Janeiro de 1985. Até este mês e ano, o Brasil nunca havia sediado um grande festival de rock. Ainda hoje existe na cabeça de estrangeiros mal informados a idéia de que o país é um lugar onde os macacos passeiam livremente nas ruas e é muito comum tropeçar em cobras por esses mesmos caminhos. Faça uma viagem de quinze anos no tempo e tente imaginar como era então. Imagine a briga de foice que deve ter sido, convencer patrocinadores e músicos a participarem de um Mega empreendimento num pais sem nenhuma tradição no ramo e com esses estereótipos. Pois bem, Roberto Medina, um político carioca situacionista, resolveu, peitar esse desafio. Construiu no Rio de Janeiro, na Barra da Tijuca, próximo ao autódromo de Jacarepaguá, um gigantesco espaço, com 500 mil metros quadrados, numa região pantanosa que foi coberta por brita (que a chuva se prontificaria em transformar em pântano novamente) batizado pela mídia de Cidade do Rock, onde foi realizado o primeiro e maior festival de rock do Brasil de todos os tempos, visto que, nesses quinze anos pós festival, nenhum outro se igualou a ele em nenhum quesito. Foram dez dias de festival, dezenas de artistas nacionais e gringos de qualidade (quase todos), público de mais de um milhão de pessoas, consumo de toneladas de pizzas, suco de laranja e cerveja. Três palcos giratórios com 80 metros de frente, equipamentos nunca vistos no Brasil (havia até um que fazia a correção da pequena defasagem de tempo entre o som que saia dos PA's na frente do palco e o que saia de umas torres no meio do público). As chuvas também foram dignas do Guiness Book. Depois da primeira, o Rock In Rio virou Rock In Lama. Mas, quem ligou?
  Comprei o chamado "PASSAPORTE 10 DIAS" de N°042111, pago em três vezes e, no dia 11.01.85, na parte da manhã ,catei o busão da Itapemerim, se meus neurônios não estiverem de sacanagem comigo, na rodoviária Tiete, São Paulo, Capital. Tinha que ser de manhã, porque o festival começaria naquela noite com uma única apresentação da Donzela de Ferro, claro mano véio, o grandioso IRON MAIDEN, excursionando na turnê do álbum POWERSLAVE ("Escravo do Poder"), com toda a parafernália original dessa turnê mundial, coisa nunca dantes vista em terras tupiniquins. O Iron tocaria na Sexta e, no Sábado, pela manhã, já estaria de novo dentro do avião, indo para novos lugares, onde novos alucinados, com certeza, estariam esperando a banda. Nem sei se naquela época neguinho já usava com tanta intensidade a palavra adrenalina, da forma que ela é usada hoje mas, a minha estava a milhão.

Durante a viagem, enquanto o busão cortava a Baixada Fluminense, eis que passa por nós uma rapa de motoqueiros. Lembro-me que olhei pela janela e vi um garupa todo engesado. Devia ter tomado um belo chão. A Placa era de um país vizinho, não sei se Paraguai ou Argentina. O cara mesmo vestido de múmia aparentava não estar nem aí com porra nenhuma. Agitava pra caramba braços e pernas. Devia estar muito louco. A Baixada Fluminense com toda a sua história de violência, em plena metade dos anos oitenta, com suas Jaqueiras e Mangueiras, observava a passagem daqueles alucinados, como que buscando algum Eldorado. Não consegui imaginar o que viria pela frente. Só sabia que seria algo pra se guardar para sempre.

Durante alguns anos, dois cariocas moraram bem próximos da minha casa. Eram irmãos e com o tempo os dois se transformaram em grandes amigos de baladas, shows e muita breja. Acostumados com a vida na praia, não conseguiram ficar muito tempo longe da terra onde nasceram e voltaram para o Rio. Seus nomes, Carlos e Edimilson. Meus dias na cidade maravilhosa, seriam na casa deles, em Coelho Neto, perto de Vigário Geral, onde rolou aquela matança muitos anos depois. O Rio de Janeiro é um lugar de beleza única e estranha. A riqueza lá embaixo e a miséria subindo os morros. É a imagem da pirâmide social às avessas. La encima a pobreza. Embaixo a riqueza enjaulada como em prisões mas, essa é outra história.

