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Entrevista
com Trent Reznor (Nine Inch Nails)
Entrevista Coletiva - EUA - Janeiro/2001
Trent
Reznor, do Nine Inch Nails, passou dois anos elaborando um dos
álbuns de rock mais ricos de todos os tempos, o CD duplo The Fragile,
de 1999. Ele misturou instrumentos e sons em combinações nunca
antes testadas: utilizando caixas de papelão e correntes de bicicleta
como se fosse a bateria, pedaços de latas usados como bandolins
e sintetizadores velhos que produzem sons exóticos e saem da linha
dos instrumentos tradicionais como a guitarra e o piano, pois
esses instrumentos produzem um som meio alienígena.
Mas levando-se em conta que o álbum anterior do NIN, The Downward
Spiral de 1994, foi considerado um dos melhores álbuns dos últimos
tempos, vendendo mais de 3 milhões de cópias, The Fragile segue
o mesmo caminho, pois, em 2000, chegou a alcançar a primeira posição
da Billboard 200. Os apelos comerciais têm preocupado Reznor que,
numa recente entrevista, discutiu os padrões da cultura pop que
prefere muito mais um Kid Rock e uma Britney Spears do que uma
música emocionalmente mais trabalhada, como a sua.
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Você
acha que os apelos comerciais mudariam radicalmente o seu
trabalho?
Trent Reznor: Quando eu voltei a gravar em estúdio,
eu comecei do zero, tanto emocional como artisticamente. Eu
tive que reconstruir tudo, repensar, expandir e sair da redoma
que eu estava me enfiando. O álbum me fez refletir como um
ser humano, que tentava amadurecer e despertar. Eu estava
consciente que isso levaria um bom tempo e que o mercado poderia
mudar. Mas, quando tudo realmente aconteceu, o álbum, de cara,
já alcançou a primeira posição, mas caiu entre as cem, em
poucas semanas;e isso foi uma sensação muito estranha. |
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Eu
tive sorte com o The Downward Spiral, que causou um certo furor
na cultura pop. Agora eu não sei se eu é que estou ficando obsoleto
ou se a geração da qual eu vim não existe mais. Foi uma geração
de amantes da música que queriam algo mais profundo, que tratavam
a música como arte. Mas se você apontar uma arma para a minha
cabeça e exigir que eu diga o nome de 10 grandes bandas dos últimos
cinco anos, pode estourar os meus miolos.
A onda agora é o "descartável". Há menos pessoas que curtem música
por hobbie e muitas que querem só fazer dinheiro com ela, tratando-a
como um produto, um produto descartável. Sem querer ser pretencioso,
eu estou tentando transmitir uma arte refinada, mas estou competindo
com coisas que são projetadas para serem produtos e eu fico tremendamente
decepcionado com isso.
O que você chamou uma vez de "sensacionalismo barato" pode
ajudar a vender discos, assim como a aparência dark, sinistra
e ultrajante que você criou ao seu redor. O que fez você mudar
de idéia?
Trent Reznor: Quando lançamos o Pretty Hate Machine, eu
revelei minha intimidade às pessoas. Eu pensei comigo mesmo que
foi legal ter feito aquilo, pois ninguém iria se apegar a isso.
Foi uma maneira de interagir, mas também foi a melhor coisa que
poderia ter feio naquela época, e isso significou algo, pois foi
tudo muito verdadeiro. Consegui sucesso, o que eu não esperava
e acabei aprendendo mais sobre mim mesmo através do que foi passado
na mídia. Eu me apeguei no conceito do alter ego, ou caráter,
ou extensão do eu.
Mas, na época do Downward Spiral, os riscos foram maiores, mais
gente esteve envolvida, houve mais manchetes de revistas e criaram-se
mais boatos. Eu estava morando no Sharon Tate e tinha Marilyn
Manson a meus pés. A questão era "Como alguém poderia ser tão
deprimido?" E era o típico cara angustiado. No final da turnê
deste álbum, eu percebi que tinha sucumbido um monte de coisas
que eu nunca pensei que pudesse acontecer.
Com
o The Fragile, eu preferi pegar leve, dar um tempo e refletir
sobre quem eu era e o que eu queria fazer artisticamente. Este
é um trabalho mais maduro que mostra como eu tenho tentado crescer
como pessoa. Mas eu percebi que talvez eu tenha deixado algumas
pessoas para baixo, pois ele está mais profundo, dark e excessivamente
triste, porém, eu não fui crucificado. Foi o que aconteceu. E
isso é que eu sou hoje.
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Você
acha que o fato de tornar-se uma pessoa mais estável poderia
afetar sua capacidade de escrever músicas de rock catártico?
Trent Reznor: Houve um tempo em que eu me perguntava:
"O que aconteceria se eu encontrasse o que procuro? Será que
eu diria alguma coisa e será que teria alguma importância?''.
Mas o que eu aprendi fazendo o The Fragile é que mesmo vindo
de uma plataforma estável eu consigo criar. De certo modo,
eu me senti menos desesperado e mais livre. Nenhuma das idéias
é deprimente ou suicida. Eu readquiri confiança em mim mesmo. |
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Você
adquiriu um estilo próprio da mesma maneira que artistas como
David Bowie e Roger Waters, que fizeram álbuns que não foram tão
apreciados na época deles, mas que conquistaram prestígio com
o passar do tempo. Onde é que você acha que o The Fragile se encaixa
nessa história?
Trent Reznor: Eu iria adorar se daqui a 20 anos, um de
meus álbuns fosse cultuado como Remain in Light do Talking Heads
ou Low do Bowie. Mas, o que muda é que as músicas dos anos 70
eram vistas como arte e não como produto. Como músico, a única
coisa que eu tenho a dizer sobre isso é que o que importa para
mim é fazer música, isso me inspira e me motiva. A única coisa
que eu espero é que alguém ouça meu trabalho e diga "Que porra
é essa?". Isso seria ótimo, pois eu teria uma reação. Não é como
um simples cheeseburger.
The Fragile é um álbum que fala sobre ter disciplina para que
você vá de encontro com as partes decadentes. Tudo isso é pessoal?
Trent Reznor: O Nine Inch Nails foi um teste com a minha
disciplina. Percebi que aos 23 anos, eu realmente nunca havia
tentado nada. Eu levava a escola numa boa. Aprendi a tocar piano
sem esforço algum. Eu vivia vagabundando. Percebi que realmente
eu temia alguma coisa, talvez porque eu nunca tinha passado por
uma decepção. Eu sabia que gostava de música, mas não sabia se
o que eu faria seria bom, então, era mais fácil não fazer. E aquele
mesmo medo tomou conta de mim durante meu trabalho nesta gravação.
Após o período do The Downward Spiral, eu fiquei acabado emocionalmente.
E eu não queria encarar o fato de que se eu não tinha mais nada
a dizer. O que fazer se eu estava perdido? Então, eu tentei fugir
disso. Eu mesmo passei uma semana reorganizando meu estúdio, pois
eu estava com medo de abrir o meu caderno de anotações e ver o
que tinha dentro. Para mim, o que foi importante no The Fragile
é que nele está registrando aquele meu período de isolamento.
Eu sai ileso de tudo isso, mas coloquei as peças de volta e fiz
uma montagem mais forte para mantê-las firme.
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