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Pela
segunda vez, os EUA é invadido pela epidemia do U2. Em 1987, o quarteto
irlandês não conseguiu chamar tanto a atenção como hoje, mesmo com
o álbum The Joshua Tree, com raízes blues/góspel, que foi
considerado uma verdadeira obra-prima (10 milhões de cópias vendidas),
fazendo com que a banda se consolidasse na América com seu típico
rock'n'roll. Então, eles resolveram estender a estadia por lá. O
filme Rattle and Hum, com trilha sonora do U2, apresentou
a maior banda do mundo, falando sobre a "NicaraGUA" e
tentando trazer de volta "Helter Skelter" dos Beatles.
Em
1991, mais rápido do que imaginávamos, eles voltaram completamente
renovados. Para lançar Achtung Baby, a mais nova sensação
pop eletrônica dos últimos tempos, os garotos resolveram
trocar suas canções melódicas e sentimentais por calças de couro
e óculos escuros Superfly. A banda mais badalada do mundo acabava
de lançar verdadeiras estrelas do rock.
Em
1993, a banda ressurge tocando e dançando com o Zooropa, e,
logo depois, em 1997, eles lançam Pop. Porém, este som totalmente
eletrônico e esta imagem Pop Star da banda não eram os mesmos em
1980 com o álbum Boy, nem em 1981 com October. Pop
foi o álbum da banda que menos vendeu (apenas 1 milhão de cópias).
Para piorar ainda mais, a banda divulgou este álbum com a turnê
Pop Mart - uma alusão ao consumismo americano - que, por algumas
vezes, foi apresentada em estádios com pouca capacidade.
Com
um título bastante apropriado, All That You Can't Leave Behind
é o novo trabalho do U2. O álbum com 11 músicas traz de volta
o passado glorioso da banda. Impulsionado pela guitarra de Edge
- que passava despercebida nos álbuns recentes - o novo álbum aumenta
a intensidade e diminui os efeitos. E, assim como diz Edge, isso
muda com o tempo.
All
That You Can't Leave Behind parece um retorno às origens. O
que inspirou esta mudança?
Nós
sentimos como se o tempo tivesse voltado ao passado, então, voltamos
nossa atenção para o que podemos fazer com uma banda que é única.
De alguma maneira, nós sempre estamos tentando abstrair o som da
banda, seja com influências da música techno e dance, hip-hop, música
ambiente ou o que quer que seja. E, com isso, nós apenas tentamos
produzir um som verdadeiramente trabalhado e sentimental. Eu acho
que é a vitalidade deste trabalho que nós admiramos - o sentido
da vida, o sentido de quatro personalidades distintas trabalhando
juntas. Foi muito bom ver o resultado.
Vocês
acham que estão improvisando demais nas músicas?
Ás
vezes certas músicas tem que ser menos requintadas e menos produzidas.
Na realidade, as gravações em estúdio resumiam-se em quatro pessoas
tocando sem parar num ambinete minúsculo, melhorando o desempenho
e os arranjos, sem tentar gerar pontos de partida e padrões sonoros
incomuns para produzir sons diferentes. Existem várias técnicas
especiais de produção envolvidas, mas que são sempre construídas
numa base bastante sólida de um ótimo som, tocado por uma grande
banda, eu espero.
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Então,
num curto período de tempo, nós nos encontrávamos sob forte pressão
- nossa própria pressão para lançar algo que realmente nos orgulhasse.
Mas, eu acho que de todas as gravações, esta foi concluída sem pânico,
coisa que era normal para nós em todo final de gravação.
"Beautiful
Day" é menos hype-y do que outros singles do U2. Esta música
foi realmente tirada do álbum . . .
Sim,
o primeiro single é sempre utilizado como um modo de julgar o álbum
inteiro, ou, de certo modo, as pessoas vêem isso como uma introdução
ou explicação do que será o álbum. Para nós, é sempre impossível
encontrar uma música que possa ser eficaz. Eu acho que "Beautiful
Day" é uma música que conseguiu emplacar esse álbum. Talvez,
nos últimos dois álbuns, nós não tivemos uma música tão eficaz como
esta.
Fale
sobre a evolução de "Beautiful Day".
Aquela
que deveria ter um verdadeiro estilo punk rock era a música "Always"
[que está no lado B do single "Beautiful Day"]. Nós tínhamos
uma música que nos empolgava, mas não era bem a que nós queríamos,
então, Bono apareceu com a letra da "Beautiful Day". O
ponto principal foi a idéia minha e de Danny [produtor de Daniel
Lanois] de colocar backing vocals, e isso fez com que a música tomasse
outro rumo. Algumas das faixas da gravação acabaram de ser feitas
e já foram escolhidas, mas "Beautiful Day" foi escrita
em estapas.
Particularmente,
qual música você tem orgulho de ter feito?
Bem,
isso é difícil responder. Nesse momento, "Kite" é uma
música que eu realmente me orgulho dela. É uma música lenta, o que
significa que ela não será um single. Eu acho que nós quatro estamos
na melhor fase: Bono, cantando com o coração, melodias incríveis,
letras ótimas e eu acho que a banda está tocando muito bem.
Vocês
estão na segunda maior fase de popularidade. Depois de Rattle
and Hum, a América ficou um pouco enjoada do U2, então, vocês
retornaram com Achtung Baby. Vocês estão fazendo isso
novamente?
