Rock Solidário
Show com as bandas Cólera, 365, Subviventes,
Lambrusco Kids e Tercera Classe

15/12/2000 - Zero 13 Beer - Santo André - SP

 

No último dia 15 de dezembro, sexta-feira de muita chuva e muito trânsito em toda a Grande São Paulo, o Portal do Rock colocou mais uma vez seu time em campo, em prol do rock and roll nacional.

 

Foi uma noite memorável para quem realmente curte rock com atitude, mas especificamente Punk Rock. Todas as bandas do set demonstraram muita energia e vontade de apresentar um show de excelente qualidade ao público que esteve no Zero 13 Beer. E foi o que aconteceu!

  Para abrir a noite e esquentar os coturnos dos punks que estiveram por lá, subiu ao palco a banda do ABC, Tercera Classe, que faz um punk rock bem básico, no estilo das melhores bandas de punk rock nacionais que tocavam pelo Brasil a fora no início da década de 80, entretanto, com letras conscientes e contestadoras. Valeu a presença galera!
 
 
 
 
 
Depois de esquentados os coturnos e os esqueletos da galera, foi a vez da banda paulistana Lambrusco Kids, que detonou com seu punk rock 77, com músicas próprias bem trabalhadas e covers de bandas consagradas como Sex Pistols, Toy Dolls, Sham 69, The Boys e Buzzcocks. A galera foi ao delírio, principalmente quando a banda fez o cover do Toy Dolls "Glenda and the Test Tube Baby". Destaque para o guitarrista Marcelo, que mesmo nos solos mais difíceis destes covers, segurou a peteca e foi impecável.  
 
 
 
 
 
 
  Lá por volta da uma hora da madrugada, sobe ao palco uma verdadeira lenda do rock paulistano, nada mais nada menos que a banda 365. A banda está voltando à cena e este show do ABC foi uma espécie de reencontro com um público que presenciou as primeiras apresentações da banda, há mais de 15 anos. Foi uma demonstração de competência e muita garra. Eles abriram o set com "Do you wanna dance" dos Ramones e depois abriram o baú de sucessos da banda e começaram a escalar canções como "Vila Morena", "São Paulo", e "Guerra e Paz". Fizeram também covers de bandas de punk rock das antigas além do cover de "I wanna be your dog", de Iggy Pop and The Stooges - pérola da história do rock, gravada por diversas bandas, entre elas Sex Pistols.
 
 
 
 

Decisão acertada do 365 em voltar à cena. O rock está precisando mesmo da originalidade e da simplicidade de bandas como esta. Não fizeram nenhuma exigência quanto ao equipamento de som. Não ficaram com nenhuma frescura no camarim, do tipo "quero isso, quero aquilo", se confraternizaram com todos os integrantes das outras bandas e mesmo com a galera que esteve presente no show. Parabéns ao 365 pela humildade e pela dignidade. Vocês provaram ter o rock na veia e isso é o que interessa. ATENÇÃO GRAVADORAS, a banda está com CD novo pronto e ainda está sem contrato com nenhuma empresa para o lançamento do CD. O que vocês estão esperando???
 
 
 
 
 
 
Quando a maioria dos punks e roqueiros que estavam agitando no show do 365 pensaram que teriam alguns momentos de descanso, eis que sobe ao palco uma das bandas mais populares e importantes do movimento punk do ABC, Subviventes, com seu punk rock de protesto e atitude, demonstrando muita vibração e presença de palco. O público, em sua maioria, sabia na ponta da língua todas letras das músicas e o show do Subviventes foi na verdade uma grande oportunidade de confraternização de final de ano para amigos que parecem ter muitas coisas em comum, dentre elas destaco a postura de fazer da banda um objeto para a melhoria das condições sociais do país.
  O pessoal do Subviventes, assim como os integrantes da banda Tercera Classe, organizam e promovem vários shows beneficentes, para arrecadar alimentos, brinquedos, etc., para instituições e obras sociais, como por exemplo o Projeto Meninos e Meninas de Rua de São Bernardo do Campo. Foi deles a idéia de fazer com que o show deste dia 15 tivesse um lado solidário, com a redução no preço dos ingressos para quem levasse 1 kg de alimento não perecível ou um brinquedo, a serem doados para as crianças do projeto de S. Bernardo.
 
