Sepultura
- Nation
O
maior acontecimento já presenciado por alguns sortudos geólogos, foi
o nascimento de uma vulcão no México muitas décadas atrás. Na segunda
metade dos anos oitenta, aqueles que já eram fãs do bom e eterno Heavy
Metal, também presenciaram o nascimento de um "vulcão" brasileiro de
nome SEPULTURA. O vulcãozinho Mexicano acumulou lava nas suas bordas
até se tornar um vulcão de respeito. O vulcão brasileiro também e se
transformou nesse fenômeno que é hoje.
Tudo começou com o lançamento de um split com o OVERDOSE (outra banda
Mineira) em 1985, quando eles se chamavam Max Possessed, Tormentor,
Igor Skullcrusher e Destructor. Com o lançamento desse NATION, o 9°
álbum de estúdio, a banda que começou DEATH/BLACK METAL, reafirma a
sua condição de grande banda, no mesmo patamar de monstros como MOTORHEAD
e BLACK SABBATH. Mesmo apostando no potencial do grupo, acredito que
aqueles moleques de Belo Horizonte, nunca imaginaram que um dia, um
dos irmãos fundadores não faria mais parte da banda e que eles atingiriam
fama mundial nunca alcançada por nenhum artista brasileiro em qualquer
modalidade artística.
É claro que vocês sabem de qual irmão eu estou falando. As feridas ainda
estão abertas mas, o Sepultura sobreviveu e MAX CAVALERA fundou o SOULFLY
. O substituto , o gigante Estadunidense Derrick "Predator" Green, tem
um vocal tão poderoso quanto o de Max e, se considerarmos a recepção
da banda no Rock In Rio III, ele já foi totalmente assimilado pelos
"Sepulfãs".
A primeira coisa que chama a atenção no NATION é a primorosa produção,
começando pelo trabalho gráfico. Durante os anos da União Soviética,
principalmente nos primeiros pós revolução, a arte se guiava pelo que
foi chamado de "Realismo Socialista", que imprimia uma imagem de grandiosidade
em qualquer criação dessa época, visando enaltecer o sistema Bolchevique
capitaneado por Lenin. Esteticamente falando, tanto pelo vermelho predominante,
quanto pelas gravuras utilizadas, o encarte do Nation lembra muito essa
arte. Leiam bem meus camaradas! Eu não estou falando de ideologia mas
sim de designer! Uma outra referência, são as caricaturas dos caras
da banda, com traços parecidos com os de Todd McFarlane, criador do
personagem SPAWN. A falta das letras das música é suprida pelo site
oficial (www.sepultura.com.br). Também o papel utilizado na confecção
do encarte (plastificado) é de excelente qualidade.
A concepção do Nation é a de um país imaginário, a "Sepulnation", uma
nação Sepultura, contando inclusive com um hino, a faixa 15, "Valtio"
("União" em Finlandes) ,executado pelos Finlandeses do APOCALYPTICA,
que só utilizam Violoncelos. Mas, para tentar posicionar esse novo disco
dentro da história da banda, muito embora a intenção aqui seja apenas
comentar o novo álbum, vamos dar uma rápida passada pelos trabalhos
do Sepultura nesses quinzes anos pós fundação.
Nos dois primeiros discos, "Bestial Devastation" de 85, o split com
o Overdose e, o "Morbid Vision" de 86, ambos com Jairo T. na guitarra,
a influência era de bandas como HELLHAMMER e KREATOR e, o grupo assinava
como DEATH METAL, com letras recheadas de diabos e anticristos, com
toda a precariedade decorrente de um inglês de dicionário, deficiências
instrumentais de quem estava começando e, gravações toscas inerentes
aos equipamentos e aos conhecimentos técnicos da época. Com o álbum
"Schizophrenia" de 87, ocorre um salto qualitativo gigantesco com a
entrada de Andreas Kisser como guitarrista principal. O instrumental
fica muito mais sólido, os demônios são abolidos das letras, que ganham
em conteúdo. Igor Cavalera melhora e muito na bateria, o vocal de Max
Cavalera tem um crescimento extraordinário em pronúncia, dinâmica e
volume e, a grande influência da banda nesse disco é o grande SLAYER
(e se manteria nos próximos dois). É um disco rápido e pesado, muito
bem estruturado, mesmo com a gravação ainda meio precária, prejudicando
um pouco a banda.
O pulo do gato do Sepultura acontece com o "Beneath the Remains" de
89, com produção e mixagem gringa. É a maioridade da banda com reconhecimento
internacional. O pêso e a velocidade aumentaram e ela passa a fazer
parte do cast da "Roadrunner". "Arise" de 91 solidifica ainda mais o
grupo tanto no mercado interno quanto no externo e, a consagração definitiva
chega com o devastador "Chaos AD" de 93, quando a banda começa a flertar
com ritmos Brasileiros. Considero esses três discos, os melhores da
carreira do Sepultura, que deixaria de ser influenciada para ser influenciadora.