SEXTA FEIRA, 11 DE JANEIRO DE 1985

Primeiro dia de festival. Todo o trânsito foi modificado priorizando o transporte coletivo. Quem quisesse ir de carro tinha que deixar o mesmo a mais de 5 quilômetros do local do show. Depois tomava um buzão e era largado a quase dois quilômetros dos festival e o resto tinha mesmo que ser na caminhada. Os portões eram abertos ao meio dia (mais de 100 catracas!) e a primeira atração subia no palco às 18:00 horas. A última tinha como previsão de término, mais ou menos, duas da madrugada, se nada desse errada. O QUEEN, por exemplo, numa das duas apresentações no Rock In Rio, subiu no palco com uma hora e meia de atraso. Os palcos eram três e giratórios. Enquanto um era ocupado com uma atração, num outro eram dados os retoques finais para a próxima.

Mas, falávamos da sexta feira. Calor de rachar mamona, sol a pino. Até hoje eu me pergunto, qual foi o critério utilizado para escolher as atrações que se apresentariam numa mesma noite. Naquele distante 11 de Janeiro de 85 a escalação era a seguinte: Ney Matogrosso, Erasmo Carlos, Pepeu Gomes e Baby Consuelo (grávida de nove meses do sexto filho), Whitesnake, Iron Maiden e Queen. Como vocês podem notar e, notarão mais pela frente, a mistura era no mínimo indigesta. Erasmo Carlos, usando uma roupa que fazia dele uma espécie de alien, foi literalmente humilhado naquela noite. No meio de vaias e saraivada de brita, teve simplesmente que abandonar o palco. Essa atitude não se justifica. Não gosta, cai pro fundo, vai tomar uma cerveja, faz qualquer negócio mas, o erro principal estava justamente na escalação e também no fato do tremendão insistir em cantar "Gatinha Manhosa" e "sentado a Beira do Caminho" frente a uma batalhão de alucinados berrando "Iron, Iron".

Pepeu que não era nenhum otário, logo depois do Erasmo Carlos, sobe no palco arrepiando na guitarra, o que ele faria novamente no sábado, dia 19 e, se não agradou, pelo menos não foi vaiado. Respeito muito o Pepeu Gomes como instrumentista e, era justamente esse Pepeu que se apresentou naquela noite e portando achei que ele mandou muito bem. Baby e aquela coisa de "Menino do Rio" não tem nada a ver comigo. Durante o show do Ney Matogrosso eu estava mais preocupado em sobreviver ao empurra-empurra (igual a qualquer local com grandes aglomerações , essa situação se repetiria em todos os dez dias de festival). Nunca fui fã do Whitesnake e do Queen eu só gosto de algumas faixas dos álbuns "Night at the Opera" e "Day at the Races". Eu estava lá era mesmo para ver o IRON MAIDEN, no auge da carreira, na turnê do magnífico álbum POWERSLAVE, como já citei anteriormente. Assim como eu, muitos aguentaram várias horas colados na frente do palco, não arredando o pé nem a pau e, com perdão da má palavra, quando dava vontade de dar um mijão, providenciava-se uma roda e a coisa rolava ali mesmo. Quem não suportava o calor e a pressão de quem queria chegar próximo ao palco a qualquer custo, acabava passando mal ou mesmo desmaiava e era guinchado pelos seguranças por cima da cerca de proteção.

