Garotos
Podres - Live
In Rio
(Independente)
A mais antiga banda brasileira de street punk, ou Oi!, como queiram,
presenteia fãs e detratores (que renegam a banda mas acabam ouvindo)
com vinte clássicos ao vivo, gravados no "Balroom",
Rio de Janeiro em 15 de Outubro de 2000. O ultimo show que eu assisti
dos GAROTOS PODRES em São Paulo foi, acho que, em 2001 no Hangar
110. Meia dúzia, entre centenas, foi o suficiente para que rolasse
uma treta. Essas coisas são fodas porque, os caras ficam cada
vez mais restritos em espaços para apresentações
em Sampa e os fãs paulistas, conseqüentemente, sem poder
assistir e curtir um show da banda.
No começo dos anos oitenta eu freqüentava um bar em São
Caetano do Sul, no ABC Paulista, chamado "Casa Grande". Lá
sempre se reunia o pessoal que fazia um som nessa região e alguns
de São Paulo. O pessoal dos "Garotos" sempre estavam
na área e foram incontáveis os porres coletivos. Durante
essa década, participamos de dois shows juntos (se você
não sabe, a minha banda é a PÁTRIA ARMADA): na
"Praça do Rock", em Santo André e num show em
frente a FATEC, faculdade de tecnologia de São Paulo. Agora (2002)
que o GP faz vinte anos de estrada, minha banda participa do tributo
"Vinte Anos de Podridão", juntamente com mais vinte
e duas bandas dos mais variados estilos.
Escrevo essas coisas um pouco fora do contexto desse review, só
para dizer que, já passou da hora de deixarmos os preconceitos
de lado, e que também é necessário buscarmos a
verdade dos fatos antes de qualquer julgamento. Cabe dizer também
que, nenhuma banda pertence a nenhum grupo, movimento ou qualquer outra
coisa. Dito/escrito isso, vamos ao disco.
Da segunda formação (1984 à 1997, a mais conhecida),
só o Português não esta mais na banda. No seu lugar,
o Capitão Caverna, que tem uma pegada forte, num estilo diferente
do Português, acrescentando um pouco mais de peso e velocidade
ao grupo. Mau continua no vocal, Sukata no baixo e Mauro na guitarra.
Mau cresceu em ironia e, no início de varias das musicas, é
possível ouvir muito dessa característica adquirida nesses
vinte anos. A banda nunca se preocupou com virtuosismos (e nem deveria),
então, o som continua cru e direto (como deve ser), excetuando-se
o comentário feito com respeito à entrada do Capitão
Caverna. As letras variam do puramente político (quase todas
escritas por Mau que é professor de história), e de cunho
irônico, que também não deixa de ser político,
espécies de "charges" sonoras. E não existe
enrolação, vinte musicas em 51:48 minutos.
O disco abre com uma das mais antigas e conhecidas, "Garoto Podre",
e continua com "Oi! Tudo Bem?", "Arriba! Arriba!".
"Johnny", que preferiu a pena do morte do que ser deportado
para o Brasil é a quarta. "Rock de Subúrbio",
uma espécie de hino para quem mora no subúrbio e sabe
que a música é uma das únicas formas de resistência/sobrevivência
para quem mora nessas quebradas esquecidas por todos, é a quinta.
"Skinhead Girl" é uma das duas covers do disco, pra
sair pogando. Depois tem "Verme", seguida de "Eu Não
Gosto do Governo" (canta Mau, atualizando a letra "Eu não
acredito/que Fernando Henrique é progresso"). "Zé
Ninguém", outro hino, dessa vez, aos excluídos, ou
melhor dizendo, aos fudidos.
Esse CD ao vivo reúne, digamos, as preferidas ou mais conhecidas.
A décima, por exemplo, é sobre aquele velho "batuta"
de vermelho, símbolo máximo do colonialismo americano.
A onze é "O que eu vou ser quando crescer? A doze é
sobre um dos muitos crimes cometidos no Brasil. Em 1988, trabalhadores
foram fuzilados em frente à Cia. Siderúrgica Nacional
pelas forças de repressão. É a letra mais forte
escrita por Mau, numa levada ska, a belíssima "Fuzilados
da C.S.N. Grita Mau, "O futuro vos pertence", máxima
do socialismo. O pé de vodka Boris Yeltsin dá nome à
treze, enquanto os portugueses do MATA RATOS (leia entrevista exclusiva
neste portal), são homenageados na quatorze, a segunda cover
do CD, "Expulsos do Bar", seguida por uma das que eu mais
gosto (nossa participação no tributo), a forte "Subúrbio
Operário".
Mau comenta no início da dezesseis, "Fernandinho Veadinho",
que não agüenta mais o "Fernandismo". Essa musica
é uma singela "homenagem" ao pilantra que botou uma
quadrilha na direção do Brasil e, por tabela, ao outro
Fernando picareta que felizmente (2003), vai nos deixar em paz (quase
dos cemitérios). "Mancha" é a dezessete, seguida
de outra clássica das antigas "Anarquia Oi!", numa
versão um pouco mais acelerada que a original (Capitão
Caverna, Mauro e Sukata, enfiando o braço nos seus respectivos
instrumentos!). A penúltima "O Mundo Não Para de
Girar" é mais um ska; "Vou Fazer Cocô" fecha
as vinte faixas.
A cena punk brasileira cresceu bastante. Bandas e mais bandas aparecem
todos os dias, algumas resgatando as "pegadas" dos passado,
enquanto outras preferem seguir a trilha do chamado "novo punk".
Essa cena renovada existe devido aos pioneiros, que abriram caminho
numa época em que ser/tocar punk, significava meio caminho andado
pra delegacia. GAROTOS PODRES estão entre esses pioneiros que
seguiram em frente nesses últimos vinte anos, sem interrupção.
Só esse detalhe seria motivo mais do que suficiente para que
eles fossem tratados de forma mais justa, não fossem eles também
uma banda foda naquilo que faz. Vamos aguardar e torcer para que as
mentes, e não só a tecnologia, também evoluam.
SHOWS: (11) 5183-9704/5183-4754
GAROTOS PODRES na net : www.garotopodre.cjb.net
(Niva
dos Santos)

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