,
gostaria que vocês falassem sobre isso.
Sepultura: Estas vinhetas que estarão na versão original
do CD são quatro frases, uma do Albert Einstein, uma da Madre Teresa
de Calcutá, uma do Mahatma Gandhi e outra do Dalai Lama, que falam
dos diferentes aspectos desta ideologia do Nation. O legal também
é que as frases estão na língua original de cada uma destas personalidades.
Ao invés de colocar tudo em inglês, a gente achou que ficaria mais
interessante na língua original, então a gente contratou pessoas
que falam as línguas e as vinhetas foram gravadas no original, ficando
até bem legal musicalmente, pois é uma coisa totalmente diferente.
Imprensa: Toda esta idéia do Nation é bem legal do ponto
de vista teórico, mas na prática, como é ficam as ações da banda?
Vai ter alguma ação prática para tentar mudar o mundo ou o conceito
fica mesmo na área musical, sem ação prática? |
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Sepultura:
É mais musical mesmo. A gente não tem intenção nenhuma de
mudar o mundo. O mundo do jeito que a gente sonha só será
possível depois de uma guerra mundial mesmo, porque hoje em
dia é impossível todo mundo ter uma consciência. Falta muita
informação para as pessoas e a nossa missão, enquanto músicos,
é expressar aquilo que a gente acredita e como a gente tem
esta experiência de viajar pelo mundo várias vezes,durante
cerca de 10 anos, temos uma idéia bem legal das diferentes
culturas. Mas a gente mostra isso de uma forma bem utópica
mesmo, pois este conceito do Nation nunca vai vingar, mas
é uma coisa que inspirou a gente a fazer música, o que é mais
importante para a banda. |
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Imprensa: Sobre a banda Krisiun, que está fazendo sucesso
no meio metal. Vocês acham que eles podem alcançar o mesmo mérito
do Sepultura no exterior? E a banda Angra, que está com nova formação.
Vocês acham que agora com as mudanças na banda pode dar certo?
Sepultura:
Começando pelo Krisiun, a gente acha que os "moleques" estão no
caminho certo, a começar pelo fato deles fazerem o som que eles
gostam e que tem tudo a ver com a banda. Mas ao mesmo tempo é
impossível falar se vai dar certo como o Sepultura, pois cada
banda tem o seu caminho e não existe uma fórmula para dar certo
lá fora ou aqui no Brasil. Mas é super legal este caminho que
eles estão traçando que é deles e não uma banda que vem tentar
o sucesso depois do Sepultura. Eles estão tentando independentemente
do que rolou no passado. Quanto ao Angra, é impossível falar alguma
coisa pois a gente nem sabe quem tá na banda. Pra nós é indiferente.
Imprensa: Como está sendo trabalhar com o Derrick, como
a banda se adaptou a ele e onde ele está agora?
Sepultura: Bom, o Derrick não pode estar hoje aqui porque
não conseguiu o visto para entrada no Brasil a tempo e então ele
preferiu ficar na Austrália mesmo. De lá ele viaja direto para
os EUA, onde se encontra com a gente para o começo da tour. Depois
de mais de 200 shows que a gente fez com ele com o disco Against,
começar agora um novo trabalho do zero, com as idéias dele já
incorporadas ao Sepultura, ouvindo-se o CD inteiro você percebe
claramente que a banda é outra e que está coesa novamente. Dá
para sentir bastante a diferença do que foi o Derrick no Against
e o que está sendo ele no Nation. Ele está colaborando bem mais
agora, explorando muito a voz dele. Desde o início a gente tinha
certeza que ele tinha um potencial grande para cantar e isso é
uma coisa que leva tempo até rolar. Quem teve paciência vai poder
ouvir o Derrick com outros ouvidos agora.
Imprensa: Vocês acham que o show do Rock in Rio foi crucial
para a consagração do Derrick no Sepultura, frente ao público
brasileiro?
Sepultura: A gente acha que o show foi do caralho. Tocar
para mais de 150 mil pessoas e ser recebido como a gente foi não
é para qualquer banda. Com muita luta a gente conseguiu vencer
as dificuldades, tocamos para o público brasileiro que é o que
a gente mais gosta e no final do show a gente estava bem feliz.
Imprensa: Como é que foi fazer música para cinema, no filme
"Coração dos Deuses"? E vocês tem algum projeto de partir para
esta área de cinema ou vocês pretendem fazer mais trilhas sonoras?
Sepultura: O lance do cinema é totalmente diferente do
trabalho da banda, a inspiração é outra, você se envolve muito
com a história do filme, com as imagens. No filme Coração dos
Deuses foi uma experiência muito boa, mas o sonho mesmo seria
fazer uma trilha sonora como Sepultura, com nosso som mesmo, assim
como o Queen fez. Mas a gente não tem nenhum plano agora não.
Isto aí é mais para o futuro, depende da chance e se pintar vai
ser muito bom.
Imprensa: Falando em projetos paralelos, como foi para
você (Andreas) produzir a banda Necromancia?