Muita fumaça, explosões, O Iron Maiden está no palco, abrindo o show com a vigorosa "Two Minutes To Midnight". O palco era uma reprodução das ilustrações do "Powerslave", feitas pelo grande Derek Riggs, inspirado em motivos egípcios. Bruce corria feito louco sobre o palco, subindo nos Marshall, empunhado uma rota bandeira Inglesa. Um acidente com um microfone fez um pequeno corte próximo ao seu olho esquerdo fazendo com que um pequeno filete de sangue escorresse pelo seu rosto numa forte metáfora, "Sangue pelo metal". Os deuses do NWOBHM ( "New Wave of Britsh Heavy Metal"- Nova onda do metal Britânico), frente a uma multidão extasiada de fãs, mostravam porque eram os melhores, detonando clássico atrás de clássico. Esses foram muitos, difícil lembrar de todos mas, eles tocaram naquela noite, preciosidades do tempo do também poderoso vocalista Paul Dianno, tais como Killers e também musicas do álbum de estréia de Bruce na banda, entre elas, a mais esperada da noite, que dá nome a esse disco de estréia, "The Number Of The Beast" e, é claro, músicas do álbum que dava nome a turnê com destaque para a música titulo. Mais de uma hora de show depois, valeu a espera, valeu o sufoco, valeu Iron!
 

SÁBADO, 12- Justamente por ser Sábado, o local parecia um formigueiro humano. No set de artistas para esse dia, nada que fizesse um rocker feliz. Do lado gingo, James Taylor, Al Jarreau e George Benson. Dos nacionais, Gil, Ivans Lins e Elba Ramalho. James Taylor, cantor de música Folk americana, mistura baladas com rock maneirinho, com muita estrada uma vez que canta desde a década de 70. É uma artista que fica vários anos numa espécie de hibernação e subitamente reaparece. Suas apresentações no Rock In Rio podem ser conferidas no disco Live In Rio. Al Jarreau trafega pelas praias do Jazz. Sua característica principal e a capacidade de imitar instrumentos. No Rock In Rio estava com 44 anos, portanto morde o sessenta nesse fim de século. George Benson, guitarrista de Jazz com pitadas de Pop e Funk, chegou a se apresentar com Ivan Lins de quem se dizia fã.

Respeito um trabalho bem feito mesmo não gostando mas, como ocorreria mais vezes, fui mais para cumprir tabela. Fiquei de canto comendo pizza e bebendo cerveja (isso me faz lembrar uma resolução idiota que proíbe venda de cerveja nos shows de rock, pelo menos aqui em São Paulo. É igual a festa de rato sem queijo. Pura idiotice porque, quem quiser já entra chapado e, alem disso, idiota arruma encrenca de qualquer jeito, com cerveja ou não). Quando o bode batia, tomava um saco (mesmo!) de suco de laranja e tudo bem.

DOMINGO,13- Dia devagar quase parando, com a participação do egocêntrico Rod Stewart e as suas setenta toalhas brancas, exigência de última hora, Nina Hagen e Go-Go's nas atrações internacionais e, Blitz, Lulu Santos e Paralamas do Sucesso, que era considerado New Wave ( um dos sub-produtos da primeira onda do Punk Rock) na época. A chuva marcou presença de forma rápida mas, sinalizando o clima de "Perfect Storm" que viria. Nina Hagen, alemã em quem ninguém apostava nada, foi uma das boas surpresas do festival. Dona de uma voz poderosa, com alternâncias entre volume extremo e calmaria, com roupas de misturas inusitadas e caretas idem, foi muito aplaudida . GoGo's, uma banda também dita New Wave, formada por gordinhas americanas, era no máximo, engraçadinha. Lulu Santos ainda tinha uma veínha roqueira. Blitz era mais um engodo da indústria fonográfica brasileira da mesma forma que foi RPM e continua sendo hoje, falsos pagodeiros, sertanojos e a chuva de bundas vindas da Bahia e assemelhados. O que salvou a noite foi mesmo Nina Hagen e olha lá.

