Especial

Metallica - A História

Na década de 70, nos diversos salões das diversas periferias desse país periférico, movidos a misturas insólitas legalizadas e substância ilícitas, os proto-headbangers se descabelavam agitando "Highway Star" do DEEP PURPLE e, claro, os inventores dos acordes que embalariam o que mais tarde seria chamado de HEAVY METAL. É claro que eu estou falando do BLACK SABBATH! Seria covardia não citar o pai de todos os riffs, o magnífico, o grande, o fudido TONY IOMMI! Mas o tempo passou e uma novidade chamada NWOBHM (New Wave Of Britsh Heavy Metal - A Nova Onda do Metal Britânico) chegou como uma dádiva aos ouvidos e corpos sedentos por mais peso, velocidade, adrenalina, contestação, foda-se todo mundo! SAXON, SANSOM, IROM MAIDEN, JUDAS PRIEST, ANGEL WITCH, etc, bagaceiras que, de verdade, revolucionaram o conceito de agressividade sonora. Mas foi só o começo. O "pior' estava por vir!
THRASH significa espancar, fustigar, açoitar, assim como, em relação a uma espiga de milho, DEBULHAR. THRASH METAL foi uma das várias derivações do HEAVY METAL. Entre os vários e grandes representantes desse estilo surgiu o METALLICA. É bom dizer que, no começo dos anos 80, era uma dificuldade fudida conseguir cópias (sim cópias) em fita K7 do que acontecia de novo no vasto e efervescente ambiente musical da época. A primeira vez que eu ouvi o METALLICA foi numa dessas fitas (a fita que eu tive acesso era bem mal gravada), numa coletânea chamada METAL MASSACRE, o nome da música "Hit the Lights", a primeiríssima gravada por eles. Na época a banda era formada por James Hetfield nos vocais, Dave Mustaine nas guitarras, Ron McGovney no baixo e Lars Ulrich nas bateria. O ano era 1981.  
Em 1982 sai uma demo com quatro músicas ("Hit The Light", "The Mechanix", "Jump In The Fire" e "Motorbreath"). Uma Segunda demo "No Life 'Till Leather", que teve uma grande circulação e arregimentou um grande número de fãs para a banda, traria as músicas da primeira demo e mais três novas - "Metal Militia", "Seek and Destroy" e "Phanton Lord". Ainda em 1982, Cliff Burton entraria para o METALLICA, mas como ele morava em São Francisco e se negava em mudar para Los Angeles, terra natal da banda, o jeito foi fazer o sentido inverso, digamos, a montanha foi até Maomé, quer dizer, Cliff Burton.
  A mudança da banda aconteceu em 1983. Já em São Francisco, assinam com a MEGAFORCE RECORDS. Kirk Hammet, ex-EXODUS, substitui Dave Mustaine, vejam vocês, que foi expulso da banda porque bebia demais! Com a mais famosa das formações, que seria quebrada por uma fatalidade, gravam o esperado primeiro álbum, o poderoso "Kill 'Em All" (Matem todos), que deveria se chamar originalmente "Metal Up Your Ass" (Metal no seu rabo). Na capa do vinil, um marreta sobre um poça de sangue, faixas poderosas mas, algumas especialmente, se tornariam a marca registrada da banda para sempre - "The Four Horsemen" (que viria a ser o nome de um poderoso álbum tributo lançado em 2002), a sem comentários "Seek and Destroy", a fudida "Wiplash". Vale a pena acompanhar a metamorfose dos caras da banda através dos vinte anos de carreira. Na contracapa do vinil desse "Kill", quatro moleques magrelinhos e sardentos.
Em 1984, aquele que se tornaria o METALLICA essencial em qualquer mínima coleção de clássicos - "Ride the Lightning"! Eu falei que era foda descolar qualquer novidade vinda de fora nos 70. Nos 80 não mudou nadinha, mas começou a pipocar umas piratarias em vinil, claro! Então eu comprei um "Ride" pirataço, feito por uma loja de discos de São Paulo, com o selo do meio arrancado! Tenho até hoje! Não vendo, não dou, não empresto! Quer dizer, se a grana for boa (hehe). Na capa azul, uma cadeira elétrica soltando relâmpagos. Na contracapa, os manos arrepiando em um show ao vivo, ainda moleques e magrelos. Na bolacha, a mais fudida mistura de metal rápido, pesado, trampado e, porque não, fúria punk, total underground!
Lado um (estou falando de vinil!), 4:44 minutos de arregaço, "Fight Fire With Fire" (lute fogo com fogo), música atualíssima ainda hoje, uma verdadeira aula de como se faz METAL! Kirk Hammet já era poderoso na guitarra com riffs e solos alucinantes, banda mais do que entrosada. Mais riffs de primeira grandeza. Outro dia eu assisti o "Icon" na MTV (Junho de 2003) e alguém disse que, se o BLACK SABBATH inventou os riffs do metal, o METALLICA aperfeiçoou os mesmos. Ouça a dois que dá nome ao disco e diga que não é verdade. Perfeita variação de peso, punch e música trabalhada. "For Whom The Bells Toll" é a fantástica faixa três. "Por quem os sinos dobram" é o nome de um filme sobre a Guerra Civil Espanhola, baseado em um livro homônimo, se eu não estou errado, escrito por Ernest Hemighway. Não sei dizer se a banda tirou o nome daí. A voz pós-adolescente de James soa poderosa em meio à riferama e sinos que dobram. "Fade to Black", a quarta, fecha o lado um. Acústico e elétrico em uma das melhores músicas que eu conheço, belíssimo solo, melodia fantástica! A mistura: acústico+peso+velocidade desenvolvida pelo METALLICA, esta super presente nessa música.
 
