Entrevista Exclusiva

11/09/2001 - São Paulo -SP

Esta é mais uma entrevista que DEVE entrar para a história da mídia ligada ao rock no Brasil. Sim, pois se trata de nada mais nada menos que UK Subs, banda inglesa pioneira do verdadeiro movimento punk, aquele da contestação, do protesto, do "faça você mesmo" e da bandeira ideológica, representado também por bandas como The Exploited, Discharge, Chaos UK, entre outras. Este sim é o verdadeiro punk, bem diferente do punk disfarçado, produzido e mitificado de bandas como Sex Pistols. Não que o som dos Pistols não seja punk ou bom, mas a atitude e o movimento punk tem alguns líderes mais importantes e um deles sem dúvida se chamada UK Subs.
 
Nossa entrevista rolou com muita tranqüilidade e descontração, sendo quase que inteiramente respondida pelo líder e vocalista da banda, Charlie Harper, um "tiozinho" de 57 anos de idade, três netos, uma namorada e com muita sede de rock and roll. Charlie é uma cara calmo, lúcido, fala pouco e com sabedoria. Veio para o Brasil atraído pelos boatos de que aqui é um bom lugar para se pescar! É isso mesmo, Charlie não vê a hora de terminar a turnê pelo Brasil e se mandar para Parati (RJ), onde pretende passar alguns dias no mar, pescando. Isso me faz lembrar Ernest Hemingway e seu livro "O Velho e o Mar".
 
 
 
 

Bom, vamos então fazer um pouco de história e começar nossa entrevista exclusiva.

Portal: Como vocês tiveram a idéia de formar uma banda e entrar no movimento punk? Porque não heavy metal ou qualquer outro estilo?
Charlie: Bom, naqueles tempos eu odiava heavy metal. Não podia nem ouvir falar em bandas como Deep Purple ou Led Zeppelin que já ficava puto. Hoje não, existem bandas de metal excelentes e péssimas também, mas não sou tão radical como antes. Mas mesmo assim ainda odeio o Deep Purple, pois os caras até hoje só pensam na grana. Sobre como resolvemos entrar no punk rock foi o seguinte, eu costumava freqüentar uma casa noturna de Londres que se chama Roxy Club, antes de se chamar Roxy Club, por volta de 1975, começo de 1976. Era uma casa aonde as pessoas iam para curtir um happy hour e tomar umas bebidas mais lights. Era uma casa meio estranha, com gente esquisita. Um dia a casa mudou de nome e passou a se chamar Roxy. Então eles começaram a fazer shows ao vivo com bandas todas as noites. E eram bandas punks na maioria. Na época eu tocava numa banda de Rhythm & Blues, tipo Eddie & The Hotrods e eu enchia o saco do pessoal da banda dizendo para eles irem ao Roxy e verem as bandas que tocavam lá. Levou um bom tempo até convencê-los a irem ao Roxy. Eu tinha mais de 30 anos na época e os outros caras tinham entre 18 e 19 anos, eram estudantes e estavam em outra fase. Mas um dia eu consegui levá-los ao Roxy e o The Damned estava tocando lá. Eles ficaram tão malucos com o som punk rock, que todos resolveram entrar em uma banda punk. Eu não quis e disse para eles que eu era apenas um velho roqueiro e que aquele lance de punk era coisa de adolescente. Então fiquei sem banda, até que um dia apareceu Nick Garrat (que viria a ser guitarrista do UK Subs) e ele ouviu meus sons R&B. Nick não gostou das melodias e disse que queria algo mais pesado. Então compomos seis músicas novas em um final de semana e formamos o UK Subs. A primeira música foi C.I.D. Foi assim que nascemos no punk rock.

Portal: Naquela época, quais eram suas maiores influências musicais?
Charlie: Naqueles tempos eu curtia muito Lou Reed e o Velvet Underground, Iggy Pop & Stooges, Hollywood Bratts e bandas que não eram tão populares na Inglaterra como os americanos do MC5 e New York Dolls.

Portal: O que você acha das chamadas novas bandas punks de hoje, como Green Day, Blink-182 e Offspring?
Charlie: Eles não podem ser chamados de novos punks. Eles são "punks fabricados", compram suas correntes, suas calças rasgadas, seus coturnos e seus "uniformes" limpinhos. Eu vi o Green Day tocando em Londres, no Garage, no começo de carreira e não havia mais de 20 pessoas na casa. Ninguém curtiu e agitou ao som deles. Tenho fotos para provar isso. Depois que eles entraram para uma grande gravadora eles foram pra frente. Eles são muito comerciais hoje e não tem nada a ver com o punk. Punk é uma coisa mais "do it yourself" (faça você mesmo), sem se vender, apenas pelos seus ideais e pela curtição. O punk é uma coisa mais underground. O verde do Green Day virou cinza e pop.