 

SEGUNDA, 14- Todos que participaram do Rock In Rio, menos o Iron Maiden que cumpria uma turnê de 300 shows em 22 países e só tinha a Sexta 11 disponível na apertada agenda, se apresentaram duas vezes durante os dez dias de festival. No quarto dia, participaram pela segunda vez, Alceu Valença, James Taylor e George Benson. O Ex-Novos Baianos Moraes Moreira faria a sua estréia. Pra não dizer novamente que eu fui só pra cumprir tabela, assisti aos shows dos brasileiros. No mais, cerveja, pizza...

TERÇA, 15- Meus camaradas, é uma merda você ficar sózinho num lugar onde não conhece nada. Meus amigos estavam trabalhando, contrariando a tese de que carioca não trabalha. Coelho Neto onde eu estava hospedado na casa dos manos é periferia do Rio. Então, catei um buzão e fui para o centro bater cabeça.

Nesse dia seria escolhido de forma indireta, ou seja, sem a participação do povo , o novo presidente do Brasil. Eram "candidatos", Tancredo Neve e, adivinhem quem? Claro, ele, representando a direita, abençoado pelos militares, Paulo Salim Maluf! O escolhido, como todos estão cansados de saber foi Tancredo Neves, cargo que nem chegou a exercer, porque, como todos também estão carecas de saber, morreu antes disso, em virtude de uma violenta infecção hospitalar contraída após uma cirurgia no Hospital de Base de Brasília.

No momento do anúncio do "vitorioso", eu estava num bar tomando ,é claro, umas brejolas e confesso que fiquei mais contente com a derrota do Maluf do que com a vitória de Tancredo, que ficou mais famoso depois de morto do que quando era vivo. O dia também prometia no festival. Naquele dia se apresentariam Scorpions e AC/DC. Do lado brazuca, Kid Abelha e os Abóboras Selvagens (credo!), Barão Vermelho e Eduardo Dusek da musiquinha "Troque seu cachorro por uma criança pobre".

Não perdi meu tempo com Abóboras e Dusek. Durante a apresentação de um desses dois aí, colou bem do meu lado junto com uma pá de minas, Cazuza, em plena forma física e muito feliz. É difícil acreditar que anos depois, esse mesmo cara morreria de complicações decorrentes da maldita AIDS, ou, como melhor se expressam os povos de língua hispânica, de SIDA- SÍNDROME DA IMUNO DEFICIÊNCIA ADQUIRIDA. Subiria logo em seguida no palco e faria um bom show, agitando parte da rapaziada. Parte!

Um mar de roupas pretas mostrava bem o motivo de muitos estarem no festival naquele dia/noite. Pejorativamente chamados de "Metaleiros" pela mídia sedenta de rótulos, os amantes do Hard/Heavy Metal Rock, estavam ali para ver e ouvir Scorpions e AC/DC. Os primeiros no palco foram os alemães dos Scorpions. Tudo muito ensaiado, até mesmo as improvisações, como se veria no show idêntico do dia 19, menos a guitarrada que Rudolf Schenker tomou na cabeça, num malabarismo mal calculado. O ponto forte da apresentação do grupo, pelo menos no que diz respeito à participação do público, foi durante as baladas "Holliday" e " Still loving you", quando o mesmo "cantou" com a banda ("Still loving you" tocava horrores nas FM's). O bis teve três músicas, "The zoo", "No one like you" e "Can't get enough".