O lado dois, com musicas menos comentadas pelo fãs, também não decepciona. Abre com rápida e um pouco parecida com a "Fight Fire With Fire", a faixa "Trapped Under Ice". Interessante, fazia tempo que eu não ouvia esse disco, mas o "Bonded By Blood" do EXODUS de 85 é bem parecido com ele. "Escape", a dois, é pesada e arrastadona. Ah, "Creeping Death" (morte rastejante), entrada clássica com riffs rápidos de guitarra, cavalgadas poderosas, impossível não balançar pelo menos a cabeça! Bang your head, não seja tímido! Feche os olhos e sinta as faíscas saindo das Flaying V de Kirk e James. "Die by my hands" (morra pelas minhas mãos) grita James. Pois é, tenho minhas restrições para algumas das coisas que o METALLICA andou fazendo, mas a banda nunca foi só rápido, melhor, boa parte do seu trabalho sempre foi arrastadão e, esse segundo full é um exemplo. A "estranha", trampada e longa (8:52 minutos) instrumental, "The Call of Klutu", fecha esse magnífico álbum.
  Lembro que, sempre foi e sempre será assim, os fãs da banda diziam na época do lançamento do terceiro disco, gravado em 85 e lançado em 86, "Master of Puppets" (mestre das marionetes) - eles tinham ido para uma "major", na época RGE - "será que eles não vão trair o movimento"? Não, não "traíram o movimento" não!
Na capa desse disco, mãos manipulam cordões presos à cruzes de túmulos, uma clara referência aos que morrem em guerras, manipulados por velhos decrépitos senhores da guerra. Na contra-capa, os quatro escudeiros do verdadeiro metal (é, tinha os "false metal", neguinho de cabelo cheio de laquê e roupas andróginas, super maquiados!), ainda magrinhos e cabeludos. "Battery", definitiva, abre arregaçando tudo. "Master of Puppets", outro arregaço é a dois. "Mestre das marionetes eu estou puxando seus cordões/confundindo a sua mente e esmagando os seus sonhos", grita Hetfield em meio a um peso descomunal e... calmaria! É isso, o METALLICA sempre foi o melhor nessas variações! "Mestre, mestre você promete apenas mentiras". Atualíssimo, permitam-me repetir. "Bush, Bush você promete apenas mentiras" permitam-me plagiar.
"The Thing That Should Not Be" (as coisas que não deveriam ser), faixa três, mais uma pesada e arrastada. "Welcome Home" (Sanitarium) fecha o lado um (é, mais vinil!), outra pesada/arrastada com variações mais rápidas e os sempre maravilhosos, solos de Kirk Hammett. Existe uma técnica de guitarra que consiste em abafar levemente as cordas da guitarra com a palma da mão que manipula a palheta, enquanto a outra que "segura" a nota, dá ligeiras deslizadas para um outro acorde, criando os famosos can,can,can, ou seja, as conhecidas cavalgadas. Pois é, o METALLICA é a banda clássica dessa técnica.
A primeira do lado dois exemplifica bem isso. Muito rápida, "Disposable Heroes" (heróis dispensáveis) letra poderosa - "Corpos preenchem os campos eu vejo, o fim de heróis famintos/ninguém para brincar agora de soldado, ninguém para fingir/correndo cego através dos campos da morte, criado para matar todos eles/vítima do que disseram que ele tinha que ser/um servo até que eu caia". Não, não "traíram" não. "Leper Messiah" (messias leproso), contra os sangues sugas da "fé" que usam a "religião" para saquear os miseráveis. Pesada, arrastada, rápida. "Faça uma contribuição/e você vai ganhar o melhor lugar/ curve-se para o messias leproso". É Foda! "Orion", a dois, é instrumental. Começa em "fade" (lá no fundo) e vem subindo. "Damage, Inc" fecha o segundo lado, talvez a mais rápida do álbum, uma "bela" forma de terminar um disco que causou calafrios numa legião de fãs que temia "perder" a banda para uma grande gravadora. Mas uma perda viria, gigantesca, talvez, tecnicamente substituível, mas só tecnicamente.