Portal: Existe alguma banda nova de hoje que você gosta?
Charlie: Tem algumas bandas, como o King Prune, de Londres, que faz um som bem punk rock, da velha escola

1977. Outra banda bem legal é uma banda da onda agora nos EUA, que se chama Anti-Flag, que é muito boa.

Portal: Vocês alguma vez encontraram-se com os Sex Pistols ou tocaram com eles?
Charlie: A gente nunca tocou com eles. Um de nossos integrantes, Alvin Gibbs (o baixista), viu o primeiro show da história dos Pistols. Eu conheci Johnny Rotten e Glen Matlock quando eles ainda eram uma pequena banda, depois o Sid Vicious entrou no lugar de Glen e eles conquistaram o mundo. Eles eram punks, mas ao mesmo tempo pop. A indústria por trás deles era muito forte e controlava tudo o que faziam.

 
 
 
 
 

 

Portal: Antes de vir para o Brasil, que tipo de idéia vocês tinham do rock daqui? Vocês conhecem alguma banda brasileira?
Charlie: Eu ouvi dizer que o Exploited tocou por aqui alguns anos atrás e tiveram problemas com os skinheads. Nós deveríamos ter vindo tocar aqui antes, mas ficamos com receio. Nós já tocamos na Argentina e foi muito seguro e tranqüilo. Aqui não sabemos como vai ser. Minha namorada conhece várias bandas brasileiras, mas a única que conheço e achei legal há muito tempo é o Cólera.

Portal: Você fez um álbum solo chamado "Stolen Property". Que tipo de música você gravou e porque não contou com o resto da banda?
Charlie: Era um álbum de música rhythm & blues e não tinha nada a ver com punk rock. Sempre gostei de R&B e sentia muita falta daquele som. Eu já era um velho roqueiro bem antes do punk nascer e não tinha como simplesmente deixar de gostar de algo que eu adorava. Então fiz aquele álbum que na verdade eram gravações de covers de várias bandas de R&B dos anos 60. Mas hoje estou sossegado deste tipo de som.

Portal: Muitas bandas antigas do punk rock estão de volta aos palcos e lançando novos álbuns. Vocês acreditam que o punk possa voltar à mídia?
Nick: Se o que estivesse voltando fossem aquelas bandas que realmente cooperavam entre si, organizam shows, protestos e festivais no começo dos anos 80, seria bom. Mas o que vejo são bandas que se aproveitaram do rótulo de punk para progredirem financeiramente. As pessoas olham para trás, ao passado, e se lembram apenas do The Clash, Buzzcocks e Sex Pistols. Eles não se lembram de bandas que realmente seguraram a bandeira rasgada e pisada do movimento punk. Bandas que merecem todo nosso respeito e admiração. O punk rock que está na mídia hoje é o pseudo-punk do Blink-182 e do Green Day. O punk de verdade nunca teve e nunca terá seu espaço, pois ele mesmo é contrário a este espaço forçado.

Portal: Falando sobre Londres, vocês, como banda punk, ainda encontram bons locais para tocar por lá ou está mais difícil hoje?
Charlie: A gente encontra muita dificuldade. Somos recusados em vários lugares e não conseguimos marcar datas para shows.

Portal: Mas é por causa do estilo ou porque existem muitas bandas punks?
Charlie: O que existem na verdade são uns "panquecas" e não punks e isso virou uma febre. Eles não respeitam as velhas bandas e só querem saber destas novas bandas mais "melódicas". Infelizmente está assim a coisa. Outro dia nós concordamos em tocar sem cachê em um festival beneficente e ficamos sabendo depois que algumas bandas foram pagas para tocar. Ficamos muito putos e ofendidos e resolvemos nunca mais tocar com aquelas bandas. Mas essa é a realidade e nós preferimos manter nosso estilo e nossa reputação, sem nos vender e sem vender nossos ideais.

Portal: Falando de algo recente, o que vocês acham dos atentados terroristas que ocorreram hoje os EUA?
Charlie: É muito triste. Infelizmente vamos nos lembrar deste dia para sempre e vamos lembrar onde estávamos e o que estávamos fazendo neste dia. Quando um presidente é assassinado é uma coisa, mas quando dezenas de milhares de pessoas inocentes são brutalmente assassinadas, por causa dos conflitos entre os terroristas islâmicos com os EUA, é realmente muito ruim. Para mim é a guerra do mal contra o mal, mas quem sofre é o povo.

A banda toca neste mês de setembro no Brasil. Veja detalhes em nossa agenda de shows.

Marcio Faveri - da redação

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