 
 
 

O Brasil e o mundo precisa de pessoas assim, que acima do som, da curtição ou da revolta, tenham vontade e garra para mudar o "status quo" das coisas, unindo forças para que as adversidades sejam superadas mais facilmente. Parabéns amigos!!!

Bom, fechando a noite, lá pelas duas e meia da madruga, sobe ao palco a lenda do punk rock latino americano, o Cólera. O público já estava devastado, cansado e com a aparência de que não agüentaria agitar nem duas músicas do Cólera. Previsão errada. Redson (guitarra/voz), Pierre (bateria) e Fábio (baixo), lavaram a alma daqueles que resistiram firme a todas as dificuldades daquela noite: chuva, trânsito, sono, grana curta, chefe enchendo o dia todo e outros problemas do cotidiano de cada um.


A banda saiu e voltou ao palco três vezes, isto porque as cordas da guitarra do Redson teimavam em quebrar, demonstrando estarem mais fracas do que os caras da banda e do que a platéia convalescida. Mas que nada, rapidamente as cordas eram trocadas e o show continuava. Falando na guitarra do Redson, vai aí um pouco de cultura: segundo Redson, está guitarra vermelha que ele usa não tem marca, foi feita sob encomenda e acompanha o cara há 15 anos. Esta guitara com certeza já faz parte da história do rock nacional e deve com certeza ter seu lugar no museu do rock brasileiro, se um dia este museu existir...
 
 
 
 
 
Falando do show, o Cólera dispensa comentários. A banda simplesmente detona em todas as suas apresentações e realmente tem um respeito muto grande por seu público e sua platéia, seja ela composta por 10 mil, mil pessoas ou dez gatos pingados. A intensidade do show é sempre a mesma. Que pena que bandas como o Cólera não tenham seu devido espaço e valorização na mídia brasileira. Em pensar que bandas como Paralamas do Sucesso já abriram shows para o Cólera, não dá mesmo para entender o porque desta rejeição da mídia. Talvez seja muita ingenuidade minha, mas será que o Cólera, com suas letras e com sua atitude incomoda alguém? Claro que sim!!!

Dentre o repertório da banda, destaque para "Qual Violência", "Palpebrite", "Funcionários", "Pela Paz" e mais outras cerca de 25 canções desta "velha" porém contemporânea banda de rock paulistana, que segue firme levando sua mensagem e seu exemplo pelo Brasil à fora.

Conversando com Pierre minutos antes do show, um pensamento me chamou muito a atenção. Segundo ele, Redson, vocalista e compositor de todas as músicas da banda, conseguiu implantar na banda um sistema onde mesmo com toda a batida forte do som pesado do Cólera, com toda a distorção da guitarra e com toda a velocidade das músicas, as letras possam ser ouvidas e entendidas claramente pelas pessoas. Pierre disse que eles têm a preocupação maior com as letras, pois elas devam levar algum tipo de mensagem às pessoas que faça com que elas mudem e mudem o mundo. A música, a sonoridade, segundo ele, é somente um complemento para a letra, que nada mais é do que a transcrição da filosofia da banda e do "ser punk" em geral.

Este evento Rock Solidário, foi mais um grande sucesso realizado pelo Portal do Rock, em conjunto com o Zero 13 Beer e com o apoio único e exclusivo das bandas participantes: Cólera, 365, Subviventes, Lambrusco Kids e Tercera Classe e do público que cada vez mais reconhece a importância deste tipo de evento e apoia com sua presença. Obrigado a todos!

Marcio Faveri - da redação

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