Especial

Página Não Oficial e Não Autorizada
(no melhor estilo DK!!!)


Como não poderia deixar de ser, o Portal do Rock traz para você todos os detalhes da banda americana Dead Kennedys, que se apresenta no Brasil pela primeira vez, neste mês de dezembro de 2001.

Infelizmente, depois de uma triste briga judicial pelos direitos autorais da banda, Jello Biafra, eterno líder e vocalista do DK, acabou perdendo quase tudo o que construiu à frente da banda, tendo que abdicar do cargo de porta-voz da mais polêmica e politizada banda punk americana de todos os tempos.

Porém, os demais integrantes do DK, que também têm suas respectivas importâncias e participações na polêmica toda gerada pelas músicas e atitudes da banda, estarão presentes nesta turnê pelo Brasil e prometem shows históricos e arrasadores. São eles D.H. Peligro, Klaus Flouride e East Bay Ray, todos da chamada “formação clássica”.

 
Para tentar amenizar a falta que Jello Biafra faz ao DK, a banda terá como vocalista convidado um tal de Brandon Cruz, vocal da banda Dr. Know, que também é da safra de bandas hardcore americanas dos anos 80, influenciadas pelo DK. Dizem que o cara tem o mesmo estilo e pegada de Jello, mas isso só vendo ao vivo pra comprovar...
 
 
 
 
 

Só para lembrar, o Dead Kennedys revolucionou o rock alternativo americano no final dos anos 70, ao usar o punk rock, mas especificamente o hardcore (estilo mais rápido e agressivo de punk rock), para fazer protestos e incitar uma verdadeira revolução de idéias, comportamento e conceitos. Eles eram contra o sistema, o capitalismo, o fascismo, o racismo, o nazismo, a imprensa burra e contra toda forma de banalização e comercialização do rock. Vale lembrar que a banda teve muitos problemas com a mídia, inclusive com a MTV americana, ao gravar uma música intitulada “MTV – Get Off The Air!” (MTV: Saia do Ar!), que falava mais ou menos assim: “so don't create, be sedate, be a vegetable at home, and thwack on that dial, if we have our way even you will believe, this is the future of rock and roll...MTV get off the air”.

Abaixo, um pouco
da história da lenda!


O DK é uma banda americana que teve participação importante no cenário hardcore/punk que estava nascendo no final dos anos 70 e início dos 80, nos EUA. O vocalista Jello Biafra (cujo nome verdadeiro é Eric Boucher) mudou-se para São Francisco após uma sucessão de trabalhos independentes e tentativas em vão de conquistar uma carreira de sucesso. Lá ele respondeu a um anúncio de um painel musical, colocado pelo guitarrista East Bay Ray. Os dois se juntaram com o baixista Klaus Fluoride, o baterista Bruce Slesinger (vulgo Ted) e o segundo guitarrista conhecido simplesmente por 6025. Este último saiu em março de 1979, enquanto que Slesinger foi substituído por D.H. Peligro em meados de 1981.
 
 
 
 
 
 
 
Em 1978, a onda do punk britânico já tinha se estabelecido nos EUA, graças aos primeiros ataques de bandas como o The Damned (uma das pioneiras do punk inglês) que fez uma turnê no início de 77 e o Sex Pistols, que fez outra tour no final daquele mesmo ano, depois de ter estourado num show no Winterland, de San Francisco - o qual Biafra pôde conferir como fã. Fascinado por essa experiência, Biafra resolveu ir à Inglaterra em 1977, no auge do punk. Depois de ver o que viu lá, ele prometeu a si mesmo que ajudaria a criar um cenário semelhante nos EUA. E ele não foi o único; outros, que depois vieram a se tornar conhecidos, tiveram a mesma idéia e a cultura underground que estes pioneiros criaram foi, desde o início, completamente diferente daquela desenvolvida na Inglaterra. O punk americano era desprovido daqueles conceitos de ordem que eram uma característica do punk inglês. Haviam, por exemplo, poucas calças rasgadas e kilts (saias escocesas) nos shows americanos.
  Após um breve período de afastamento, o Dead Kennedys fez seu primeiro show em julho de 1978. Naquela noite, a tensão e provocação entre a banda e a platéia geraram um stress que iria perdurar por muito tempo. Para começar, a música do Dead Kennedys era uma cópia fiel do punk rock ortodoxo britânico, com o som vigoroso da guitarra, o baixo estrondoso e as batidas fortes da bateria. Mas, desde o início, havia muito mais do que isso. Havia uma competência musical na banda, que era claramente expressada, além de uma profundidade nas letras, que elevava a banda para um padrão distante do punk pesado.
 