Suor, cansaço, desmaios no meio do público. No palco os primeiros acordes de uma SG, explosões, luzes, apoteose. Sim, são eles! Da terra dos cangurus, Austrália, a banda dos irmãos Young, AC/DC! Canhões de verdade com munição de mentirinha adornam o palco. Um sino de bronze ,que diziam pesar mais de uma tonelada, pendurado bem no meio do palco. O AC/DC é uma banda que não decepciona os fãs. Foi assim nas duas apresentações do Rock In Rio e também uma década depois em São Paulo. Não fazem shows meia-boca e, por isso, carregam nas turnês, toda a parafernália que faz a alegria dos AC's maníacos. Tudo isso não adiantaria nada se musicalmente eles também não tivessem essa preocupação. No set list praticamente todas as músicas que o fãs querem ouvir. "Problem child", "The jack", etc. Durante a música "Hells bells" (Sinos do inferno), o sino do centro do palco desce até uma altura onde o vocalista Brian Johnson possa descer a marreta no infeliz pra delírio da rapaziada. O guitarrista Angus Young com o tradicional traje de colegial com mochila e tudo, corre alucinado pelo palco. Angus tinha 33 anos em 85 e o vigor de 20. Sobe nos amplificadores Marshall tirando mil sons da sua inseparável e insubstituível Guitarra Gibson SG. Controle total sobre o público. Nem é preciso dizer como estava a pressão nas costas próximo ao palco. Os mais fraquinhos usavam os mais fortes como escudos, para não serem espremidos vivos. Desmaios, flagrantes de maconha ("legalize" era o cacete!), que se repetiriam até o último dia.

Qual a música que mais alucina nos shows da banda ,ainda do tempo do saudoso Bon Scott? Let o que? É isso mesmo! "Let there be rock", claro! É o que eles cantam agora, desculpem , cantavam naquela gloriosa noite. Não tenho muita certeza mas, acho que eles fecharam o show e a noite com "For those about rock", momento em que os canhões são "disparados" (as "explosões" eram criadas em sintetizadores) cada vez que Brian Johnson gritava "shot!" (atire) com uma saraivada final. Ninguém quer ir embora mas não tem jeito. Hora de caminhar dois quilômetros até o local de saída dos ônibus ou, pegar o carro ,pra quem veio de carro. Amanhã tem Ozzy!

 

QUARTA, 16- Não sei quantos mil haviam mas, acredito que o público era menor que o do dia anterior. De novo, algumas atrações na segunda apresentação, como foi o caso do Paralamas e Morais Moreira. Rita Lee faria a sua única apresentação também nesse dia contrariando a regra geral de duas apresentações, a exemplo do Iron Maiden . Gostava da Rita quando ela fazia parte dos Mutantes, a mais original banda brasileira de todos os tempos e também do disco com a banda Tutti Frutti, "Atrás Do Porto Tem Uma Cidade". Rolava um boato de que ela estava doente e a sua participação no Rock In Rio, com o maior cachê entre os nacionais, foi uma espécie de cala boca nos boateiros. Também no repeteco, Rod Stewart e, pela primeira vez, OZZY OSBOURNE. De novo a mistureba maldita de estilos conflitantes comum no RIR (Rock In Rio). Pelamordedeus! Rod Stewart com Ozzy Osbourne, Moraes Moreira e etc., num mesmo dia!! Chiclete com Whisky e banana no mínimo dá indigestão. . Dei uma olhada no show do Moraes Moreira e cai para traz, ou melhor dizendo, para os lados tomar umas "Malte Nojenta", apelido carinhoso da cerveja Malt 90, da Brahma, um dos patrocinadores do evento e comer meinha de mussarela (nunca comi tanta pizza na minha vida!) e esperar a vez do Ozzy e banda.

 

Uma publicação cujo nome não me recordo, escreveu que Ozzy não estava muito contente em dividir o palco com outros artistas porque dessa forma não era possível usar todo o equipamento de palco que ele usava normalmente. Isso não procede, visto que muitos artistas se apresentaram com a indumentária completa tais como Queen e Iron Maiden e Também o AC/DC. Teria dito, já em Londres ,que não entendia como o ladrão inglês Ronald Biggs preferia viver no Rio de Janeiro ao invés de em uma confortável prisão inglesa. Verdades ou mentiras, Ozzy estava gordo pra caramba e bebendo demais entre outras procedimentos destrutivos, assunto rotineiro na imprensa especializada.

O céu caiu naquele dia transformando brita, grama e terra num mangue só. Rock In Lama, foi como rebatizaram o evento. Não era por falta de manutenção. Todos os dias quando os portões se abriam, tudo estava bonitinho mas, a persistência da chuva junto com o tropel de milhares de pés era o bastante para desfazer tudo em minutos. Faltou sim um projeto decente de drenagem mas, naquela altura do campeonato, esse tipo de medida era impossível.

