Entrevista Exclusiva
Derry - Irlanda do Norte - Setembro de 2004
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É realmente incrível imaginar que depois de quase 20 anos desde a primeira vez que eu ouvi Undertones na vida estou aqui tecendo as primeiras palavras introdutórias para essa exclusiva e histórica entrevista que tive a honra de fazer com ninguém menos que John O'Neill, guitarrista original, principal compositor e líder dessa banda irlandesa.

Pra quem ainda não conhece o som desta lenda ou nunca nem ouviu falar deles, vale lembrar que eles sempre foram considerados os "Ramones britânicos", tanto pela melodia e sonoridade de suas músicas, como pela postura e atitudes "bubblegum" e "adolescente". Bandas como The Queers já gravaram covers dos Undertones ("Get Over You" e "Here Comes The Summer"). Aqui mesmo no Brasil recentemente a banda carioca Carbona também gravou "Here Comes The Summer", para a coletânea Punk Rock Classics. Até os reis do pop rock, os irlandeses do U2 tocaram a música "Teenage Kicks" durante um show da turnê do álbum The Joshua Tree, nos anos 80. Claro que o fato deles ficarem afastados da cena por quase 20 anos fez com que eles fossem meio que esquecidos, mas vou tentar dar uma pincelada básica na carreira da banda pra ficar mais fácil.



A banda foi formada no início de 1976, na pequena cidade de Derry, na Irlanda do Norte, em meio a explosão do punk rock britânico. A primeira formação contava com Feargal Sharkey nos vocais, Billy Doherty na bateria, Damian O'Neill na guitarra, John O'Neill na outra guitarra e Mickey Bradley no baixo. Claro que a Irlanda do Norte sempre foi e talvez sempre será o país mais desprezado e pisado do Reino Unido, mas como o assunto aqui não é política, vamos em frente. A cena local em Derry era dominada por bandinhas nada a ver, mas mesmo assim eles insistiam em se apresentar em pequenos pubs e clubes, tocando na maioria das vezes para os amigos, poucos amigos. Cansados daquela pasmasseira toda, eles quase terminaram a banda, até que em 1978 um maluco chamado Terry Hooley, dono de uma loja de discos da capital Belfast, resolveu bancar o lançamento do primeiro EP deles, o lendário Teenage Kicks, pelo selo de sua própria loja, o Good Vibrations.

  A música Teenage Kicks, hit deste EP, chamou à atenção e cativou demais o famoso DJ londrino, John Peel, que começou a tocá-la em seu programa na Radio 1, da BBC inglesa. Bastou isso para que os Undertones começassem a dar autógrafos em sua pequena cidade. Logo eles foram contratados pela Sire Records, que lançaria o álbum de estréia da banda em 1979. Vale lembrar que a Sire Records era a grande gravadora americana da qual também fazia parte os Ramones. E assim eles começaram a deslanchar e ganhar mais e mais espaço na cena punk rock, embarcando como banda de abertura na turnê norte-americana do The Clash naquele mesmo ano. Logo veio o segundo disco, Hypnotised, que ainda trazia a banda embalada pela levada "ramoníaca' de seus primeiros singles, tais como "Jimmy Jimmy" e "My Perfect Cousin".

Mas os Undertones davam sinais de mudança nos rumos musicais, o que ficaria mais evidentes quando eles se mudaram para a gravadora EMI. Na EMI eles lançaram em 1981 o disco Positive Touch, com o uso de instrumentos exóticos, como businas, guitarras com slide, pianos de calda e até mesmo xilofones. Mas a falta de um hit que emplacasse no Top 50 inglês começaria a trazer problemas para a carreira da banda.

Quase dois anos sem gravar, eles retornam em 1983 com o disco The Sin Of Pride, que mescla rock dos anos 60 com psicodelia. Mas os singles deste álbum, incluindo uma versão para "Got To Have You Back", dos Isley Brothers e, "Love Parade", não chegaram a empolgar nem os fãs nem a crítica, fazendo com que The Sin of Pride ficasse na modesta posição 46 das paradas inglesas. Sentindo o peso do ostracismo e da concorreência com novas bandas que surgiam a cada dia, os Undertones resolveram sair de cena no verão inglês de 1983, depois de uma séria de shows em festivais pelo Reino Unido.
 

O vocalista Feargal Sharkey se lançou em uma curta carreira solo, enquanto os irmãos O'Neill arrancavam aplausos da crítica (apesar do fracasso de vendas) com sua nova banda, a politizada That Petrol Emotion. As esperanças de um retorno da formação original para o aniversário de 50 anos de John Peel (fã número 1 da banda) fracassaram depois que o pai dos irmãos O'Neill faleceu. A banda recusou uma excelente oferta para fazer cinco shows em 1994, preferindo colocar a culpa no vocalista Feargal, o qual segundo os demais integrantes, fez "corpo mole para tocar'.