Numa estrada deserta de Copenhague, às 5:15 da madrugada, foi onde tudo aconteceu. A banda se dirigia em para uma localidade, onde faria um show, parte da turnê. Toda a trupe ocupava dois ônibus. Em um desses ônibus, viajavam os quatro membros do METALLICA. Sem nenhum motivo aparente, esse ônibus, desviou do seu trajeto, entrou na contramão da rodovia e bateu. Cliff dormia na parte superior do ônibus e, com a batida, foi arremessado pela janela, sendo atropelado pelo próprio ônibus, morrendo instantaneamente. Que jeito estúpido de morrer, não é verdade?! O acidente aconteceu no dia 27 de Setembro de 1986. Cliff Burton nasceu no dia 10 de Fevereiro de 1962. Tinha apenas 24 anos de idade.


Em 1987, o baixista do FLOTSAM AND JETSAM, Jason Newsted, entra para banda e, como warm up (aquecimento), gravam um disco só de covers chamado "Garage Days Revisted". Em 88 sai "...And Justice For All...", um poderoso painel contra o poder do dinheiro e outras hipocrisias, disco duplo, músicas longas, apenas nove nos dois discos (claro, vinil). Não é um álbum muito rápido (aquela porradaria supersônica, a não ser a última do segundo disco "Dyers Eve") mas, pesado e moderadamente arrastado. O instrumental está foda como sempre, porém, percebe-se uma maior técnica, refinamento. A voz de James Hetfield chega nos timbres que conhecemos hoje. E as letras continuam dizendo muito, como já foi citado.

 
A dois do lado um, que dá nome ao disco diz "As salas da justiça pintadas de verde/dinheiro fala". Mas a clássica do álbum é a segunda do lado dois, "One", sobre um soldado que volta da guerra destruído, literalmente. No vídeo clipe dessa música, partes do filme "Johnny Vai a Guerra". O Johnny em questão volta da guerra (Primeira Mundial), sem as pernas, os braços, cego e mudo. O cérebro funciona perfeitamente e, numa espécie de código Morse, a enfermeira que cuida dele, consegue algum tipo de comunicação. Numa cena do filme, num gesto de extrema caridade, ela o masturba. Filme terrível, música poderosa.
  Claro, "To Live Is To Die" (primeira, lado dois, disco dois), uma "quase só" instrumental, traz um pequeno texto de Cliff Burton. Diz o texto - "Quando um homem mente ele mata parte do mundo/São as pálidas mortes nas quais os homens calculam errado suas vidas/Tudo isso eu não posso suportar, testemunhar por muito tempo/O reino da salvação não pode me levar para casa". Essa música tem quase 10 minutos, com belíssimos solos, triste. A banda continua com cabelos longos, as porradas da vida amadureceram os caras. Nas fotos, mais adultos, menos magros.
E, vejam vocês, em 1989 o METALLICA toca no Brasil! Não me lembro muito bem dos detalhes, mas eles tocaram mais de duas horas para um público em transe! Imaginem, os caras na sua frente, num país tabajara que até 1983, com poucas exceções, ainda não tinha visto um grande show de rock internacional. Hetfield abria a boca e os caras deliravam. Lembro bem que ele sacou que tinha o completo domínio da massa, então, da borda do palco, ele dizia qualquer besteira e o Ginásio do Ibirapuera (foi lá), São Paulo, vinha abaixo. "Cunt" e, todo mundo "eehhhhh". "Dick", novo delírio e, por ai foi. Foi muito bom, alias, foi ducaralho!!
Três anos se passaram até a saída de um novo álbum, outro duplo, que criou uma grande racha entre os fãs da banda. O "famoso" álbum preto de 1991 foi o autor dessa proeza. Mais acessível para os bitolados que só ouvem o que as rádios tocam, mais melódico, mais baladas, mais arrastado, mas não é um álbum ruim de forma alguma. A banda já vinha fazendo coisas similares há muito tempo, mas radicalizou nesse disco e ficou "só nisso". A molecada que estava começando a ouvir rock, ou nunca tinha ouvido o METALLICA pensou que era o primeiro disco dos caras!! Os bitolados citados acima, sei lá o que eles pensaram. Mas o álbum vendeu 7 milhões de cópias e virou praga nas FMs da vida. Músicas como "Enter Sandman", "The Unforgiven", "Nothing Else Matter", tocavam dezenas de vezes por dia. O METALLICA ganhou e perdeu uma porrada de fãs com esse álbum duplo. E a mudança foi definitiva.  
Em 1993 a banda volta ao Brasil já sem um pouco daquela áurea, pelo menos para os fãs mais fanáticos. O show foi no Estádio do Pacaembu (SP) e eu também fui assistir. Dia de chuva, frio, atrasou tudo. Eu e os camaradas chapados, não me lembro quase nada desse show. Heresia das heresias, para não perder o busão, tinha que trampar no outro dia, não vi o show inteiro! Em 1996 sai "Load" (carregando), o novo disco que afastou mais ainda os fãs antigos da banda para quem o METALLICA só é METALLICA até o disco "...And Justice For All...". Cabelos curtos, roupas "comportadas", mais hard do que heavy, esse era o novo METALLICA. O disco era para ser duplo, mas acabou saindo simples e o restante do material gravado sai em 1997 no "Reloaded" (recarregar, esse eu tenho em CD).
  As afinações estão mais graves, tendência da época e atual e uma certa pancadaria retorna, mas sem aquela impetuosidade dos primeiros dias. "Fuel" (combustível) abre o disco e, é uma boa música, dá até pra bater cabeça. "The Memory Remains", um baladão, ganha um belo vídeo clipe com a participação da eterna groupie Marianne Faithfull, que também participa dessa faixa no disco. A quatro é "The Ungorgiven II", com alguns riffs da "primeira", outro baladão e, por aí vai. São belas músicas, mas você tem que esquecer os que eles fizeram anteriormente. Difícil. "Prince Of Charming", a dez, tem um "gostinho" de MEGADETH. "Low Man's Lyric", faixa onze, é outra bela balada com violino e tudo. Uma flauta e eu juraria que é JETHRO TULL. A doze, "Attitude" é hard rock de primeira. "Fixxxer" fecha o disco, mais balada. Você sabe que é METALLICA mas diz, "caramba, o que foi que aconteceu!?".