Calor infernal , apesar da fúria dos céus. Olhos esbugalhados de besta fera jogando baldes e baldes de água sobre a própria cabeça, aquele que foi o vocalista do grande Black Sabbath, uma lenda viva, desculpem o obvio, Ozzy está onde ele mais gosta de estar, ON STAGE (no palco). Uma treta próximo a cerca de segurança e ele não tem dúvidas: balde d'água nos briguentos! Uma galinha corre no palco, Ozzy sorri, talvez divagando que o negócio dele é morcego e não penosa. Do repertório da noite eu só consigo me lembrar que ele cantou "Paranoid" e "Iron Man" da época do Sabbath. "Sabbath, Sabbath!", gritaram muitos mas, Ozzy Osbourne, em transe, se ouviu, fez de conta que não.

QUINTA, 17- Dilúvio anunciando o fim do mundo. O mesmo não se podia dizer das atrações : Yes, Al Jarreau, Elba Ramalha e Alceu Valença. Fraquinho pra quem ainda ouvia os últimos acordes da noite anterior que foi fechada por Ozzy Osbourne. Claro que para os amantes de um som calmaria, o dia estava ótimo (no palco, no palco). O lugar estava abarrotado de bicho grilo e cheirando à incenso (que eu detesto!). A única novidade da noite era o Yes. Os demais já haviam se apresentado e basicamente o segundo show era o mesmo da primeira apresentação. Nunca gostei muito do Yes que, apesar de músicos excelentes como o baixista Chris Squire, não é nem progressivo nem pop e tem umas músicas chatíssimas de vários minutos. Bom, desta vez era cumprir tabela mesmo. Então, saída pela esquerda ou direita e tome breja. (Detalhe: usar o banheiro era um aventura. Significava, entrar para mijar e sair cagado).

SEXTA, 18- Lulu, Abóboras, Dusek, B52's, GoGo's e Queen. Nada que me emocionasse. Teria que ouvir de novo "Love of my life" do Queen, que só fez sucesso no Brasil, entre outras coisas muito menos cotadas ainda. A Cidade do Rock estava pura lama e tinha gente feito formiga (200 mil pessoas ou mais, conforme o mestre de cerimonias). De novo, alguns flagrantes de maconha feitos por truculentos seguranças, que eu nunca soube se eram policiais a paisana ou não. No mais, quem mandou comprar o passaporte para os dez dias?

SÁBADO , 19- Enfim a noite que todos os apreciadores de um som mais nervoso esperavam. Pra não perder o costume e até de forma previsível, a mídia "especializada" ou não, chamou o penúltimo dia do festival de "Noite dos Metaleiros", quando se apresentaram Ozzy Osbourne, AC/DC , Whitesnake e Scorpions. Só acertaram na "noite" porque, os grandes nomes da cena internacional, geralmente só aceitam se apresentar durante esse período, onde podem utilizar luzes e demonstrações pirotécnicas, comuns nessas apresentações mas, inúteis durante o dia . O interessante é que as bandas em questão, nem se rotulam como bandas de Heavy Metal. Ozzy chama o seu trabalho de "Ozzy Music" (pouco pretensioso né, apesar de ser uma lenda viva, etc.). O AC/DC, tem as suas raízes fincadas no blues e no Rock & Roll. Whitesnake é no máximo Hard Rock. Só mesmo o Scorpions podia ser chamado de Heavy mas, mesmo assim, naquela distante cena musical de 1985, muito diferente da salada de mil nomes em que se divide o mercado em tempos atuais. Papeu e Baby também faziam parte do set de artistas da noite. Erasmo Carlos, que estava na programação oficial, para evitar um novo vexame de vaias e pedradas, teve a apresentação transferida para o último dia, o xoxo domingo, dia 20.