 
 
 
As principais músicas de Biafra tinham fundo político e seu jeito polêmico atacava qualquer tipo de alvo fácil, como a grande desonestidade comercial, o governo americano sob o controle lunático de Ronald Reagan, as atrocidades cometidas pela Klu Klux Klan (entidade racista dos EUA) e a resposta imbecil para estes problemas, demonstrada pelos liberais americanos. Caindo no conhecido sarcasmo, as primeiras músicas como, "Let's Lynch The Landlord", "I Kill Children", "Chemical Warfare" e "Funland at The Beach" , ao mesmo tempo satirizavam e difamavam elementos que fazem parte da vida do americano, com extrema violência e conservadorismo . O que salvou estas acusações musicais do colapso que seria causado pela própria ambição da sociedade americana, foi o bom senso de humor que eles transmitiam e a maneira extraordinária como Biafra cantava - um estilo tão próprio que nunca ninguém ousou imitar. Também foi importante o fato de que a banda não tinha medo de expressar suas opiniões políticas com atitudes e ações conjuntas. O mais memorável entre os vários episódios da banda foi a candidatura de Biafra para a prefeitura de San Francisco, em 1979. Ele ficou em quarto lugar, fazendo com que os dois principais candidatos entrassem numa disputa animal.
Obviamente, o nome Dead Kennedys serviu para ofender profundamente muitas pessoas e , para a alegria da banda, isso provou que eles rapidamente atraíram a atenção dos grupos políticos e religiosos de extrema direita. Os problemas da banda com estes auto-intitulados "guardiões da moral", estavam relacionados com as autoridades americanas que sempre se confrontavam com a banda.  
 
 
 
 

A norma na maioria dos shows do DK era a presença de uma polícia agressiva, que atacava indiscriminadamente a platéia e a banda. Tais controvérsias tinham o efeito esperado de afastar o interesse das principais gravadoras, sendo que nenhuma delas se aproximava do DK. Então, o único jeito foi lançar seus trabalhos à moda punk DIY (Faça Você Mesmo).

A filial americana do selo independente do DK, a Alternative Tentacles, foi fundada em 1979, mas a vertente britânica ainda não havia sido estabelecida. Nesse meio tempo, uma porção de singles apareceram no início dos anos 80, lançados pelos selos independentes Fast e Cherry Red. "California Über Alles" (outubro de 1979) foi o primeiro. Era um ataque bombástico contra o Governador da Califórnia, Jerry Brown. "Holiday in Cambodia" (junho de 1980), veio logo em seguida e talvez tenha sido a melhor fase da banda. Era uma mistura perfeita de uma letra yuppie hilária, com uma música demoníaca, que permaneceu na mesma posição no Top 10 do 50o. festival de John Peel por muitos anos. "Kill The Poor" (outubro de 1980) e "Too Drunk to Fuck" (maio de 1981), completaram o quarteto de singles que certamente pode se equiparar à maioria dos grandes singles das principais bandas punks inglesas.

 
Já o primeiro álbum da banda, "Fresh Fruit For Rotting Vegetables" (setembro de 1980), é uma gravação altamente falha, com uma produção totalmente inadequada, feita para atingir virtualmente todos os poderes, não por convicção, mas com excelentes músicas. Se esse álbum tivesse sido adequadamente produzido, sem dúvida seria um dos melhores álbuns punks já gravados. Porém, esse trabalho não conseguiu convencer totalmente.
 