Em 1998 a banda volta ao Brasil e toca com o SEPULTURA no Anhembi (SP). Dessa vez eu não fui, mas amigos que assistiram, odiaram. Disseram que o som estava péssimo, a organização uma merda, volume baixo. Sacanearam o SEPULTURA e o METALLICA tocou quase que só as coisas novas. Nesse ano lançam o duplo "Garage Inc" com o primeiro "Garage", mais raros lados B e novos covers. Em 24 de Julho de 99 tocam no "Woodstock 99" e em Novembro se apresentam com a Orquestra de São Francisco, resultando em 2 CDs ao vivo. Em 2000 a banda compra uma briga brava com a Napster (site que permitia a troca de músicas em mp3 pelos usuários que baixassem o seu programa). No dia 18 de janeiro de 2001, Jason Newsted sai fora da banda por "motivos pessoais". Ainda em 2001, os vários anos de álcool e outros aditivos, levam James Hetfield para uma clínica de recuperação, de onde sai nove meses depois em 2002.

Em 2003, o novo álbum do METALLICA se chama "St. Anger" (santa raiva), onze faixas, onde a banda promete voltar aos "velhos tempos". O baixista da banda é agora o poderoso Robert Trujillo, ex-SUICIDAL TENDENCIES e OZZY, sangue novo e dos bons. A banda não pretendia lançar o novo trabalho com afobação, mas em maio desse ano (2003) começaram à surgir as novas músicas na internet, o que apressou o lançamento do desse novo trabalho. Ainda não ouvi o "St. Anger". Eu fui um daqueles que ficou muito puto com a guinada que a banda deum mas isso é muito pessoal, claro, cada um que mude quando quiser mas, por outro lado, cada um compra e ouve o quer, também. Mas eu continuo fã e engrosso a torcida daqueles que desejam o melhor para a banda. Eles mudaram a cara do metal. Eles influenciaram incontáveis bandas ao redor do mundo (e ainda influenciam), assim como instrumentistas, mostrando novas possibilidades dentro da música pesada. O METALLICA, com ou sem mágoa, admitindo ou não, com angry, raiva, santa ou demoníaca, não tem jeito, há muito, freqüenta os corações e as prateleiras de vinis/CDs, dos batedores mundiais de cabeça. Que assim seja. Assim será.

(junho/2003)

Niva dos Santos - especial para o Portal do Rock

 

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