Em 96, depois de três anos longe dos estúdios, é lançado "Roots" , o
mais aplaudido de todos em escala mundial, vendendo mais de 3 milhões
de cópias, onde a banda radicaliza na percursão e, é quando a velocidade
da lugar a um peso descomunal, as letras ganham mais conteúdo crítico
e, o vocal de Max se aproxima daquilo que conhecemos hoje. E é o seu
último disco com o Sepultura. Como já foi dito, no seu posto entraria
Derrick Green e o primeiro disco dele com a banda é o "Against" de 98
e, finalmente esse "Nation" de 2001.
NATION, AS MÚSICAS - Parte das músicas nesse "Nation" (e no "Against"
também) soam como "Nu Metal" , o que deve ter desagradado os fãs que
não gostam de mudanças radicais na sua banda preferida. Na verdade,
acredito que muitos dos fãs "das antigas" começaram a abandonar a banda
há três álbuns atrás, quando o sepultura começou a adicionar novos elementos
à sua música. Mas, o que desagrada alguns acaba agradando a outros.
Então, o aumento de fãs deve ter sido proporcional ou até maior em relação
aos desgarrados, sem contar com a permanência daqueles dos primeiros
dias, que entenderam/entendem os trabalhos novos, como uma evolução
na carreira do Sepultura, sem deixar de sentir falta das porradas de
um "Arise" , por exemplo e, é entre esses que eu me enquadro.
Acredito que o Sepultura busca uma diferenciação num mercado atolado
de coisas iguais. Essa história de "Nu Metal" que surgiu como um "revitalizador"
do Heavy Metal, acabou nivelando uma porrada de bandas, que pensam que
são diferentes mas soam como clones. E é esse o grande risco: muita
gente querendo ser diferente e fazendo tudo igual, consciente ou inconscientemente.
Mesmo revitalizado (não pelo NM!), o Heavy Metal encontra-se num encruzilhada,
com o "Metal Melódico" de um lado e o "Nu Metal" do outro. Nas outras
duas pontas, as bandas das antigas que resistem e algumas bandas novas
preocupadas em resgatar os elementos que forjaram o Heavy Metal. Vamos
às faixas:
1-SEPULNATION- A banda tocou essa música no Rock In Rio III mas, tiveram
que parar na metade para tirar um fã que invadiu o palco, das mãos dos
seguranças. Peso descomunal, pouca velocidade, com o vocal de Derrick
funcionando quase como mais um instrumento (constante em muitas das
músicas). Continuidade da temática "tribo", já explorada em outros álbuns
e também nos discos do SOULFLAY de Max Cavalera. A tribo agora virou
uma nação: SEPULNATION!
2-REVOLT- Hardcore mesmo! Porrada de 56 segundos. Impossível ficar parado.
"Essa é a trincheira que nunca se rende/lutando no front, atacando o
ninho deles".
3-BORDER WARS- Outra arrastadona com o vocal do Derrick soando meio
parecido com o do Wattie do EXPLOITED. Na verdade, um mix de vocal "calmo"
e no "talo". Você que estava acostumado com os solos de Andreas a la
SLAYER, esquece. Como eu já havia escrito na matéria sobre o Rock In
Rio III, Andreas desevolveu um estilo muito particular na guitarra e
os solos, seguindo esse estilo, são rápidas intervenções com muito sustainer
e ruídos. A letra escrita por Andreas e Derrick, fala de um mundo repleto
de fronteiras onde uma pessoa não pode expressar toda a sua potencialidade.
4-ONE MAN ARMY - Única letra escrita apenas por Igor. Participa também
da Sepulnation com Andreas. Começa meio FAITH NO MORE e depois, vocal
no talo. A diferença básica entre Max e Derrick é que a voz do segundo
é naturalmente grave. E ele tem total controle sobre ela, como mostra
essa música. A letra é sobre os que não se rendem: "Nossa verdade vai
ecoar e ecoar para sempre/atormentando você eternamente". Outra arrastadona.
5-VOX POPULI- Parece que uma das preocupações da banda foi explorar
todas as possibilidades de Derrick Green, como ocorre em mais essa música.
Na letra "a voz do povo" que grita, "Nós estamos cansados de tanta desgraça/nós
estamos cansados de viver doentes/nós estamos alimentando o nosso ódio/nós
estamos cerrando os nossos punhos". Levada pra pular e bater cabeça.
6-THE WAYS OF FAITH- "Quase" METALLICA fase nova, não fosse as "apodrecidas"
do vocal em certas partes. É aquilo que eu escrevi logo mais atrás:
para os fãs que enxergam cada disco como evoluções na carreira da banda.
No que diz respeito ao conteúdo da letra, é interessante verificar a
diferença entre homens e crianças. Explico: nas primeiras letras escritas
por adolescentes, é claro que seguindo a corrente dominante do Metal
na época, uma série de "blasfêmias" contra "Deus". Agora adultos, "Em
nome de Deus, deixa eu viver a minha fé". "Radicais" vão detestar.