  Pepeu praticamente repetiu a performance da primeira apresentação. Como eu já mencionei anteriormente, as mudanças na segunda apresentação de todos os artistas foram quase sempre mínimas. No caso de Pepeu Gomes, era uma imposição de sobrevivência e, foi o que ele fez, arrepiando de novo na guitarra e agradando os "rockers" já um tanto quanto calibrados na "Malte Nojenta" entre outras substâncias. Baby, como vocês já sabem, grávida, foi devidamente respeitada.

Se eu não estou louco, nem enganado, o Whitesnake do Sr. David Coverdale, que tinha John Sykes como guitarrista, na bateria o poderoso e infelizmente falecido Cozy Powel mais Neil Murray no baixo, foi quem se apresentou logo em seguida. Mesmo set list, claro, da primeira apresentação, incluindo "Love is a Stranger" que tocava várias vezes por dia nas FM`s. Scorpions, também, tudo igualzinho, improvisações inclusive, menos o sangue na testa do guitarrista Rudolf Schenker no acidente ocorrido na primeira apresentação (pra quem não sabe, irmão de Michael Schenker, que foi guitarrista do UFO, umas das grandes bandas dos 80's e, da banda que leva o seu nome, MICHAEL SCHENKER GROUP, formada por ele depois de abandonar o UFO. Lançou recentemente o disco "The Unforgiven" ). Ozzy com maquiagem preta em volta dos olhos e cara de serial killer (se é que serial killer tem alguma cara. Lembram-se do maníaco do parque? Cara de nerd , nada que lembre um assassino) repetiria as cenas dos baldes de água e músicas do tempo em que fazia parte do Black Sabbath, para delírio dos milhares de fãs. AC/DC, na minha opinião, era o mais esperado da noite. Quem já havia visto uma vez, não reclamou e, quem viu pela primeira vez , reclamou muito menos ainda da sequência de mega hits, tais como "Hells Bells", "Problem Child", "Highway To Hell", etc. Tudo o que todos queriam ver e ouvir e um pouco mais. Sino, tiros, Angus mostrando a bunda, enfim, o básico na sua melhor tradução. Gosto pra caramba de AC/DC mas, uma coisa que enche o saco é quando Angus Young fica sózinho no palco por mais de dez minutos solando e o cacete. Enfim, essa foi a melhor noite entre os dez dias de festival. Ainda tinha o domingo mas, eu deveria ter ido embora no sábado mesmo.

DOMINGO, 20- Barão, Erasmo, Blitz. Nina Hagen, Yes e Bife com Xuxu. É o tal negócio, já que comprou agora vai, né. Foram distribuidas luvas (vide reprodução) que deveriam ser erguidas num determinado momento do show, quando luzes especiais as fariam brilhar, mas, acabaram desistindo. La da barraca da cerveja, de vez em quando eu dava uma olhada para o palco. Erasmo e "eu não posso mais ficar aqui, a esperar..."; Blitz e aquela musiquinha idiota que tocava milhões de vezes nas rádios ditas rock ("Você não soube me amar"), e etc. Quem fechou a noite e o festival foi o Yes, com uns "colanzinhos" emprestados do Freaddie Mercury e, para variar, cantaram de novo, uma musica pé no saco de nome "Son" ou qualquer coisa parecida, que tocava, também, zilhares de vezes por dia nas já citadas FM's ( Pois é, em 85 o jabá corria solto da mesma forma que corre hoje nas atuais horrendas "Frequências Moduladas". Jabá, nesse caso não tem nada a ver com a deliciosa iguaria nordestina mas sim com o pagamento de propinas para que uma música seja executada até a exaustão, criando modismos forçados. Ou será que você nunca se auto-flagrou cantando porcarias que detesta?). Hora de pegar o Itapemirim e voltar para São Paulo.