 
 
 
 

Apesar deste fato, a turnê pela Inglaterra no final dos anos 80 conseguiu firmar a banda como um ícone para um público de bandas como Sex Pistols e bateu de frente com o grande sucesso do The Clash. Biafra também agarrou essa oportunidade para se apresentar ao público britânico o novo conceito inventado por ele, o tal do "stage diving", ou mergulho do palco, como seria a tradução para o português.

Nas três visitas da banda à Inglaterra, várias entrevistas expressivas foram dadas à imprensa musical, demonstrando que a forma artística era intencionalmente cruel e brutal. Tal crueldade e brutalidade tomaram um novo rumo com o lançamento de "In God We Trust Inc." (dezembro de 1981). Um EP de oito faixas que deixou a maioria dos críticos confusos. Naquela época, as grosserias absurdas feitas pela maioria das bandas punks inglesas certamente não poderiam ser consideradas. Na verdade, o foco de articulação e o hardcore inteligente transferiram-se para os EUA, com bandas como Black Flag, Minor Threat, MDC e Hüsker Dü, dentre muitas outras, que conquistaram seu próprio espaço no mundo hardcore e, desde então, os EUA vêm mantendo seu meio de cultura cada vez mais produtivo.

Houve uma longa pausa até o segundo álbum dos Kennedys. "Plastic Surgery Disasters" (novembro de 1982) é bem melhor que Fresh Fruit e é a melhor coletânea de músicas da banda. O jeito selvagem e a sátira política prevaleceram, mas a música, além de manter sua energia, também incluía alguns momentos inesperados, como Fluoride tocando clarinete. A banda continuou a fazer shows nos EUA e também fez uma turnê pela Austrália e Nova Zelândia, mas nos anos de 1983-85 deu um gelo na Inglaterra. Finalmente, o gelo foi quebrado com o lançamento de "Frankenchrist" (dezembro de 1985), um LP que foi indiretamente responsável pela eventual fragmentação da banda.  
 
 
 
 

 "Frankenchrist" também provou o talento da banda em persistir nas ofensas, haja vista o pôster polêmico "Penis Landscape" do artista suíço H.R. Giger, que vinha junto com o álbum. Detalhando vários aspectos da união de genitálias, este pôster inevitavelmente atraiu a atenção do poder judiciário da Califórnia, que em abril de 1986, lançou uma liminar contra a banda, que acabou encerrando suas atividades como banda por causa da pressão. Além de ter seu flat confiscado pela Suprema Corte Americana, Biafra também foi acusado de "causar danos materiais a menores" e quase teve que encarar um ano de cadeia, o que não aconteceu graças ao pagamento de uma fiança de 2 mil dólares. Além disso, houve várias outras ações judiciais "por insulto" (inclusive um processo dos Shriners, um grupo Maçônico, que aparecia na capa do disco). Biafra resolveu se rebelar contra esta intimidação política, com base no Primeiro Artigo da Constituição, que garante a todos os cidadãos americanos o direito de expressão.

  Surpreendentemente, devido à natureza dos fatos, a banda conseguiu burlar as leis e lançar "Bedtime For Democracy" (dezembro de 1986). Porém, a criatividade da banda havia se dissipado. Apesar de ter seu lado bom, esse último trabalho foi mal produzido, trazia sons anacrônicos e idéias musicais muito fracas. Mais tarde, Biafra admitiu que tinha aproveitado a oportunidade para expor seu lado de compositor.
 
 
 
 
 
Finalmente, em agosto de 1987, Biafra e os outros quatro integrantes da banda foram absolvidos por um Juíz que considerou injustas e indevidas todas as acusações contra a banda. Porém, este fato veio tarde, pois graças aos problemas com a justiça, pagamento de inúmeras multas e fianças e, principalmente, pela total falta de apoio do meio musical, o Dead Kennedys foi praticamente exterminado do cenário rock. Entretanto, mesmo com todas as adversidades, Biafra conseguiu ver uma luz no fim do túnel e começou a desenvolver uma série de projetos. Este projetos incluíam palestras, protestos, colaborações musicais com bandas como DOA, NoMeansNo, Mojo Nixon e, mais efetivamente com o Paul Barker, da banda de metal industrial Ministry.