7-UMA CURA- Só o refrão é em Português. Mistura de Mangue Beat/Nu Metal.
Instrumental se alternando no esquema "calmaria/explosão (característica
do NM). Fala das mazelas do mundo atual mas com uma visão otimista pois,
afinal de contas, pode existir "uma cura".
8-WHO MUST DIE?- Arranjos parecidos com os da 4º "One Man Army", com
vários efeitos nos vocais com passagens que também lembram "Faith No
More". Ficaria melhor se a levada fosse rápida a música toda. Mais uma
boa letra num disco com muitas outras boas letras. Vivemos uma espécie
de eugenia sensitária, ou seja, se na época de Hitler (e também em guerras
recentes como Sérvios x Kosovares ) a limpeza étnica era declarada,
agora ela é feita através do não usufruto por parte de todos das evoluções
científicas, como as alcançadas na medicina, por exemplo. Vide os grandes
laboratórios, detentores das patentes farmacêuticas, querendo punir
países pobres, como o Brasil, onde o governo quebrou algumas dessas
patentes, fabricando vários dos remédios utilizados na melhoria de vida
dos portadores de HIV (os fabricados pelo laboratórios proprietários
custam fortunas). Então, "Quem decide os que devem viver nesse mundo?/Quem
decide os que devem morrer nesse mundo?"
9-SAGA- Outra que a banda tocou no RIR III. Muitos efeitos nos vocais
que se entrelaçam em delays/chorus, etc. Algumas passagens soam até
meio "Árabe". Arranjo intricado com uma levada um pouco mais rápida.
"Saga" é uma palavra muito usada para descrever feitos heróicos. Nada
mais heróico do que sobreviver nos dias atuais. Os fãs receberam muito
bem essa música no RIR III.
10-TRIBE TO A NATION- Porradaria com a guitarra numa afinação absurdamente
baixa (como em todas as demais). A batida da batera é HC. Uma espécie
de continuação da primeira "Sepulnation", ou seja, a reafirmação de
uma tribo que agora é uma nação. Conforme o já citado, um tema constante
nas músicas do Sepultura e também do Soulfly. Letra de Derrick Green
reafirmando a sua sintonia com a banda. "Tribo para nação/nós crescemos/tudo
que nós fazemos é acreditar/nenhum retorno".
11-POLITRICKS - Letra de Andreas e Jello Biafra do saudoso DEAD KENNEDYS,
que também segura nos vocais. O baixo parece um aparador de gramas atômico.
Algumas passagens de guitarra lembra BRUJERIA. Derrick participa nos
refrões numa interessante combinação com o vocal de Jello Biafra. Mesmo
não assumidamente, crítica mordaz ao modo de vida dito civilizado ditado
pelos americanos Estadunidenses: "Nós temos o dinheiro/nós temos o poder/nós
temos as armas/nós temos TV".
12- HUMAN CASE - Outro Hardcore fudidaço de 58 segundos. Pra sair batendo
cabeças!
13-REJECT- Outra arrastadona com vocal esguelado e vários efeitos. Mais
uma nitidamente influenciada pelo Nu Metal. Deve funcionar bem ao vivo.
Outra com letra só do Derrick onde a TV e as mentiras prometendo uma
vida melhor para todos são abordadas: "Os sonhos de saúde/uma fantasia
comum/são apenas ilusões/que você vê na TV". Rejeite. As promessas,
não a música.
14- WATER- Essa, com letra de Andreas e Green, continua na temática
anterior, "Não acredite nisso só porque você já ouviu antes". Quase
um PINK FLOYD, mostrando que Derrick sabe extrair muito mais da sua
voz alem dos costumeiros tons altíssimos. Música acústica.
15- VALTIO- O já citado hino, belíssimo trabalho instrumental da banda
APOCALYPTICA . Usada na abertura da apresentação da banda no RIR III
(play back, é claro), enquanto a banda se preparava no palco. Impossível
não se emocionar com esse trabalho, que arrepia até o último fio de
cabelo do corpo.
Essas são as músicas normais do CD. A versão Brasileira vem com cinco
bonus, entre covers, uma gravação ao vivo e uma versão demo da "Revolt".
Nunca é demais repetir, a excelente produção gráfica e musical desse
disco, com alguns detalhes, conforme eu já disse, que com certeza desagradarão
alguns fãs, sem deixar de conquistar novos.
Disse também que sentia a falta da velocidade e do peso de um Arise,
aquela vontade não satisfeita de chegar na última faixa de um CD novo
achando que faltou alguma coisa. Mas é um trabalho que merece ser ouvido
várias vezes, já que é repleto de detalhes, exigindo audições bem atentas
para serem percebidos. Finalizando, não sou tão presunçoso a ponto de
querer indicar caminhos a ninguém mas, acredito que uma olhadinha para
o passado só enriqueceria ainda mais o trabalho dessa grande banda Brasileira.
Go ahead irmãos!!
Niva dos Santos - especial para o Portal do Rock

Retorna
a Reviews