Os caras deletaram de vez o vocalista Feargal e recrutaram um antigo amigo e morador de Derry, chamado Paul McLoone, para dois shows de volta da banda, lá mesmo em Derry, cidade natal dos Undertones, em 1999. Desde então eles resolveram nao olhar mais para trás e seguiram adiante com Paul nos vocais. Os relançamentos continuavam a sair, enquanto um documentário chamado Teenage Kicks (2001) trouxe aos fãs uma retórica da carreira da banda. Get What You Need, o primeiro disco de estúdio em 20 anos, lançado em setembro de 2003, agradou muito aos fãs e à crítica. Agora, mais de 25 anos depois que Teenage Kicks colocou os Undertones na história do rock, a banda que é o orgulho da pequena Derry, parece estar com sua "rebeldia adolescente" cada vez mais aflorada!


The Undertones com os Ramones

A formação atual da banda conta com os originais Billy Doherty na bateria, Damian O'Neill na guitarra, John O'Neill na outra guitarra, Mickey Bradley no baixo e o novato Paul McLoone nos vocais.

O resto da história dessa grande banda vocês conferem na entrevista a seguir!

Portal: Acredito que essa seja a primeira vez que os Undertones dão uma entrevista para o Brasil, não é? Como pudemos levar mais de 25 anos pra fazer isso?
John O'Neill: Somos a banda mais preguiçosa da história do rock and roll. O que também explica os motivos pelos quais nunca conseguimos vender muitos discos!!

Portal: Quando eu falo a palavra "Brasil" quais as primeiras coisas que lhe vêem à mente?
John O'Neill: Obviamente que é o futebol, Pelé, Tostão, etc. Vocês ensinaram ao mundo como se joga futebol. Também lembro do Rio de Janeiro, a estátua do Cristo no topo da montanha, a garota de Ipanema, todos os clichês penso eu.


Damian O'Neill
  Portal: Vocês já pensaram em tocar aqui ou mesmo visitar o Brasil?
John O'Neill: Eu adoraria tocar no Brasil qualquer dia. Ou mesmo ir a passeio. Talvez um dia...

Portal: Falando agora um pouco da história da banda. Vocês vieram de uma pequenina cidade (certo?)lá da Irlanda do Norte. Como era pra vocês tentar acompanhar tudo o que estava rolando em Londres, Manchester e outras cidades principais do Reino Unido em termos de rock and roll? Era fácil comprar discos das primeiras bandas punks daquela época? Quero dizer, como vocês ficaram sabendo dos Sex Pistols, etc?
John O'Neill: Nossa fonte principal de informação musical foi mesmo a rádio BBC, com o DJ John Peel. Também comprávamos o jornal musical New Musical Express, que naqueles tempos era excelente. Também comprávamos discos pelo correio através das lojas de discos locais.

Portal: Vocês chegaram a sofrer algum tipo de preconceito em Londres pelo fato de serem da Irlanda do Norte?

John O'Neill: Eu penso que isso até ajudou a gente. Obviamente com a situação política que rolava naqueles tempos tudo tendia a dar aos jornalistas uma boa pauta para que eles escrevessem sobre a gente, mesmo a gente nunca ter sido uma banda política.

Portal: No final dos anos 70, começo dos 80, você diria que os Undertones fizeram parte da cena punk? Como o rótulo "punk" soava para vocês? E como ele soa hoje? Quero dizer, vocês gostam de serem chamados de uma "banda de punk rock"?
John O'Neill: Com toda certeza! Punk significava fazer as coisas à sua maneira, o que fazíamos e ainda fazemos. Adorávamos as primeiras bandas de garage dos anos 60, como o Velvet Underground, os Stooges, MC5 e os New York Dolls e quando os Ramones, os Pistols, etc., apareceram logo a gente se identificou com eles. Punk é uma atitude e não necessariamente tem que estar relacionado à música.
 

Feargal Sharkey

Portal: Como foi a sensação e a experiência para vocês quando o disco Teenage Kicks foi lançado e o DJ John Peel começou a tocar a música "Teenage Kicks" direto na Radio One da BBC?
John O'Neill: Como eu disse antes, a gente já curtia ele pra caramba, então quando ele começou a tocar nossa música custamos a acreditar.


Paul McLoone
  Portal: Estive em Londres ano passado e eu estava ouvindo a Radio One e um dos locutores disse que "Teenage Kicks" é a música preferida de todos os tempos de John Peel. Como vocês se sentem com isso?
John O'Neill: Deslumbrados. Provavelmente devemos toda nossa carreira a ele de qualquer forma. Essa música já existe independente dos Undertones, agora ela já tem vida própria, o que me deixa completamente comovido.