RESUMO DA ÓPERA

Quem viveu nas décadas de 70 e 80 e participou de algum festival como, por exemplo, o de Águas Claras, interior de São Paulo, ou mesmo de alguns shows que rolavam no Parque do Ibirapuera, também em São Paulo, sabe muito bem o heroísmo que era bancar essas coisas. Equipamento meia-boca, patrocínio zero, tinha que gostar mesmo. Atrações gringas então, eram raríssimas. Até onde eu me recordo, na área do rock, haviam passados pelo Brasil, antes do Rock In Rio: Alice Cooper, Joe Cocker, Queen, Van Halen, Venon, Exciter, Quiet Riot e Kiss (em 83, com o já falecido Eric Carr na bateria, na última turnê do grupo usando maquiagem. Como todos sabem, o Kiss ficaria um bom tempo de cara lavada, até assumir de novo as velhas máscaras) . O Rock In Rio, mudaria tudo isso. Como disse logo no início da matéria, os equipamentos eram de primeiríssima (Comentou-se na época, a ocorrência de sabotagens nas apresentações dos brasileiros, sendo citado como exemplo, volume menor de som, quando os mesmos se apresentavam. Deve ter sido verdade porque, ainda hoje, quando se apresentam um gringo e um brasileiro num mesmo show, o brasileiro quase sempre é prejudicado). Eu nunca havia visto tantos amplificadores Marshall Juntos! A iluminação era fantástica, os palcos gigantescos, um set enorme de artistas estrangeiros e brasileiros, gostando de todos ou não. A Globo transmitia parte do festival ao vivo e parte gravações do dia anterior ( por falar nisso , já passou da hora da Rede Globo lançar esse material em DVD ou mesmo em VHS). Depois do Rock In Rio, o Brasil, timidamente foi entrando nas agendas das grandes bandas (e das bandas medíocres também), até chegar no que é hoje, com Dollar caro e tudo.

Em Janeiro de 1991, aconteceu o Rock In Rio 2. Só fui em um sábado, quando tocaram Sepultura, Megadeth, Judas Priest, Queensreich e Guns and Roses. O festival foi no maracanã, uma vez que, por questões políticas entre os Medinas e Leonel Brizola, que era governador do Rio em 85 e, por ordem do mesmo, a "Cidade do Rock" foi demolida poucos dias depois do final do festival .

Naquele abafado Sábado de tristes memórias, não pelas bandas, claro, mas pela organização zero (pelo menos naquele dia), a treta começava logo na entrada. O Portão, é isso mesmo, era apenas um portão, foi aberto quase na hora da primeira banda se apresentar, sem o mínimo de respeito com os que tinham viajado a noite inteira, como era o meu caso, e mesmo os que não tinham viajado mas haviam comprado o ingresso para o festival e mereciam ser bem tratados. Fomos literalmente espremidos nas catracas, controladas por pessoas despreparadas e alheias ao rock e agredidos por policiais. No recinto do festival, os preços eram mais do que abusivos e os banheiros podres. Falta de respeito também com o Sepultura, que teve o volume tisorado na cara dura (não falei!?), e a vacilada (não aprenderam com o Rock In rio I) de colocar o Lobão com uma bateria de escola de samba no dia (agora sim!) de bandas predominantementes Heavy Metal, repetindo o vexame do Erasmo Carlos em 85.

Quase dez anos depois, chegou a vez do RIR 3. Até agora, os nomes confirmados para o evento (Britney Spear, a Sandy americana, NSYNC, Pato Fú, Fernanda Abreu, que era da Blitz), não têm nada de Rock. É sabido que em um projeto dessa envergadura estão envolvidos muitos gastos, patrocinadores que exigem um bom retorno no dinheiro aplicado, etc. e, por esses motivos, atrações com apelo popular são necessárias para garantir a lucratividade do evento. Por outro lado, o público do verdadeiro rock, também é muito grande e de presença garantida. Então, vamos torcer para que, pelo menos em um dos dias o set seja , desculpem a repetição, realmente Rock! Até lá!

(Niva dos Santos- Setembro de 2000)

Veja Matéria do Rock in Rio 3