Eu
não sei. Nós estamos nos esforçando bastante para divulgar este
novo trabalho, pois nós realmente acreditamos nele. Mas, ainda não
se sabe se a América se interessará por este álbum em especial ou
não. Eu acho que o ambiente europeu é bem diferente. A música é
o reflexo do fator social e de tudo o que está acontecendo. Atualmente,
na América, é o hip-hop que ainda está em alta, a síntese do metal
com o hip-hop também, mas o pop é uma surpresa - está bem
em alta. O Rock'n'roll tem sempre servido de contrabalanço para
o pop. É a música que mostra que algo está errado, que há várias
causas para a insatisfação com as coisas no geral. Visto que, pop
é "Everything's fine. Everything's cool" ("Tudo está
bem. Tudo está legal"). O pop tem permanecido por vários anos,
mas, agora é hora da volta do rock'n'roll, e as pessoas devem estar
bastante curiosas sobre o que estamos fazendo. Sendo assim, o momento
do lançamento deste CD é muito bom. Na Inglaterra, nosso single
alcançou a primeira posição já na primeira semana, o que surprendeu
todo mundo, principalmente porque quem concorria nessa primeira
posição era o dueto Robbie
Williams e Kylie
Minogue, que todos apostavam que seria o single da semana.
Após
Rattle and Hum, o U2 foi criticado por ser hiper sério. Agora,
como ironia do destino, vocês não são vistos como um grupo tão sério.
A imagem glamurosa da banda e a atmosfera circense do Pop Mart influenciaram
nas músicas?
Sim,
eu sei que vocês perceberam isso, e, às vezes, foi muito difícil
nos manter no mesmo nível. Não acho que escrevemos músicas triviais
ou comerciais, mas sim, utilizamos humor e ironia para disfarçar
os temas mais pesados das músicas. E, às vezes, eu acho que as pessoas
não se ligaram. Elas pensam que o humor e a ironia eram tudo. Eu
acho que isso ilustra que você só pode ser famoso por alguma coisa,
num determinado momento. Então, este é um álbum mais aberto. Ele
é o que é. As músicas são o que são. Eu acredito que você tem a
impressão de que nós não damos muita importância à maneira que vocês
verão isso. Ele segue uma linha traçada, por isso, eu acho que não
tenha o mesmo problema de falta de identidade do nosso último álbum.
Quando
é que ouviremos mais canções com você nos vocais principais?
Bem
[risos], nós temos um vocalista muito bom na banda. Eu adoro
cantar, mas eu não quero cantar uma música que eu sei que o Bono
canta muito melhor. Isso não quer dizer que, às vezes, eu seja melhor
que ele, que eu acho que não é muito difícil [risos].
De vez em quando até dá certo e eu acabo cantando. Pode até ser
que aconteça novamente.
Apesar
de estarmos considerando este álbum bastante "rock'n'roll",
existem algumas músicas particularmente engraçadas, assim como "Stuck
in a Moment" a "Wild Honey."
Nós
nos permitimos escrever e gravar algumas canções que são indiscutivelmente
maravilhosas, há partes melódicas nesse trabalho e, eu diria que
"Wild Honey" seria o melhor exemplo disso. Ela passa um
certo ar de deboche e uma qualidade que atrai. Eu acho que é porque
nós estávamos com este espírito quando gravamos - principalmente
quando nós fizemos as músicas mais intensas e dramáticas como "Peace
on Earth" e "When I Look at the World", que são bastante
fortes. Então, se você é do tipo severo e cruel, é legal que você
consiga controlar isso com algo que seja agradável e melódico. "Wild
Honey" é isso. "Stuck in a Moment" é uma letra bem
pessoal sobre aquelas pessoas que nós sabemos que acabaram se tornando
vítimas e perderam a noção de que a vida é tudo, e elas estão completamente
por fora. Por isso, esse é um tema bastante pesado, com um som também
pesado. Eu acho que quando estávamos trabalhando nesse álbum, nós
tentamos colocar contrastes dentro do material: as letras mais profundas,
aparecem com músicas bem agitadas; ou as músicas intensas vêm com
uma letra divertida. Eu acredito que a msitura de sentimentos é
uma das marcas registradas do que costumamos fazer.
Sabe-se
que há uma outra versão da música com o Mick Jagger e a filha dele
cantando de fundo.
Sim,
certo dia eles apareceram no estúdio e, é claro que nós pedimos
que eles nos dessem uma palhinha. Nós fizemos uma mixagem com a
voz dos dois, mas o estilo da música partiu para uma outra direção
e então ela não pareceu adequada.
Foi
uma decisão difícil deixar o Mick na sala de espera?
Não,
para ser honesto, eu não acredito que ele pretendia participar da
gravação. Eu acho que seria errado de nossa parte colocá-lo na gravação,
porque seu estilo de cantar não se encaixou em nosso trabalho. Isso
foi uma brincadeira.
O
Radiohead parece que vem seguindo os passos da carreira de vocês.
Eles acabaram de lançar um álbum que vem sendo taxado como "anti-rock",
e Thom Yorke disse que ele está cansado dessa coisa de rock. Qual
é seu conselho para eles?
Bem,
meu conselho para eles é, "Apenas faça exatamente aquilo que
vocês já estão fazendo". Porque eu realmente adoro Kid A.
Eu acho que há uma verdadeira integridade entre eles. Numa banda,
você tem que primeiro seguir seu próprio instinto, então, torcer
para que você esteja certo e que as pessoas estejam interessadas
o suficiente para segui-lo, onde quer que você vá.
Por
quanto tempo você acha que o U2 ainda permanecerá?
Enquanto
a banda tiver a garra que nós temos e, enquanto a música estiver
viva dentro de nós, nós continuaremos. Se as pessoas perderem o
interesse, ou perderem o coração, ou apenas decidirem que não era
realmente o que elas queriam fazer, assim será. Eu não acho que
nosso destino venha a ser o abandono ou a mendicância (risos).
Você
tem interesse em fazer um trabalho solo?
Não
necessariamente. Quem sabe. Eu não diria nunca, mas, no momento
eu estou mais preocupado com o U2 do que seguir.
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