Portal: Algumas pessoas dizem que os Undertones eram um mix de Ramones com Buzzcocks. Você concorda com isso? Que tipo de influências vocês tiveram dessas duas bandas?
John O'Neill: Claro, com certeza! Acho que foi o apelo pop que nos atraia a eles.




Portal: Quais outras bandas influenciaram os Undertones no começo?
John O'Neill: Outras influências fora as bandas dos anos 60, The Beatles, Rolling Stones, Bob Dylan, T.Rex, David Bowie, Roxy Music, etc.

Portal: Ouvi dizer que vocês não tinham nenhuma experiência com instrumentos musicais quando começaram a tocar. Como vocês conseguiram produzir álbuns fantásticos, como Positive Touch e The Sin of Pride, que são considerados muito técnicos, complexos e cheio de arranjos e estruturas bem construídas?
John O'Neill: Você pode até achar engraçado, mas eu prefiro nossos dois primeiros discos. Conforme fomos ficando mais velhos a gente ia ouvindo outras coisas, como Al Green, Smokey Robinson, Can, Tim Buckley, Love e então tudo isso acabava influenciando a gente.
 

Mickey Bradley

Portal: Da primeira formação quem continua ainda na banda hoje?
John O'Neill: Todos com exceção de Feargal.

Portal: É impossível negar que o estilo de voz do vocalista original Feargal Sharkey foi e sempre será a marca registrada dos Undertones. Quero dizer, quando alguém ouve uma única palavra dele numa música, já percebe na hora e diz de cara: "isso é Undertones". Como foi pra vocês superar a ausência de Feargal e voltar com a banda novamente?
John O'Neill: Se você nos ver ao vivo agora acho que vai mudar de idéia. E essa é uma das razões pelas quais ainda estamos tocando. Parece existir uma química e um som entre a gente que daí sim você pode dizer "isso é undertones", mesmo sem o Feargal. Não sei explicar o que é.
 

John O'Neill


Billy Doherty
Portal: Quem e como é o novo vocalista? E como está a energia da banda hoje em dia?
John O'Neill: Ele se chama Paul McLoone. Ele é da nossa cidade (Derry) e a gente já conhecia bem ele. Estamos adorando tudo isso muito mais do que curtimos no final dos anos 70 e nos anos 80. Eu sinceramente acho que nosso som está bem melhor agora.

Portal: Feargal Sharkey tentou uma carreira solo depois que saiu dos Undertones. Vocês ainda mantém contato com ele hoje em dia ou pelo menos sabem o que ele anda fazendo?
John O'Neill: Não temos muito contato com ele. Mas eu acho que ele está trabalhando em um departamento do governo ligado à música, casas de shows, algo todo tipo.

Portal: Algumas pessoas dizem que os Undertones fora e ainda são grandes influências para grandes nomes do pop rock, como Sum 41, The Hives e Green Day. Você concorda com isso? Quais bandas novas vocês gostam?
John O'Neill: Acho que talvez o the Clash, os Pistols e os Ramones exerceram uma maior influência no som dessas bandas do que a gente, mas entendo o que você quer dizer. Gosto muito de bandas como The Kills, Yeah Yeah Yeahs e The Strokes, embora eu prefira ouvir mais um tipo de música mais "ambiente", como Tosca, Biosphere, Boards of Canada, etc, quando estou em casa.
 

Portal: Voltando ao assunto Brasil. Vocês conhecem algo sobre a música brasileira ou quem sabe alguma banda de rock brasileira?
John O'Neill:
Lamento mais não conheço muito. Ouvi falar de "chorinho" e ainda me lembro de ter ouvido uma fantástica coletânea que David Byrne (ex-Talking Heads) lançou com vários artistas brasileiros alguns anos atrás. Se você sabe o nome dessa coletânea você poderia me dizer, porque eu adoria comprá-la.



Portal: Claro John, o nome da coletânea a qual você se refere deve ser a "Rei Momo", lançada por Byrne em 1989. Aquele disco inspirou Byrne novamente, que lançou em 2003 outra coletânea chamada "Brazil Classics 1: Beleza Tropical".

Portal: Quais os novos planos para a banda agora? Algum disco novo a caminho?
John O'Neill: Lançamos nosso novo CD no começo deste ano, chamado 'Get What You Need'. Estamos compondo novas músicas e esperamos lançar algo novo ano que vem.

Portal: Quando podemos esperar ter os Undertones tocando no Brasil?
John O'Neill:
Eu adoraria. Infelizmente viajar para tão longe significaria fazer uma longa turnê para que se seja financeiramente viável. Não conseguiríamos ficar longe de nossos trabalhos (eles trabalham além de tocar) por muito tempo. Mas nunca se sabe né.



Portal: Alguma mensagem final para seus fãs brasileiros (vocês têm muitos aqui!!!)?
John O'Neill: Muito obrigado pelo apoio e muito amor pra todos!

Para maiores informações acessem o site oficial do The Undertones

Marcio Faveri - da redação

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