Sepultura: Não foi nem produção o que eu fiz. Foi mais
um lance de dar uma força para eles. Eu ia no estúdio com eles
e eles usaram nosso equipamento, o que já é 50% do caminho andado,
pois quando se tem a resposta do som é outra coisa. O lance do
vocal também eu dei alguns toques e eu também ajudei em algumas
letras. Eu tentei passar para eles um pouco da experiência de
estúdio que eu tenho, apesar deles terem alguns anos de estrada
já, mas estavam parados e as coisas mudam muito rápido. Mas eu
acho que a banda está bem legal agora. Eu não entendo porra nenhuma
de técnica mas feeling eu tenho.
Imprensa: Falando de Rock in Rio, o que vocês acham da
atitude das bandas de rock nacional que boicotaram o festival,
alegando falta de estrutura e que a organização não queria atender
o pedido das bandas, com relação a suporte de equipamento?
Sepultura: Pra gente não teve problema. Tudo o que pedimos
eles atenderam numa boa. Acho que não tem essa de pular para trás
e deixar de tocar para um puta público só porque essa ou aquela
banda está descontente. Ninguém dá guarita pra gente não. A gente
precisa de condições para fazer o show. Eles deram as condições
e a gente fez. Quanto às outras bandas, cada uma responde por
si. A gente não tem como falar por eles. E a gente também não
vai dar uma de bonzinho e apoiar um boicote deste, que ficou meio
estranho.
Imprensa: Vocês poderiam comentar alguma coisa sobre o
caso do Jason Newsted e a saída dele do Metallica?
Sepultura: Agora o Metallica virou gay de vez! O único
que segurava a bronca ali era o Jason. O Jason virou fazendeiro,
ele está em Montana (EUA), numa fazenda dele, longe de tudo. Mas
mesmo antes dele sair da banda ele já tinha falado pra gente que
ele estava saturado, que ele se sentia sufocado e que estava decidido
a sair da banda. Depois que saiu na imprensa sobre a saída dele
a gente falou com ele de novo ele estava super bem, na dele. Jason
é um cara muito criativo, que escreve muito bem e que tem uma
energia muito metal. Ele queria fazer um som mais Metallica mesmo
e por isso saiu da banda, já que o Lars e o James tem todo o monopólio
sobre o estilo da banda e sobre tudo que acontece com o Metallica.
O Jason era como um funcionário da banda.
Imprensa: Algumas pessoas comentavam que o Sepultura estava
morto. O que vocês acham?
Sepultura: O Sepultura nunca esteve morto!
Imprensa:
Claro que não mais o que vocês têm a dizer?
Sepultura: Agora é só relaxar e gozar! Vamos cair na turnê
e mostrar quem é o Sepultura.
Imprensa: Vocês gravaram um cover do Black Flag, da música
"Rise Above", que deve sair em single e também uma música da banda
de hardcore Crucifix. Muita gente está falando que o conceito
do Nation é novo, mas sabemos que os punks já queriam esta utopia
bem antes, no final da década de 70, começo da década de 80. Vocês
têm alguma influência punk? E na atitude, os ideais punks influenciam
a banda?
Sepultura: Pra caralho! Tocar estes covers é uma forma
da banda suar e fazer o que gosta quando está ensaiando. O som
punk é uma forma de canalizar para a música, toda a energia e
revolta que a gente sente. A gente resolveu gravar esses covers
para a galera saber o que a gente curte e para que nosso público
passe também a curtir essas bandas.
Imprensa: Vocês pretendem tocar esses covers nos shows?
Sepultura: Com certeza. No show tem uma hora que a gente
quer relaxar e esses covers são muito legais para isso.
Outros Pontos
A banda falou ainda sobre a amizade com o pessoal do Pavilhão
9, que já rola desde o tempo que Max Cavalera ainda era o vocal
da banda. Os caras do Pavilhão também aparecem neste novo CD Nation
da banda.
Igor falou ainda sobre o boato envolvendo ele e Axl Rose, o qual
ele prefere chamar de "Elvis Rose". Segundo Axl, o Sepultura estaria
se aproveitando do Guns para fazer polêmica. Igor disse que se
tivesse trombado Axl no Rock in Rio ia enchê-lo de porrada. De
acordo com Igor, o que rolou foi que o empresário do Guns ligou
para ele e o convidou para ser baterista do Guns & Roses. Igor
disse não e foi só.
Além das covers de "Rise Above", da banda punk Black Flag, com
Gordo dos Ratos de Porão no vocal e de uma música da banda hardcore
americana Crucifix, o Sepultura gravou também um cover do Bauhaus
(Bela Lugosi's Dead).
Perguntados se eles não temiam que o gesto na capa do novo CD,
onde aparecem punhos cerrados, não teria uma conotação nazista,
a banda disse que nem na Alemanha perguntaram isso e que não tem
nada a ver. Este gesto é um gesto de força e rebeldia somente.
A banda não descartou a hipótese de rolar um show junto com a
banda Soulfly, cujo vocalista é Max Cavalera, ex-Sepultura. Segundo
eles não haveria problema nenhum quanto a este show, pois não
tem nada a ver.
Igor disse ainda que, apesar das broncas de sua esposa, novas
tattoos devem rolar para marcar esta nova fase da banda e novo
CD.
Marcio Faveri - da redação
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