Uma última coletânea oficial de sucessos do DK foi lançada, chamada "Give Me Convenience or Give Me Death" (junho de 1987). Este disco é um bom apanhado das primeiras gravações da carreira da banda, além de conter raridades para colecionadores.
Depois de conflitos entre Biafra e os demais integrantes da banda, sobre direitos autorais, os então amigos e fundadores do selo Alternative Tentaclces acabaram se confrontando nos tribunais de justiça americanos, o que fez com que os possíveis planos de uma volta da banda, com Biafra nos vocais, fossem definitivamente eliminados.

Seus ex-parceiros de banda alegaram que Biafra deixou de pagar a eles o dinheiro resultante dos direitos adquiridos pela obra musical do DK, usando este dinheiro em seu próprio benefício em em benefício de seu selo Alternative Tentacles.
 
 
 
 
 
"É irônico, porque o selo foi fundado pela gente, como uma alternativa aos inescrupulosos tentáculos das grandes gravadoras", disse na ocasião o guitarrista do Dead Kennedys, East Bay Ray. Ray disse ainda: "Biafra pegou a grana e tornou-se o que ele mesmo mais odeia. Ele violou o espírito do selo".

O processo, que foi aberto em San Francisco, acusou Biafra, que é também o Diretor Presidente do selo Alternative Tentacles, de ter lançado material do DK, sem o pagamento de direitos autorais. Biafra até que tentou um acordo com os ex-parceiros, para contornar o caso, mas não teve sucesso, tendo sido condenado a pagar os direitos a East Bay Ray, ao baixista Klaus Floride e ao baterista D. H. Peligro.
  Sobre este fato, Biafra comentou: "Se eles tivessem tentado resolver o problema de forma amigável, todo o problema dos direitos autorais teria sido sanado e eles estariam com a grana há muito tempo. Mas como foram direto à justiça, com advogados e acusações, não tive outra alternativa senão engrossar".

O final dessa batalha todos nós conhecemos. Biafra de um lado, os outros três integrantes da lendária banda de outro, bem longe. O Dead Kennedys acabou vítima de uma das coisas que mais abominava nos velhos tempos de front punk rock: a ganância. Esta com certeza é a palavra mais adequada para resumir toda a história de discórdia de uma banda que tinha tudo para voltar hoje e ocupar o topo do sucesso mundial, com todos seus integrantes ainda vivos (coisa rara hoje em dia) e com suas letras e atitudes que deixariam bandas como Rage Against The Machine no chinelo!
 
 
 
 
 
No ano passado, a justiça americana liberou a banda de seu contrato com a Alternative Tentacles e concedeu todos os direitos sobre as músicas e obra do Dead Kennedys a East Bay Ray, Flouride e D.H. Peligro. Com isso, os caras resolveram colocar o DK na ativa novamente, estreiando com tudo num show realizado em setembro deste ano em Los Angeles.

Só pelo fato de ser o DK, já vale o ingresso, mesmo sabendo que Biafra não vai estar lá nos vocais. Afinal, quem não quer saber como fica a banda ao vivo sem ele? Em seu lugar os caras chamaram Brandon Cruz, da banda Dr. Know, que parece cantar no estilo de Biafra. É ver pra crer!!!
Infelizmente, essa é mais uma história de insucesso do rock and roll, dentre tantas outras tragédias e perdas irreparáveis que este velho guerreiro da música vem sofrendo nos últimos tempos. Mas o que consola é que o DK plantou uma semente forte e esta germinou uma árvore com raíz resistente, que até hoje sustenta com vigor todo o peso do punk/hardcore mundial.  
 
 
 
 
 
Desde sua formação e até os dias de hoje, o Dead Kennedys tem sido um estimulante crucial para o punk rock americano. Esta importância na cena rock americana por si só, coloca o Dead Kennedys entre as mais importantes bandas da história do rock, porque não dizer, da música mundial!

Dead Kennedys Übber Alles, ou se preferirem,
Dead Kennedys acima de tudo!!!

Marcio Faveri - da redação
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