Rueiros
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Espírito 69
Faz
um ano que eu estou com este CD, cheio de dúvidas, se escrevo
ou não sobre ele. A dúvida é muito simples - existe uma confusão muito
grande no Brasil sobre o estilo Oi!. Existe uma mentalidade quase linear
de que as bandas desse estilo são todas nazistas. O fato de três carecas
não sei do que, terem forçado dois adolescentes a pularem de um trem
em Mauá, São Paulo, um deles falecendo e o outro perdendo um braço,
muito recentemente, só deve ter reforçado essa idéia. Idéia errada,
se me permitem, baseada na maldita generalização. Qualquer cachorro
morde, mas só os pitbuls aparecem na imprensa. Mas a grande culpada
nessa história toda é justamente a merda da imprensa sensacionalista,
que faz a parte virar o todo.
Imaginem um assassino que é fã de Roberto Carlos. Isso torna o "rei"
semelhante ao meliante? Um fora da lei qualquer que é preso com a camisa
de um time, torna todos os torcedores desse time marginais? Lembram
quando tentaram incriminar o PT em seqüestros, quando prenderam um seqüestrador
que usava a camisa da agremiação política? Uma grupo nazista com filiais
em vários países adotou os dois martelos cruzados do filme "The Wall"
como símbolo. Isso torna o filme nazista? Muito pelo contrário, o filme
baseado no álbum do Pink Floyd, é um libelo contra a intolerância! No
caso do estilo Oi!, simplesmente um grupo radical qualquer, muito depois
do mesmo aparecer, o adotou como estilo dele. E deu no que deu.
Em todo caso, RUEIROS é uma banda Oi! de Curitiba, Paraná e, em Maio
de 2002, era formada por Moya (vocal), Rodrigo (bateria), Coxinha (guitarra
e backing) e Negão (baixo e backing). O CD deve ter sido gravado quase
ao vivo, cru, toscão, com sete músicas em pouco mais de 14 minutos.
Moya estica nos "erres" quando canta, vocal em estado bruto.
A primeira faixa é "Mina Careca" e fala do comum encontro entre um cara
e uma mina. A dois é ska, "Street Oi!", sobre as baladas de quem sai
na noite.
"Sul e Nordeste" diz o seguinte - "Sul e Nordeste é sempre a mesma coisa
/ Palhaços querendo separar o Brasil". A quatro, "Street Punk", é uma
espécie de hino ao estilo - "Punk, skin, andando nas ruas, música Oi!
para eles" e "Negros e brancos andando juntos, música Oi! para eles".
Na cinco, "Espírito 69", grita Moya: "Você se lembra daqueles tempos
/ Woodstock era a coisa do momento / verão de paz e amor / cabelo impregnado
com seu fedor". Na penúltima, "Cabeça Oca", julgue você mesmo - "Você
se acha o maioral / Raspando a cabeça botando um visual / Pensa que
é só isso / Mas não sabe nada desde o início / Cor de pele não é nada
/ Sai fora do som, não queime a fachada" e ainda "apanhou muito quando
era criança / virou neonazista, pura ignorância / Raça ariana, vai se
foder / Brasil é Oi!, aqui pra você / Oi, oi, oi, oi ,oi , cabeça oca".
A última, "Foda-se o Amor Livre" é uma pisada na bola, politicamente
correto falando, contraditória com a faixa cinco, "Espírito 69" - "Foda-se
o amor livre / Amor livre é coisa pra hippie". E chegamos ao fim do
CD.
É isso caros amigos. Diz uma das músicas do grande Chico Buarque - "Não
adianta dormir que a dor não passa". Pois é, um problema não desaparece
simplesmente enfiando a cabeça na areia como um avestruz. Se ele existe,
deve ser discutido. Por outro lado, quantos não gostam de Oi!/street
punk (e várias outras coisas!), mas tem medo de assumir devido ao preconceito?
Mais uma vez, vou apelar para o velho e bom antropofagismo - vamos valorizar
o que é bom e cuspir fora o que não presta. Não se destrói preconceitos
com mais preconceitos.
(Niva dos Santos)

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